Onde a ausência humana virou selva 

Foto Capa: Usina nuclear de Chernobil em Pripyat, que é atualmente uma “cidade fantasma” (créditos: Getty Images) 

Por Rodrigo Modenesi

Ao imaginar grandes refúgios naturais, o pensamento costuma ir à Amazônia ou ao Parque Nacional de Yellowstone. Essas paisagens carregam a ideia de natureza intocada, protegida, ou quase, por decisão humana consciente. Mas dois territórios marcados por tragédias profundas vêm desafiando esse raciocínio. A Zona de Exclusão de Chernobyl, na Ucrânia, e a Zona Desmilitarizada da Coreia se transformaram, ao longo de décadas, em espaços onde a vida selvagem encontrou condições inesperadas para florescer. O denominador comum entre os dois casos não é a preservação intencional. É o abandono forçado. 

Quatro décadas após a explosão nuclear de 1986 e mais de 70 anos depois do armistício que dividiu a península coreana, esses territórios compartilham o mesmo elemento central: a ausência humana prolongada. O que antes simbolizava risco e conflito passou a revelar um paradoxo que intriga cientistas e ambientalistas de todo o mundo. 

Chernobyl: a noite que mudou a Europa 

Na madrugada de 26 de abril de 1986, uma explosão destruiu o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, no norte da atual Ucrânia. O acidente foi resultado de uma combinação de falhas no projeto do reator e de graves erros humanos durante um teste de segurança. A água superaquecida se transformou em vapor em instantes. A explosão que se seguiu lançou materiais radioativos para a atmosfera, iniciando um incêndio que durou mais de uma semana. 

Usina nuclear de Chernobyl poucos dias após a explosão em 1986 (créditos: SHONE/GAMMA/Gamma-Rapho via Getty Images)

Dois trabalhadores morreram na explosão imediata. Nas semanas seguintes, outros 28 operadores e bombeiros sucumbiram em decorrência da exposição à radiação. Cerca de 134 pessoas foram diagnosticadas com a Síndrome Aguda da Radiação. Com o tempo, mais de 6 mil crianças e adolescentes desenvolveram câncer de tireoide, segundo dados do Comitê Científico das Nações Unidas sobre os Efeitos da Radiação Atômica.  

Pesquisadores estimam que aproximadamente 9 mil pessoas expostas a altos níveis de radiação possam ter desenvolvido câncer ao longo dos anos, de acordo com dados compilados pela National Geographic. 

As plumas radioativas se espalharam por pelo menos 13 países da Europa Central e Oriental. A contaminação chegou à Suécia, a mais de mil quilômetros de distância, e alcançou até a Irlanda. Em 28 de abril de 1986, dois dias após a explosão no reator de Chernobyl, sensores da usina nuclear sueca de Forsmark detectaram níveis anormais de radiação. Apenas então o governo soviético admitiu que algo havia acontecido. 

A União Soviética evacuou cerca de 350 mil pessoas das regiões contaminadas, conforme registros da Organização das Nações Unidas. A cidade de Pripyat, construída nos anos 1970 para abrigar os trabalhadores da usina, foi esvaziada às pressas. Os moradores tiveram alguns minutos para reunir poucos pertences. Ninguém voltou. A zona de exclusão com raio de 30 quilômetros ao redor do reator permanece desabitada até hoje. 

Carrinhos em um parque de diversões abandonado em Pripyat, a três quilômetros da usina nuclear de Chernobyl (créditos: Pascal Le Segretain/Sygma via Getty Images) 

Os impactos ecológicos imediatos foram igualmente devastadores. Uma área de aproximadamente quatro quilômetros quadrados de floresta de pinheiros ficou conhecida como a Floresta Vermelha. As árvores absorveram doses letais de radiação e morreram em poucos dias, adquirindo uma coloração marrom-avermelhada.  

Cavalos deixados em uma ilha no rio Pripyat morreram após doses extremas de radiação destruírem suas glândulas tireoide. Peixes em lagos fechados na Bielorrússia e na região de Briansk registraram níveis altíssimos de contaminação entre 1990 e 1992, segundo dados da Wikipédia, com base em fontes da Agência Internacional de Energia Atômica. Pássaros exibiam ovos inférteis, albinismo parcial e anomalias nas células sanguíneas. Roedores próximos ao reator tinham vida mais curta, menor prole e mais parasitas, conforme estudos compilados pelo portal ((o)) eco (eco.org.br). 

