OPINIÃO: Como solucionar o elefante na sala (de imprensa)?

Foto de capa (créditos: reprodução/Freepik)

Por Igor Serrano

Nos dias 5 e 6 de maio, o campus da UniFacha, em Botafogo, foi palco do excelente 1º Congresso de Jornalismo Esportivo. Apesar das doze horas de programação diária e a diversificada participação de mais de 50 profissionais da área como palestrantes, um tema foi debatido quase como um mantra ao longo do evento: o desconforto gerado pelos novos agentes da área, os youtubers de clubes, que, em muitos casos, não são formados em comunicação social e não seguem os preceitos jornalísticos nas salas de imprensa.

Em 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu derrubar a exigência de diploma para exercício da profissão de jornalista. Ao julgar o Recurso Extraordinário nº 511.961, interposto pelo Ministério Público Federal (MPF) e o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp), os ministros da Corte decidiram que a formação universitária não poderia obstar o pleno exercício das liberdades de expressão e informação e atenderam assim ao anseio dos empregadores, desqualificando totalmente a categoria profissional (que chegou a ser comparada nos autos do processo com ofícios que, no entendimento dos julgadores, também não exigiriam formação prévia como a culinária e a atuação).

Desde então o Brasil recebeu os Jogos Mundiais Militares, a Copa do Mundo de Futebol Masculina da FIFA, as Olímpiadas e Paraolimpíadas de Verão e a tecnologia avançou a níveis nunca imaginados. Hoje, com um celular e um bom sinal de internet é possível comunicar-se com o mundo e enviar vídeos e imagens de alta resolução em tempo real aos acontecimentos.

Em paralelo, o mercado de trabalho para os jornalistas, que já não era dos melhores antes da decisão do STF, tornou-se ainda mais restrito e competitivo. Com a instabilidade da economia do país nos últimos dezesseis anos, redações foram enxugadas, rádios e jornais fechados e inúmeros profissionais da noite para o dia encontraram-se sem trabalho. Estudo feito pela LCA Consultoria mostrou que, em 2021, havia 38.926 jornalistas no Brasil, dos quais 70,8% diplomados.

Foi aí que muitos decidiram aproveitar os recursos tecnológicos disponíveis para criar os próprios espaços, blogs, sites e canais em múltiplas redes sociais, passando a fazer cobertura especializada de times de futebol, uma amplificação da realidade já existente dos setoristas. E nessa onda de oportunidade, muita gente que não era jornalista diplomado decidiu fazer o mesmo. E foi aí que o elefante surgiu na sala. Mas, como abordado até aqui, sabemos como ele chegou lá.

Hoje não é mais incomum coletivas de imprensa de atletas e treinadores de futebol receberem perguntas de Fulano do Canal “Fanáticos pelo XYZ Futebol Clube” ou Beltrano do “Futebolão Até Morrer”. E estes, inseridos em um cosmo onde os acessos ao material por si produzidos são monetizados, seguem uma cartilha totalmente diferente do código de ética do jornalismo. Em alguns casos optam por fazer brincadeiras, em outros perguntas polêmicas que trazem a desejada atenção para seus canais e prejudicam o trabalho dos profissionais que fariam a pergunta seguinte (que muitas das vezes nem chega a ser realizada, com o abandono dos entrevistados). E para o problema configurado, trago aqui uma sugestão do que seria a melhor resolução.

É legítimo, sem dúvidas, que pessoas em um dos países com maior índice de desigualdade social busquem meios permitidos pela lei para garantir o próprio sustento. Por outro lado, as decisões do STF não são imutáveis e permanentes, em diversas ocasiões o tribunal já foi provocado e anos depois mudou o entendimento que tinha sobre alguns temas.

Urge que o Supremo, ao menos, reveja parcialmente sua decisão. Se entende que o diploma não pode ser óbice para a plenitude das liberdades de expressão e informação, que ao menos se digne de determinar que algumas das atividades da profissão de jornalista só podem ser executadas por profissionais diplomados (como participar de coletivas, salas e tribunas de imprensa). E aqui faço um paralelo a seguir.

Aquele que tem noção de primeiros socorros não pode exercer a medicina, da mesma forma quem é bom em cálculo, não pode ser responsável por erguer um prédio. A pessoa que entra com uma ação na justiça em nome próprio nas hipóteses em que não é obrigatória a presença de um advogado (Habeas Corpus e Pequenas Causas), não passa a ser um.

Aliás, falando no mundo jurídico, com o boom de faculdades de Direito criadas nos últimos vinte e cinco anos no país, algumas de qualidade duvidosa, o mercado foi inflado de formados (bacharéis) que não são advogados, pois não conseguem a aprovação no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Essas pessoas podem trabalhar em escritórios de advocacia, mas não podem realizar as atividades exclusivas a inscritos na OAB, como determina o estatuto (Lei nº 8.906/94).

O caminho que sugiro não tiraria trabalho dos “novos comunicadores” e ao mesmo tempo obrigaria a todo canal de Youtube ou TikTok ter ao menos um jornalista diplomado em sua equipe. O meio termo possível, creio eu. Com um pouco de boa vontade e empatia do STF pela classe jornalística, é possível. Basta que parem de ignorar o elefante na sala.

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