A taça do mundo é nossa?

Por Igor Serrano. Foto de capa: cena do filme ‘o roubo da taça’. 

A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa!”, diz uma famosa marchinha composta em 1958. Mas será mesmo que com o brasileiro não há quem possa? Dentro e fora de campo, desde que o futebol aterrissou no país, há mais de cem anos, vemos que a história não é bem assim como atesta a canção. Um episódio, inclusive, contribuiu e muito para isso. 19 de dezembro de 1983. Neste dia, o futebol do Brasil foi manchete de noticiários por todo o mundo, apesar de nenhuma partida ter sido jogada. A data ficou marcada na história por conta do roubo da Taça Jules Rimet de dentro da sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, por três assaltantes. 

Esculpida em 30 cm e 3,8kg de ouro puro por Abel Lafluer, com a deusa grega Nice em destaque, representando o triunfo e a glória, a Taça Jules Rimet foi criada para a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 1930, disputada no Uruguai. A seleção campeã de cada edição ficava com a posse do troféu até a edição seguinte. Aquela que vencesse por três vezes seguidas poderia ficar com a propriedade.  

Como as edições foram passando e ninguém se aproximava da regra para ficar com o objeto em definitivo, decidiu-se mudar o critério para quem conseguisse sagrar-se tricampeã, ainda que de forma não consecutiva. O que ninguém poderia imaginar é que, após recebê-la no México, em 1970 (pelos títulos daquele ano, 1962 e 1958), a Confederação Brasileira de Futebol fosse perdê-la treze anos depois dentro da sua própria sede. 

Na noite de 19 de dezembro de 1983, Sergio Peralta, que era dirigente do Atlético-MG, e seus dois comparsas, Bigode (José Luiz da Silva) e Barbudo (Francisco Rivera), levaram a taça original Jules Rimet da sede da CBF, na época, localizada na Rua da Alfândega nº 70, no Centro do Rio, depois de render o único segurança do local.  

Posteriormente, diante da dificuldade em conseguir um comprador para o objeto tão valioso e visado, o trio o vendeu para um argentino, Juan Carlos Hernandez, que derreteu a taça para poder reutilizar seu ouro. 

Em 1988, os três brasileiros foram condenados a nove anos de prisão e o argentino a três. Enquanto aguardava decisão do recurso, em liberdade, Barbudo foi assassinado, em 1989. Peralta foi preso apenas em 1994, após longo período foragido. Cumpriu dois anos da pena, foi libertado e faleceu em 2003, vítima de infarto. Bigode, também foragido, foi encontrado em 1995, cumpriu três anos de sua pena até ser libertado. Por fim, Hernandez, foi detido somente em 1998, por conta de outro processo criminal, sobre tráfico de drogas. Após sete anos, obteve a liberdade. 

A história virou filme, é claro, com ares de comédia. Estrelado por Taís Araújo, Milhem Cortez, Mr. Catra, Paulo Tiefenthaler, Stepan Nercessian e grande elenco, “O roubo da taça” foi lançado em 2016, dirigido por Caíto Ortiz. 

O episódio é apenas mais um dos tantos momentos constrangedores que os cartolas do futebol brasileiro expuseram o país ao ridículo perante o mundo com seu tradicional amadorismo na gestão, como bem lembra o professor e jornalista esportivo, Leandro Lacerda, “foi um dos maiores escândalos administrativos que tivemos não só na história do esporte brasileiro, mas do mundial, porque a Taça Jules Rimet tinha um significado especial para todos os países, ainda mais por ter sido o troféu disputado desde a primeira Copa do Mundo, em 1930. O episódio do roubo da taça representou uma derrota gigantesca para o futebol brasileiro porque mostrou que o país, infelizmente, ainda era amador em muitos aspectos. Um troféu dessa importância jamais poderia ter ficado armazenado do jeito que estava, com acesso facilitado a qualquer pessoa interessada em roubá-lo”. 

Hoje, quarenta anos depois, no momento que os jornais estampam mais uma das graves crises administrativas na CBF (com eleições anuladas pela Justiça Comum e interventor nomeado), fica a pergunta: a taça do mundo alguma vez já foi realmente nossa? 

Imagem 1, Divulgação: Jornal Folha de SP de 21-12-1983.

Imagem 2, Zagallo e Carlos Alberto Torres com a Jules Rimet. Divulgação: Luis Humberto-Revista Veja.

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