Foto capa: Reprodução/mixriofm.com.br
Por: Artur Povoas
O ritmo que conhecemos como reggae surgiu na década de 1960, na ilha caribenha da Jamaica, influenciado por gêneros como ska, rocksteady e mento. Com raízes profundas no povo jamaicano, sua essência está diretamente ligada ao movimento rastafári — uma filosofia de vida que valoriza a conexão com a natureza, a espiritualidade e a luta contra a opressão. As letras ecoam essa visão de mundo, promovendo valores como igualdade, liberdade e justiça.
Os primeiros rastros do reggae no Brasil
O reggae chegou ao Brasil no fim dos anos 1970, impulsionado pelo sucesso internacional de Bob Marley e pela expansão da cultura rastafári. As primeiras influências vieram por meio de discos importados, viajantes e rádios que captavam transmissões do Caribe. Aos poucos, o ritmo foi se infiltrando nos guetos urbanos, especialmente nas periferias do Norte e Nordeste, onde sua batida cadenciada e suas mensagens de resistência encontraram terreno fértil. No Maranhão — especialmente em São Luís, hoje conhecida como “Jamaica Brasileira” — o reggae floresceu com força e se tornou parte fundamental da identidade cultural local.

Reggae brasileiro: presente e pulsante
Atualmente, com raízes firmadas em solo brasileiro, o reggae segue vivo e se reinventa com artistas como Ponto de Equilíbrio, Natiruts, Marina Peralta, Mato Seco e Cidade Negra. Esses nomes mantêm a essência do gênero, enquanto dialogam com novas gerações e influências sonoras. Festivais como o República do Reggae, realizado em Salvador, reúnem milhares de fãs e mostram que o ritmo ainda é um potente instrumento de expressão social, espiritualidade e resistência. Da periferia ao mainstream, o reggae brasileiro continua sendo um espaço de voz, acolhimento e luta.

Além da produção musical, o reggae consolidou-se no Brasil como um estilo de vida. Elementos visuais, como as cores verde, amarela, vermelha e preta, os cabelos em dreadlocks e as roupas largas, carregam simbolismos ligados à ancestralidade africana, à espiritualidade rastafári e à resistência anticolonial. Em cidades como São Luís, Salvador e até mesmo em periferias urbanas de São Paulo e Rio de Janeiro, é comum encontrar coletivos culturais, feiras, lojas e eventos que celebram o reggae como forma de afirmação identitária.
A cultura também se manifesta em outras linguagens artísticas: está presente em murais de grafite com mensagens sociais, na poesia marginal, na literatura periférica e em expressões ligadas à moda e ao empreendedorismo negro. Nas comunidades, ele funciona como ferramenta educativa e de inclusão, muitas vezes articulado a projetos sociais que usam o ritmo e sua filosofia como ponte para o protagonismo juvenil, a valorização da cultura afro-brasileira e o combate às desigualdades.
Quando Bob Marley bateu bola no Brasil

Em março de 1980, o Brasil recebeu não apenas uma lenda do reggae, mas também um apaixonado por futebol: Bob Marley. Durante sua breve passagem pelo país, o cantor protagonizou um episódio curioso e simbólico — um jogo de futebol no campo do Flamengo, no Rio de Janeiro, ao lado de músicos brasileiros como Chico Buarque, Toquinho e Alceu Valença.
Vestido com o uniforme rubro-negro, Marley mostrou que seu amor pelos gramados era tão genuíno quanto sua música. Para ele, o futebol era mais do que um esporte — era uma forma de liberdade, expressão corporal e conexão com as pessoas. As fotos da partida correm o mundo até hoje, eternizando esse encontro inusitado entre o rei do reggae e ícones da música brasileira.
O episódio ilustra não só a afinidade entre culturas, mas também a recepção calorosa que o Brasil ofereceu a Marley, cuja presença ajudou a cimentar ainda mais o respeito e o carinho que o país nutre pelo reggae até os dias de hoje. Bob Marley, ao perceber as semelhanças entre os ritmos brasileiros e o reggae, chegou a dizer: “O samba e o reggae são como irmãos. Ambos nasceram da luta e da resistência, e têm o poder de falar diretamente ao coração das pessoas.”
O Dia Nacional do Reggae, celebrado em 11 de maio, é uma data fundamental para reconhecer não apenas o ritmo, mas a importância cultural e social do reggae no Brasil. Mais do que uma expressão musical, o reggae é um símbolo de resistência, de luta contra a opressão e de valorização da identidade. Ao celebrarmos esse dia, reforçamos o compromisso com a diversidade cultural e com a preservação dos valores que o reggae representa: igualdade, liberdade e justiça, que continuam a ressoar em cada batida e mensagem desse gênero transformador.
