Por Igor Serrano
Nascido em 27 de março de 1921, em Campinas-SP, Moacyr Barbosa assinou seu primeiro contrato como goleiro no modesto Clube Atlético Ypiranga, em 16 de abril de 1942, após se destacar pela equipe do Laboratório Paulista de Biologia.
Ágil, saía do gol como ninguém, característica rara para os goleiros daquela época. Calçava chuteira tamanho 40 e, com seus 74 quilos e 1,77 metro de altura, tinha perfil físico bom para a posição. O Corinthians logo se interessou pelo passe do jovem Moacyr, mas o Ypiranga recusou negociar seu talento para um rival de São Paulo. Seria então na cidade do Rio de Janeiro, no Vasco, que a carreira do camisa 1 mudaria para sempre, a partir de 1944, indicado pelo craque Domingos da Guia, em uma negociação de altas cifras entre os clubes.
Com a cruz de malta em seu peito, Barbosa enfileirou recordes e títulos e rapidamente chegou à Seleção Brasileira. “Criador de uma manobra aérea para combater avanços adversários em cruzamentos ou lançamentos na área, Barbosa conseguia controlar a bola com apenas uma das mãos, trazendo o objeto central do jogo ao encontro do seu peito, como uma espécie de filhote de ave acolhido”, lembra Bruno Freitas no livro ‘Queimando as traves de 50: glórias e castigos de Barbosa, maior goleiro da era romântica do futebol brasileiro’. Além disso, seu chute de tiro de meta mudou a forma dos companheiros de posição adversários jogarem, já que diferente de si, quase ninguém lançava a bola para os atacantes na saída de jogo. Essa função geralmente era deixada para os defensores.
Foi decisivo para o Vasco ao parar uma das maiores equipes do River Plate de todos os tempos, a “La Máquina”, que contava com nada mais, nada menos que Alfredo Di Stéfano, Labruna e Lostau. Em 1948, o empate sem gols, após o pênalti que defendeu durante o tempo regulamentar, rendeu o título do Campeonato Sul-Americano de clubes e o apelido de Expresso da Vitória àquele elenco vascaíno.
Em 1950, Barbosa vestia a camisa 1 da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo disputada em casa. No duelo final contra o Uruguai, diante de um Maracanã completamente lotado, foi escolhido como o vilão pela imprensa e opinião pública da perda do título, por supostamente ter falhado no segundo e decisivo gol uruguaio, marcado por Ghiggia. A atribuição da culpa ao goleiro é deveras contraditória, já que no lance a defesa brasileira como um todo deu espaço de sobra para que o atacante invadisse a área com liberdade para o chute letal.
Depois daquela partida, Moacyr Barbosa não teve mais paz em sua vida. O goleiro se tornou recluso nos últimos anos de sua vida. Deixou o Rio de Janeiro e foi viver em Praia Grande, litoral de São Paulo, pois, como narra o jornalista Roberto Muylaert, na obra ‘Barbosa: Um gol silencia o Brasil’, “Barbosa deixou o Rio, porque não tinha mais paciência nem repertório para seguir respondendo às perguntas de todo mundo sobre a final da Copa do Mundo de 1950, decorrido quase meio século daquele jogo”.
Em Praia Grande conheceu Tereza Borba, sua vizinha, que em pouco tempo se tornou grande amiga e, mais do que isso, uma verdadeira filha. Barbosa, viúvo, não teve filhos com sua esposa e eterna companheira Clotilde, mas encontrou em Tereza, nos últimos anos de vida, o carinho e o respeito que o Brasil não lhe deu ao longo de tantos anos. Hoje Tereza é a responsável pelo acervo e legado da memória do goleiro. “Eu o conheci como uma pessoa comum, normal. Nem sabia que ele tinha sido goleiro. Nunca o vi de cara feia, reclamando. Ele era de muito bem com a vida. Quiseram que o Barbosa carregasse a cruz do calvário, mas a única cruz que ele carregou foi a cruz de malta, porque ele amava o Vasco. Ele era muito puro e muito especial. Ele era meu anjo negro. Era um ser humano incrível”, lembra a filha do coração.
Mas qual o motivo da culpa ser atribuída a Barbosa, goleiro, negro, e não aos marcadores da defesa que permitiram o chute de Ghiggia? Não seria mais um exemplo de racismo no futebol?
Carlos Alberto Figueiredo da Silva, em ‘Futebol, linguagem e mídia: entrada, ascensão e consolidação dos negros e mestiços no futebol brasileiro’, lembra do tratamento diverso ao que Barbosa recebeu o dado pela imprensa a Valdir Peres, branco, goleiro da Seleção Brasileira na Copa de 1982. Diante da surpreendente eliminação para Itália de Paolo Rossi, a análise dos jornais sobre Peres era de “falta de sorte” e “um dia de infelicidade”. O professor ainda acende o debate sobre o tema ao chamar a atenção para o fato de que depois de Barbosa, o Brasil praticamente não teve mais goleiros negros. Apenas na década de 1990 com Dida e nos anos 2000 e seguintes com Hélton e Jéferson, o Brasil voltou a ter um jogador negro com a camisa 1.
Ainda a título de comparação, podemos lembrar da também distinta postura com que imprensa e opinião pública trataram o goleiro Júlio César, branco, presente na maior e mais humilhante derrota da Seleção Brasileira em Mundiais, o 7×1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, também disputada no Brasil. Ele, que também já havia falhado decisivamente no duelo contra a Holanda na Copa anterior, na África do Sul, seguiu sua vida normalmente após o Mundial de 2014, atuando, inclusive, por anos como goleiro do Benfica de Portugal e, em seguida, encerrando a carreira no Flamengo. Não foi ridicularizado e perseguido nas ruas, nem na imprensa europeia e muito menos na brasileira.
A Seleção Brasileira conquistaria o torneio mundial masculino adulto de futebol por cinco vezes, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, sempre contando com jogadores negros nos times titular e reserva. No entanto, sessenta anos se passaram desde a conquista da primeira estrela para um jogador negro voltar a ser discriminado por uma derrota coletiva.
Na Copa de 2018, disputada na Rússia, após a eliminação para a Bélgica nas quartas-de-finais, o volante Fernandinho, autor de um gol-contra no duelo, foi eleito por alguns torcedores brasileiros como o vilão e responsável pela derrota por 2×1. Após a partida, diversas ofensas racistas foram postadas na internet direcionadas ao atleta.
Barbosa foi, certamente, a maior injustiça. Hoje ele segue eternizado em São Januário, em um grande mural de grafite elaborado pelo Projeto Negro Muro, atrás de um dos gols do estádio, para que jamais esqueçam o que representou esse gigante para muito além da colina.

