A luta antirracista de Vini Jr como legado de Zumbi

Foto capa: Reprodução/O Globo

Por Anna Alves

Comemorado em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra homenageia Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo da resistência negra na luta contra a escravidão de africanos e seus descendentes. Zumbi foi morto nesse mesmo dia, em 1695, sendo que, apenas na década de 1970, essa data passou a ser celebrada, ainda que de forma não oficial, por meio de movimentos que buscavam resgatar e valorizar o legado de Zumbi. A data foi formalmente reconhecida apenas em 2003, com a aprovação da Lei nº 10.639 – que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas.

Ainda hoje, a luta contra o racismo permanece viva e ter novas figuras que personifiquem o legado de Zumbi é fundamental. O jogador Vinícius Júnior tem se destacado nesse contexto. Contratado pelo Real Madrid em 2018, rapidamente conquistou espaço no futebol mundial e na Seleção Brasileira, acumulando títulos e prêmios. Contudo, junto à fama, o jogador enfrenta constantemente a necessidade de superar episódios de racismo.

Desde 2021, o atacante tem usado sua voz e sua visibilidade para denunciar os casos de discriminação racial que vivencia no ambiente esportivo. Nesse mesmo ano, por exemplo, Vini compartilhou no X (antigo Twitter) uma foto de sua tatuagem, que traz a frase: “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra”. O trecho, retirado de um discurso feito pelo imperador da Etiópia, Haile Selassie, foi popularizado por Bob Marley, em sua música “War”. Na legenda da foto, Vini escreveu “E lutaremos até o fim”, reafirmando sua resistência e determinação frente ao preconceito.

Créditos: Reprodução/X

Além das suas postagens nas redes sociais, Vini Jr também atua por meio de outras ações concretas. Com o apoio da CBF, do governo brasileiro e de outras instituições, ele denuncia casos de racismo e participa de campanhas, como o movimento , que visa conscientizar jogadores, torcedores e a sociedade sobre a importância do respeito e da inclusão, incentivando o debate sobre o tema e inspirando milhões de pessoas.

Outro exemplo disso é o Instituto Vini Jr, criado em 2020 com o objetivo de apoiar escolas públicas na construção de novos modelos de ensino-aprendizagem, utilizando a tecnologia e o futebol como ferramentas de conexão. A ONG também se compromete a promover a educação antirracista, auxiliando os professores a abordarem esse tema de forma eficaz.

Dentro de campo, Vini Jr não se abate com as provocações, pelo contrário, transforma seu “futebol arte”, com dribles e velocidade, em manifestos de resistência. Ao marcar ou apoiar um gol, exibe suas comemorações características, na forma de dança, num tributo à diversidade cultural. Em 2022, por exemplo, antes da partida contra o Atlético de Madrid começar, torcedores do Atlético chamavam Vini de “mono” (macaco). Após o primeiro gol do Real, Vinícius e Rodrygo comemoraram sambando, numa resposta contundente, face ao preconceito.

Dias antes, o jogador já havia sido atacado pelo presidente da Associação Espanhola de Empresários de Jogadores, Pedro Bravo, que associou as danças a macaquices. O apresentador não foi punido, apenas se retratou publicamente, pedindo desculpas pela fala. Toda a ocasião gerou indignação nas redes sociais, principalmente entre os brasileiros, que levantaram a hashtag em apoio ao atleta.

Outro caso que mobilizou as redes sociais foi o jogo entre Valencia e Real Madrid, em maio de 2023. Vinícius confrontou torcedores que faziam cânticos racistas, que continuaram os insultos. Seguindo o protocolo, a partida foi paralisada e um aviso ameaçando a suspensão do jogo foi emitido nos telões do estádio Mallorca. A partida pôde ser retomada e nos acréscimos, Vini foi expulso por colidir com o goleiro adversário – resultando em amarelo para ambos – e por acertar Hugo Duro no rosto. A decisão gerou revolta entre os torcedores, pois o VAR revisou o lance, mas desconsiderou o mata-leão de Duro em Vinícius.

Créditos: Reprodução/Globo Esporte

Na época, o Valencia foi penalizado com a proibição da presença de sua torcida em 5 jogos, medida que foi reduzida para 3 após recurso. Somente em junho deste ano, os três torcedores identificados foram punidos. O trio foi condenado a 8 meses de prisão e proibidos de frequentar estádios em território espanhol por 2 anos. Embora ainda haja desafios, essa condenação é altamente significativa, especialmente por ser a primeira desse tipo na Espanha.

Em um país que, em muitas ocasiões, minimiza ou desconsidera a gravidade do racismo, as reações de Vini Jr são frequentemente rotuladas pela mídia como “provocativas” ou “violentas”. Alguns jornais, inclusive, exibem capas carregadas de preconceito, tentando distorcer suas atitudes e criar uma narrativa negativa sobre o jogador. Esses fatores evidenciam a dificuldade de enfrentar o racismo, ainda profundamente enraizado nas estruturas do futebol espanhol.

Créditos: Montagem/Anna Alves

A luta de Vinícius Júnior não é individual, mas faz parte de uma longa jornada coletiva para confrontar o racismo e promover a igualdade. No Dia da Consciência Negra, sua postura corajosa ecoa o espírito de Zumbi dos Palmares, lembrando que a resistência continua – dentro e fora dos gramados.

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