A natureza que voltou pela janela dos fundos 

Com o passar das décadas, os índices de contaminação radioativa foram diminuindo. Jim Smith, professor da Universidade de Portsmouth na Inglaterra, explicou em entrevista à BBC que as doses caíram rapidamente após o acidente. O que permanece é uma emissão contínua em níveis muito mais baixos. Isso não permite a ocupação humana prolongada. Mas também não bloqueia o avanço de outras formas de vida. 

Hoje, a Zona de Exclusão de Chernobyl abriga uma das maiores densidades de vida silvestre da Europa. Smith afirmou à BBC que a diversidade biológica do local surpreende até especialistas. A vida selvagem prospera e a região apresenta hoje uma abundância maior do que a registrada antes do desastre. Estudos com peixes e insetos aquáticos indicam que áreas mais contaminadas mantêm níveis semelhantes de diversidade quando comparadas a regiões menos afetadas. 

Um estudo revelou que a população de lobos é sete vezes maior na zona de exclusão de Chernobyl do que em outras reservas naturais próximas (créditos: Valeriy Yurko) 

Lobos, linces, ursos-pardos, alces, veados, javalis, raposas e castores circulam livremente pelo território. Os ursos regressaram à região após mais de um século de ausência. Os lobos são o caso mais emblemático. Um estudo publicado no periódico científico Proceedings of the Royal Society B (royalsocietypublishing.org) revelou que a população de lobos na zona de exclusão é sete vezes maior do que em reservas naturais próximas, conforme registros da National Geographic. Pesquisadores da Universidade de Princeton identificaram que esses lobos parecem ter desenvolvido resistência genética ao câncer após décadas de exposição à radiação. 

Algumas espécies presentes hoje não eram típicas da região antes do acidente. Os cavalos-de-Przewalski são o exemplo mais notável. Originários das estepes da Mongólia e considerados uma das raças mais antigas de equídeos do mundo, esses animais haviam praticamente desaparecido da natureza selvagem.  

Entre 1998 e 2004, conservacionistas introduziram 36 cavalos-de-Przewalski na zona de exclusão. A população cresceu e se espalhou também para a reserva estatal bielorrussa da região. O cientista ambiental Denys Vyshnevskyi disse à agência Associated Press que o fato de a Ucrânia ter hoje uma população de cavalos selvagens é um verdadeiro milagre. 

Cavalos-de-przewalski selvagens, espécie ameaçada de extinção nativa da Ásia, vagueiam perto de uma estrada florestal na zona de Chernobyl em 2026 (créditos: AFP) 

Dentro dos próprios edifícios destruídos do reator, cientistas encontraram fungos ricos em melanina crescendo em ambientes saturados de radiação ionizante. Alguns desses fungos parecem se desenvolver mais vigorosamente em ambientes de alta radiação, segundo o portal BBC Science Focus. Pesquisadores cogitam que a melanina, o pigmento presente na pele, cabelos e olhos de humanos e animais, que absorve e dissipa radiação ultravioleta, desses organismos possa fazer algo mais do que proteger as células apenas contra radiação ultravioleta. Os estudos de biologia em Chernobyl continuam produzindo surpresas. 

Germán Orizaola, pesquisador da Universidade de Oviedo na Espanha, declarou à BBC que a explicação para essa retomada da vida selvagem está diretamente ligada à ausência de atividade humana. A zona de exclusão oferece um espaço amplo, sem ruídos, sem luz artificial e sem exploração econômica. Isso favorece o desenvolvimento das espécies de forma raramente encontrada em outras partes do mundo. Orizaola descreveu Chernobyl como um símbolo global dos processos de renaturalização que ocorrem quando a atividade humana cessa em uma área. 

