‘O Conto da Aia’ e a importância do direito à contracepção

Foto capa: Divulgação/Hulu

Por Rafaella Gama

No próximo dia 26 de setembro, é comemorado o dia mundial da contracepção. Data criada com o objetivo de conscientizar meninas e mulheres sobre a importância do planejamento familiar, da proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (IST), e promover a educação sexual e o livre acesso a métodos anticoncepcionais seguros para todos.

Protesto organizado pela Contraception Action Programme em 1979 em Dublin. Foto: Derek Speirs

A luta a favor desse direito surgiu no início do século XX, com a ativista americana Margaret Sanger, que criou o termo birth control (controle de natalidade) e abriu a primeira clínica de saúde sexual dos EUA. Margaret foi presa logo em seguida, acusada de “Distribuir informações sobre controle de natalidade”, já que, na época, a Seção 1142 do Código Penal de Nova York determinava que vender, emprestar ou fornecer qualquer informação, receita ou instrumento para a prevenção da concepção era um crime equiparado à distribuição de material obsceno e pornográfico. 

Avançando um pouco mais o tempo, na década de 1980, uma outra Margaret escrevia um livro que, no futuro, se consagraria como um dos maiores clássicos da literatura do século XXI. O Conto da Aia, de Margaret Atwood, se passa num futuro distópico onde, com o avanço do problema da baixa natalidade, os Estados Unidos se dissolveram em um único território chamado de Gilliard, e todas as mulheres perderam seus direitos básicos de existir. As que mais sofrem com o regime, as aias, são mulheres férteis que vivem à mercê de uma família — comandada pelo homem da casa, o comandante — e servem exclusivamente como procriadoras, sendo forçadas a terem relações contra a sua vontade para dar um bebê à família que lhes foi designada.  

Mas sabe qual é o mais assustador da obra? Esse regime não surgiu da noite pro dia. Ele foi, aos poucos, moldando a cabeça das pessoas a acreditarem que as mudanças propostas por eles eram para um “bem geral”. Começou com mulheres sendo proibidas de trabalhar, depois tendo seu dinheiro controlado por seu marido — ou pela figura masculina mais próxima de si — e só depois de meses de cortes “pequenos” o regime totalitário e sangrento se instalou permanentemente no país, com qualquer um que se opusesse a ele sendo brutalmente assassinado.

A obra de Margaret Atwood foi adaptada para a televisão, se tornando uma série de sucesso e premiando Elizabeth Moss, atriz que dá vida a protagonista June, com o Emmy de melhor atriz em 2017, ano de estreia da série no Hulu. Porém, mesmo com a história sádica de Gilliard alcançando tantas pessoas pelo mundo, nesses quase 10 anos de diferença entre o lançamento da série para os dias atuais, direitos fundamentais relacionados ao corpo feminino estão sendo mais questionados do que em muito tempo. Desde a criminalização do aborto aos questionamentos acerca do direito ao voto feminino, um retrocesso alarmante está acontecendo bem diante dos olhos do público quando se trata da vida das mulheres.

Manifestação em frente ao Masp organizada pelo coletivo Levante Mulheres Vivas 
Imagem: Bruno Santos/Folhapress

O dia Mundial da Contracepção foi oficializado em 2007, por uma junção de organizações internacionais de saúde e planejamento familiar, e desde então promove o acesso a uma educação sexual de qualidade para todos os jovens e adultos do mundo. Gravidezes não planejadas são reduzidas e, o mais importante, as mulheres sabem que podem ter uma escolha, um direito do que querem fazer com seus próprios corpos. A existência desse dia em meio a um período tão incerto e desafiador da humanidade é uma vitória para o movimento feminista e precisa ser tratada com a relevância que merece — a luta por direitos mudou, mas permanece existindo. 

Citando Simone de Beauvoir, uma das ativistas e filósofas mais importantes do século XX: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” 

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