Título: A guerra virtual: IA, memes e a disputa pelo imaginário global no conflito EUA X Irã 

Foto Capa: reprodução de post de Donald Trump como um messias na Truth Social. (Créditos: reprodução/O Globo)

Por Rodrigo Modenesi 

Enquanto mísseis cruzam o céu do Oriente Médio e navios de guerra manobram no Estreito de Ormuz, uma outra batalha se trava nas telas de milhões de pessoas ao redor do mundo. É a guerra dos memes, acelerada e radicalmente transformada pela inteligência artificial e pelas redes sociais. 

O conflito entre Estados Unidos e Irã, que eclodiu com os ataques conjuntos americano-israelenses em 28 de fevereiro de 2026, inaugurou um novo capítulo na história da propaganda de guerra, o da “slopaganda“. O conceito foi criado para descrever posts virais em redes sociais com produção barata, rápida e gerada por IA, com propaganda política e ideológica envolta em linguagem pop. A palavra é uma combinação da expressão “desleixo/porcaria”, sloppy em inglês, com propaganda. Mas de “desleixo” e casualidade esses posts só têm a aparência. 

Desde o início do conflito, Donald Trump utiliza sua conta no Truth Social, e também os perfis oficiais da Casa Branca no X (Twitter), como centros de difusão de conteúdos midiáticos provocativos e beligerantes. Os posts têm como finalidade divulgar a estética e a ideologia da cultura MAGA Make America Great Again (em português: Torne a América Grane Novamente)

A Casa Branca alimentou suas redes com vídeos de slopaganda que mesclam imagens reais de ataques aéreos com cenas de jogos como Call of DutyGrand Theft Auto e referências sonoras de Top Gun e Mortal Kombat. Os produtos apresentam narrativas com temas militares embaladas na linguagem do entretenimento pop. A secretária de imprensa Karoline Leavitt chegou a se gabar de que os vídeos da Casa Branca geraram mais de dois bilhões de impressões.

A ofensiva simbólica norte-americana ganhou destaque na mídia no dia 13 de abril, quando o presidente publicou um post com imagens geradas por IA que o retratavam como uma figura messiânica. Nele, ele aparecia com vestes bíblicas pondo as mãos sobre um enfermo, numa alusão direta à Jesus Cristo. A publicação gerou milhares de impressões negativas, inclusive entre membros cristãos da base republicana que a consideraram como “blasfêmia”. A reação pública foi tão intensa que o post foi retirado do ar horas depois.  

Imagem de vídeo produzido pela Explosive Media (@ExplosiveMediaa) mostra Trump e Netanyahu como figuras de Lego (créditos: reprodução/O Globo)

A resposta iraniana, contudo, foi o que verdadeiramente surpreendeu analistas e pesquisadores. O grupo pró-Irã Explosive Media, @ExplosiveMediaa no X (Twitter), inundou as redes com animações sofisticadas em estilo Lego. Nelas Trump, Netanyahu e membros do gabinete americano aparecem como bonecos de plástico sendo humilhados, derrotados e ridicularizados. Em um dos vídeos mais virais, um comandante naval iraniano ri ao ler uma postagem de Trump no Truth Social alardeando a destruição total da frota iraniana. Em outro, Trump é mostrado cada vez mais apático enquanto bases dos EUA são atingidas por mísseis e líderes mundiais se recusam a ajudá-lo. A trilha sonora do vídeo é um rap que chama o presidente americano de “fantoche de Netanyahu”. 

Embaixadas iranianas ao redor do mundo também entraram no jogo, no que parece ser uma resposta coordenada às ameaças de Trump nas redes sociais para reabrir o estreito de Ormuz. A representação no Zimbábue respondeu a um ultimato do republicano com ironia fina, para pedir que ele ajustasse o horário da ameaça. A embaixada do Irã na África do Sul escreveu no X (Twitter): “A chave está embaixo do vaso de flores. Só abra para amigos”. Enquanto a representação na Bulgária postou: “Portas abertas para amigos. Amigos de Epstein precisam de chaves”. Neste caso, o que diferencia o momento atual é a incorporação do meme como instrumento oficial de estratégia estatal de ambos os lados do conflito. 

A escalada atingiu um outro pico simbólico em 15 de abril, quando a embaixada iraniana no Tajiquistão publicou um vídeo de IA. Nele, vemos Jesus Cristo se voltar furiosa e violentamente contra o presidente, golpeando-o e jogando-o em um poço de lava ardente. A publicação acumulou mais de 12 milhões de impressões no X (Twitter). Outros conteúdos criados por canais pró-Teerã reforçam essa guerra de versões, tecendo uma contranarrativa de resistência com múltiplas referências à cultura pop, mirando o público ocidental jovem. 

Jesus agride Trump em vídeo divulgado pela embaixada do Irã no Tajiquistão (créditos: reprodução/O Globo)

É bastante espantoso que um país do oriente médio, com maioria muçulmana, com fortes tendências religiosas ortodoxas e fechado para a cultura ocidental, consiga utilizar e manipular a estética audiovisual do ocidente com tanta precisão e eficiência a ponto de gerar memes com engajamento viral nas redes sociais. O que torna essa guerra de memes inédita não é apenas a tecnologia empregada, mas a desenvoltura e a facilidade de apropriação da linguagem da cultura ocidental atual. O Irã está usando o universo popular do entretenimento (filmes, games, rap) contra o país número um da cultura popular, os Estados Unidos.  

Do ponto de vista tecnológico, o que mudou, e de forma irreversível, é a escala e a velocidade. Conteúdos que exigiam semanas de produção, equipes de tradução e emissoras de rádio e TV para alcançar o inimigo, chegam agora instantaneamente ao smartphone de qualquer pessoa no planeta. A IA eliminou as barreiras linguísticas, de produção e de distribuição que antes tornavam a propaganda política midiática internacional um privilégio de poucos estados ricos. A novidade permite que grupos com recursos financeiros limitados produzam conteúdo indistinguível da linguagem nativa da internet ocidental: animações virais de Lego, deepfakes sarcásticos e vídeos de rap gerados em minutos com alta qualidade técnica e artística.  

O resultado final é que a propaganda não parece mais propaganda, parece entretenimento. E justamente por isso ela é eficaz. As peças são feitas sob medida para gerar engajamento, comentários e reações dos usuários das redes sociais. Os posts utilizam a lógica dos algoritmos das redes para se espalharem e penetrarem nos feeds de pessoas, geralmente jovens, que nunca acompanhariam uma notícia da mídia tradicional sobre a guerra no Oriente Médio. 

Nesse cenário, o conceito de Soft Power — a capacidade de um Estado influenciar outros pelo atrativo cultural e ideológico, e não pela coerção — ganha um novo instrumento. A disputa agora não é mais apenas pelo território ou pelos recursos energéticos: é também pela atenção e pela mente das pessoas, em todos os continentes e em tempo real.  

Quem controlar a narrativa nas redes controlará, em larga medida, a legitimidade do conflito aos olhos da opinião pública mundial. E nessa batalha, a IA, somada à capilaridade e a capacidade de difusão das redes sociais, é utilizada como a mais nova e poderosa arma ideológica dos estados em conflito, uma “arma” de propaganda de massa acessível a todos. 

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