Muitas plantas e animais vivem nas proximidades do reator nuclear de Chernobyl, que aparece ao fundo coberto por uma estrutura de contenção de segurança (créditos: Germán Orizaola/Universidade de Oviedo) 

Isso não significa que o ambiente seja seguro, ou que a radiação seja inofensiva. Os efeitos sobre a fauna são sutis, mas reais. Alguns pássaros ainda apresentam taxas elevadas de catarata. Certos anfíbios exibem alterações na pigmentação da pele. Andorinhas albinas foram registradas. Alguns insetos mostram deformidades. A Agência Internacional de Energia Atômica confirmou que mutações em plantas e animais foram documentadas após o acidente. Mas os impactos negativos da radiação em doses baixas são frequentemente compensados pelos benefícios ecológicos da ausência humana, na avaliação de Jim Smith, professor da Universidade de Portsmouth. 

Um evento traumático para a Europa deu origem, de modo involuntário, à terceira maior reserva natural do continente. O pesquisador Orizaola resume a ironia com precisão. A pressão exercida por atividades humanas constantes tende a ser mais prejudicial para a natureza do que desastres pontuais. 

A cicatriz que corta um país 

A Zona Desmilitarizada da Coreia (DMZ) tem uma origem radicalmente diferente. Mas o resultado ecológico guarda semelhanças notáveis com Chernobyl. 

Em junho de 1950, a Coreia do Norte invadiu o sul da península coreana, dando início a um dos conflitos mais sangrentos do século XX. A guerra envolveu as forças das Nações Unidas lideradas pelos Estados Unidos em apoio à Coreia do Sul, enquanto a China interveio militarmente ao lado da Coreia do Norte e a União Soviética forneceu apoio estratégico e armamentos ao bloco norte-coreano. 

Em três anos de combates intensos, morreram entre três e cinco milhões de pessoas, a maioria civis, segundo estimativas de historiadores citadas por publicações, como a Politize e a Wikipédia. Em termos proporcionais, a Coreia do Norte foi o país mais devastado. Segundo o historiador Charles K. Armstrong, a guerra causou a morte de 12% a 15% de toda a população norte-coreana da época. 

Um posto de guarda militar sul-coreano é visto do parque da paz Imjingak em Paju, na Zona Desmilitarizada (DMZ), que divide as duas Coreias (créditos: AFP/JUNG YEON-JE) 

O armistício foi assinado em 27 de julho de 1953. Não houve tratado de paz. As duas Coreias permanecem tecnicamente em guerra até hoje. A Zona Desmilitarizada (DMZ) foi criada ao longo do paralelo 38° Norte, com cerca de 250 quilômetros de extensão e quatro quilômetros de largura. Ela é hoje uma das fronteiras mais vigiadas e militarizadas do planeta, repleta de minas terrestres e postos de observação. 

O custo humano da divisão produzido pela DMZ vai além dos mortos em combate. A guerra separou milhões de famílias que viviam ao longo da península. Irmãos ficaram de lados opostos da fronteira. Pais e filhos perderam o contato para sempre. Desde 1988, mais de 130 mil sul-coreanos se registraram como tendo familiares separados pela divisão, segundo o Ministério da Unificação da Coreia do Sul, conforme reportado pelo portal Metrópoles.  

Pessoas visitam uma cerca militar no parque da paz Imjingak, na Zona Desmilitarizada, coberta por fitas coloridas que representam votos de paz e mensagens para familiares separados pela divisão da península após a Guerra da Coreia (créditos: AFP/JUNG YEON-JE) 

Até os dias de hoje, o contato direto entre civis das duas Coreias é proibido. Não há cartas, telefonemas ou mensagens. As raras reuniões familiares organizadas ao longo dos anos foram eventos marcados pela emoção extrema, pois a maioria dos participantes era idosa e temia não ter outra oportunidade de ver seus parentes antes de morrer. A última reunião formal aconteceu em 2018. Em 2024, a Coreia do Norte demoliu o centro construído para essas ocasiões no monte Kumgang, encerrando esse canal de forma unilateral. 

A fronteira que dividiu um povo se tornou, por ironia da história, uma linha que a natureza atravessa e ocupa livremente. 

70 anos de silêncio e mais de 6 mil espécies 

Sete décadas de ausência humana transformaram a Zona Desmilitarizada em um dos territórios com maior biodiversidade da Coreia do Sul. O Instituto Nacional de Ecologia do país registrou mais de 6.200 espécies de animais e plantas na região, conforme dados citados pelo portal Earth.org. Isso inclui 38% de todas as espécies ameaçadas da península. 

