Por Mariana Silvestre
Foto capa: reprodução/Pinterest
Rage Against The Machine usou do rock e do rap para manifestar contra o racismo, o imperialismo e a opressão, e assim se tornou uma das bandas de nu-metal mais influentes dos Estados Unidos durante os anos 1990.
Ligados pelo gosto musical e pelo desejo de justiça social, os integrantes Zack de La Rocha (vocalista), Tom Morello (guitarrista), Tim Commerford (baixista) e Brad Wilk (baterista) se uniram em 1991 em Los Angeles, Califórnia, e começaram uma nova era de música e ativismo.
‘Raiva Contra a Máquina’
A ligação da banda com movimentos políticos começa a partir do seu nome: Rage Against the Machine que, traduzindo para o português, significa ‘Raiva contra a máquina’. O nome faz referência a aversão ao sistema capitalista, sendo ‘machine’ uma metáfora para a estrutura opressiva em que vive a sociedade.
O nome criado por Zack de La Rocha foi inspirado no movimento Ludista que surgiu na Inglaterra durante a Revolução Industrial, quando operários, conhecidos como ludistas, começaram a quebrar as máquinas das fábricas em que trabalhavam como uma forma de protesto à substituição da mão de obra humana que ameaçava seus empregos e condições de trabalho.
‘Bomtrack’
Sabendo que estariam indo contra seus princípios anticapitalistas ao assinarem contrato com uma lucrativa gravadora da indústria musical, viram nisso uma oportunidade de revolucionar o sistema de dentro para fora. Assim, seu primeiro single traz uma afronta aos donos do poder, denunciando a maneira como eles usam de símbolos nacionais e da mídia para ceder a interesses econômicos, tornando a estreia da banda na indústria uma “bomba” jogada naqueles que controlam o sistema.

Além de críticas anticapitalistas, o single traz também uma mensagem anti-imperialista, rejeitando o ‘Destino Manifesto’ e colocando em seu visual referências políticas latino-americanas, como a luta revolucionária no Peru, Sendero Luminoso, no vídeo clipe e a imagem de Che Guevara, revolucionário argentino.
O monge em chamas
O primeiro álbum do grupo traz na capa a brutal fotografia “O monge em chamas”, tirada por Malcolm Browne em 1963 durante os protestos contra o regime de Ngo Dinh Diem no Vietnã.

Na foto, o monge budista Thich Quang Duc atira fogo no próprio corpo sem exaltar nenhum grito de dor, como uma forma de protesto contra o regime pró-católico e discriminatório ao budismo que controlava o país na época, e que também apoiava o governo dos Estados Unidos. A escolha da imagem como capa do álbum, foi como um aviso de que o governo americano seria o principal alvo das críticas sociais do projeto.
Lolapalooza 1993
No Lolapalooza de 1993, a banda performou um dos atos mais memoráveis do festival, ficando nus no palco durante 15 minutos, com as bocas tapadas com esparadrapos e com uma letra da sigla PMRS (Parents Music Resource Center) pintada no peito de cada integrante, como uma forma de protesto a censura.

A banda foi convidada para abrir o festival no palco principal na mesma época em que todas as suas músicas receberam o selo de censura ‘Parental Advisory’, destinado a alertar pais sobre conteúdos explícitos em mídias. Os integrantes acreditavam que a ação fazia parte de um movimento político do candidato republicano da época, que usava de conceitos conservadores para restringir músicas com mensagens políticas explícitas.
Existe também a teoria de que o protesto foi uma solução a um transtorno inesperado, onde Zack de La Rocha teria perdido a voz depois de uma árdua turnê na Europa, se aproveitando então do improviso para manifestar.
‘Killing in the name’
Composta em união aos Distúrbios de Los Angeles em 1992, uma reação violenta da comunidade negra estadunidense à absolvição dos policiais responsáveis por agredir brutalmente Rodney King, jovem negro americano, a canção ‘Killing in the name’ é uma crítica direta ao abuso de poder sobre comunidades racializadas, fazendo referências a Ku Klux Kla e a relacionando com a polícia americana.
A música se tornou um hino contra a violência vinda da dominação autoritária, deixando o questionamento “matando em nome de”, sobre quem usa da violência para oprimir e perseguir minorias, e trazendo a resposta “não vou fazer o que você manda”, como um grito de rebeldia a essa submissão.
As chamas na bandeira
Outra performance marcante e polêmica da banda, foi a queima da bandeira estadunidense, no final de seu show no catastrófico festival Woodstock 99.

A banda era uma das mais aguardadas do festival, e sua performance foi uma das mais icônicas graças ao protesto do final, onde, além da bandeira, as caixas de som também queimavam, encerrando o show de forma desafiadora.
A guitarra de Tom Morello
Como um ato individual, o guitarrista da banda, Tom Morello, tem a tradição de levar expressões de protesto na parte de trás da sua guitarra e parar durante o show para levantar o instrumento e mostrar a frase ao público.

Expressões como “f*uck Trump” e “nobody for presidente” já estiveram na parte de trás da sua guitarra, e até o Brasil já foi representado em seus protestos com frases como “fora temer”, em um show que fez em SP com sua segunda banda Prophets of Rage, e “justiça por Marielle” em outro show que fez no país em 2018, dessa vez acompanhado da banda Freedom Fighters Orchestra, seis meses após a morte da ativista.
A luta contra o ICE
Tom Morello, assim como todos os integrantes da banda, sempre expressou abertamente sua oposição as ações do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) e se mantém ativo nas recentes manifestações em defesa dos imigrantes que vivem nos Estados Unidos.

Na sua atual luta contra as políticas de imigração, o guitarrista participou da campanha Flags in the Stands, segurando um pano escrito “Ice Out” durante o Superbowl, fez um show em solidariedade as mortes de Renee Good e Alex Pretti, baleados por agentes em Mineápolis, onde fez discursos incentivando a resistência, e expôs a expressão “f*ck ICE” na parte de trás de sua guitarra, e até disponibilizou para seus fãs uma playlist com 65 faixas, escolhidas por ele, para protestar contra o ICE.
Rage Against the Machine está em hiato desde 2022, totalizando mais de 20 anos de trabalho político e musical e, apesar da banda não lançar mais projetos, suas críticas e denúncias continuam atuais, e sua arte ainda serve de inspiração para uma geração que luta pelo fim da opressão em busca da liberdade.
