Foto capa: Divulgação/Hulu
Por Rafaella Gama
No próximo dia 26 de setembro, é comemorado o dia mundial da contracepção. Data criada com o objetivo de conscientizar meninas e mulheres sobre a importância do planejamento familiar, da proteção contra infecções sexualmente transmissíveis (IST), e promover a educação sexual e o livre acesso a métodos anticoncepcionais seguros para todos.

A luta a favor desse direito surgiu no início do século XX, com a ativista americana Margaret Sanger, que criou o termo birth control (controle de natalidade) e abriu a primeira clínica de saúde sexual dos EUA. Margaret foi presa logo em seguida, acusada de “Distribuir informações sobre controle de natalidade”, já que, na época, a Seção 1142 do Código Penal de Nova York determinava que vender, emprestar ou fornecer qualquer informação, receita ou instrumento para a prevenção da concepção era um crime equiparado à distribuição de material obsceno e pornográfico.
Avançando um pouco mais o tempo, na década de 1980, uma outra Margaret escrevia um livro que, no futuro, se consagraria como um dos maiores clássicos da literatura do século XXI. O Conto da Aia, de Margaret Atwood, se passa num futuro distópico onde, com o avanço do problema da baixa natalidade, os Estados Unidos se dissolveram em um único território chamado de Gilliard, e todas as mulheres perderam seus direitos básicos de existir. As que mais sofrem com o regime, as aias, são mulheres férteis que vivem à mercê de uma família — comandada pelo homem da casa, o comandante — e servem exclusivamente como procriadoras, sendo forçadas a terem relações contra a sua vontade para dar um bebê à família que lhes foi designada.
Mas sabe qual é o mais assustador da obra? Esse regime não surgiu da noite pro dia. Ele foi, aos poucos, moldando a cabeça das pessoas a acreditarem que as mudanças propostas por eles eram para um “bem geral”. Começou com mulheres sendo proibidas de trabalhar, depois tendo seu dinheiro controlado por seu marido — ou pela figura masculina mais próxima de si — e só depois de meses de cortes “pequenos” o regime totalitário e sangrento se instalou permanentemente no país, com qualquer um que se opusesse a ele sendo brutalmente assassinado.
A obra de Margaret Atwood foi adaptada para a televisão, se tornando uma série de sucesso e premiando Elizabeth Moss, atriz que dá vida a protagonista June, com o Emmy de melhor atriz em 2017, ano de estreia da série no Hulu. Porém, mesmo com a história sádica de Gilliard alcançando tantas pessoas pelo mundo, nesses quase 10 anos de diferença entre o lançamento da série para os dias atuais, direitos fundamentais relacionados ao corpo feminino estão sendo mais questionados do que em muito tempo. Desde a criminalização do aborto aos questionamentos acerca do direito ao voto feminino, um retrocesso alarmante está acontecendo bem diante dos olhos do público quando se trata da vida das mulheres.

Imagem: Bruno Santos/Folhapress
O dia Mundial da Contracepção foi oficializado em 2007, por uma junção de organizações internacionais de saúde e planejamento familiar, e desde então promove o acesso a uma educação sexual de qualidade para todos os jovens e adultos do mundo. Gravidezes não planejadas são reduzidas e, o mais importante, as mulheres sabem que podem ter uma escolha, um direito do que querem fazer com seus próprios corpos. A existência desse dia em meio a um período tão incerto e desafiador da humanidade é uma vitória para o movimento feminista e precisa ser tratada com a relevância que merece — a luta por direitos mudou, mas permanece existindo.
Citando Simone de Beauvoir, uma das ativistas e filósofas mais importantes do século XX: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”
