Foto capa: Biel Aliño/EFE
Por Pedro Bernardo
O esporte deveria ser um lugar onde, raça, origem, classe social não seria levado em conta. Onde o talento e o esforço precisariam ser o único diferencial. No entanto, a realidade mostra que a cor da pele ainda é um fator que define como um atleta será tratado. Atletas negros lutam diariamente contra um preconceito estrutural que se manifesta de diversas formas.
No futebol, Vinicius Júnior se tornou símbolo de resistência após sofrer ataques racistas em diversas partidas. Lewis Hamilton, apesar de ser um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, teve de lutar contra um ambiente elitizado e predominante branco para se consolidar no esporte. No tênis, Serena Williams, após ouvir insultos racistas, boicotou o torneio Indian Wells por 14 anos. Além de sua postura ser constantemente questionada de maneiras que suas adversárias brancas jamais enfrentariam.
Um caso mais recente ocorreu no dia 06 de março, o atacante Luighi e o meia Figueiredo da categoria Sub-20 da equipe do Palmeiras, foram alvo de insultos racistas durante partida contra o Cerro Porteño pela Libertadores Sub-20. Um torcedor, com uma criança no colo, imitou um macaco para o meia palmeirense, após ele ser substituído e deixar o campo. Em seguida, Luighi sofreu ofensas racistas. Além dos insultos, torcedores da equipe paraguaia xingaram e cuspiram no jogador.
Organizações como o Observatório da Discriminação Racial no Futebol têm buscado documentar esses casos e pressionar por uma mudança real. Através da coleta de dados, pesquisas e ações de conscientização, o Observatório tem trabalhado para expor a prevalência do racismo no esporte e exigir políticas públicas que promovam a inclusão e o combate ao preconceito. Em relatório feito no ano de 2023, em conjunto com a CBF, a organização apontou um aumento de 39% nos casos de racismo no futebol. O relatório aponta que, desde 2016, os casos de racismo têm aumentado de forma contínua, com a única exceção em 2020, devido à pandemia de Covid-19. Quando comparado a 2014, ano inicial da análise, o número de ocorrências aumentou em 444%.
Marcelo Medeiros, cofundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, falou sobre os desafios enfrentados pelo futebol brasileiro no combate ao racismo e as ações da organização para promover a inclusão e a conscientização no esporte. Para ele, “em termos de número, o futebol é o esporte que tem mais denúncias de racismo. Temos denúncias de racismo em outros esportes, porém são poucas. Muitas vezes elas são poucas, porque o espaço que elas estão inseridas é mais difícil para pessoas negras. Então se a pessoa denunciar, ela pode ser facilmente retirada desse espaço”.
Para promover uma maior inclusão racial no esporte, Marcelo Medeiros acredita que, “a política pública mais adequada seria a implementação das cotas, entretanto é muito difícil dos times debaterem a questão das cotas, mas precisamos pensar na promoção da diversidade. O Observatório junto com a CBF fez ações nesse sentido. Professores negros selecionados para bolsa de estudo de licença para treinador e está com o edital aberto para mulheres negras. O futebol precisa implementar essa cultura de promover a diversidade e inclusão. Não ter profissionais negros nos espaços de gestão e liderança também é racismo”.

Créditos: Lucas Figueiredo/CBF
Apesar dos avanços em algumas áreas, o racismo ainda está profundamente enraizado no esporte, especialmente no futebol. As declarações e ações de organizações como o Observatório da Discriminação Racial no Futebol e o trabalho de figuras como Marcelo Medeiros são fundamentais para destacar que a luta contra a discriminação precisa ir além da conscientização.