Cerca de 70 espécies de mamíferos habitam a área, entre elas o cervo-almiscarado siberiano, o gato-leopardo, o urso-negro asiático e o goral-coreano. Mais de 300 espécies de aves foram registradas. Sete das 15 espécies de grou existentes no mundo são encontradas na Coreia. A grua-de-coroa-vermelha e a grua-de-nuca-branca, ambas ameaçadas de extinção globalmente, utilizam atualmente a Zona Desmilitarizada como ponto de repouso durante a migração. 

Chernobyl e a Zona Desmilitarizada da Coreia se tornaram dois dos maiores santuários da vida selvagem no planeta. O que une um desastre nuclear e um legado de guerra é a mesma variável: a ausência prolongada do ser humano Cabras-monteses que vivem na Zona Desmilitarizada Coreana (DMZ) (créditos: Reprodução/National Geographic) 

Há relatos não confirmados de leopardos-de-Amur e tigres-siberianos na área, dois dos felinos mais ameaçados do mundo. A presença desses animais nunca foi registrada com evidências definitivas, pois a dificuldade de acesso ao interior da DMZ torna o monitoramento sistemático praticamente impossível. 

A maioria dessas espécies habitava a península coreana antes da guerra. O que mudou foi a pressão sobre o território. Com a retirada dos humanos, as populações de animais selvagens se recuperaram. Seung-ho Lee, presidente do DMZ Forum, afirmou em entrevista à BBC que a natureza reconquistou seu território.  

Uma linha traçada por generais e diplomatas acabou funcionando como barreira de proteção para a fauna de toda a região. Com isso, a fronteira militarizada coreana se tornou um corredor ecológico. O trauma de uma divisão que nunca cicatrizou para um povo se converteu, para os animais, em algo próximo de um paraíso. 

Lições sobre conservação 

A experiência de Chernobyl e da DMZ levanta perguntas incômodas sobre os modelos tradicionais de preservação ambiental. Parques nacionais e reservas ecológicas convencionais convivem, na maioria dos casos, com fluxo turístico, exploração econômica controlada e presença humana constante. Germán Orizaola, da Universidade de Oviedo, observou em entrevista à BBC que essa combinação reduz a eficácia da conservação. A estratégia mais eficiente continua sendo diminuir ou cessar a interferência humana e permitir que os ecossistemas sigam seu curso. 

Jim Smith, professor da Universidade de Portsmouth, em entrevista à BBC, chegou à mesma conclusão. A presença humana representa o impacto negativo mais significativo sobre os ecossistemas. Outros elementos tendem a ter efeito secundário. Em outras palavras, o que mais perturba a natureza não são os acidentes, as explosões ou as fronteiras armadas, é a rotina da ocupação humana. 

James Beasley, professor de ecologia da vida selvagem da Universidade da Geórgia nos EUA, afirmou que os dados obtidos em Chernobyl são um testemunho da resiliência da natureza quando ela se liberta das pressões humanas diretas e constantes. A interrupção da caça, do cultivo e da circulação favoreceu espécies especialmente sensíveis à perturbação humana. 

Essas constatações científicas não devem ser lidas como um argumento a favor de desastres nucleares, ou de guerras. As tragédias que deram origem a esses santuários involuntários custaram vidas, a saúde e a separação de famílias inteiras. O sofrimento humano que ancora esses territórios é irreversível e deve ser sempre lembrado para buscarmos evitar que aconteçam novamente.  

Mas a lição ecológica é clara. A natureza não precisa de muito para prosperar. Precisa, sobretudo, de espaço. Espaço que os seres humanos raramente lhe concedem de bom grado. Em Chernobyl e na fronteira coreana, esse espaço surgiu do modo mais amargo possível. E a vida selvagem, fiel ao seu instinto mais primitivo, ocupou cada centímetro disponível. 

Dois territórios nascidos do sofrimento. Dois santuários construídos pelo abandono. A natureza não escolheu esses lugares por acidente. Ela simplesmente foi para onde os humanos não estavam. 

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