Foto Capa: Bottega Veneta summer 2027
Por Marina Campos
Durante os dias 22 e 28 de setembro, aconteceu a Semana de Moda de Milão, a primeira temporada depois da grande dança de cadeiras de diretores criativos vivida pela indústria nos últimos anos. Agora, os designers começam a fundir sua personalidade autoral com a identidade histórica de cada maison, movimento que teve um novo capítulo com a estreia de Loris Messina e Simone Rizzo na Moschino. A semana de moda italiana pareceu mais focada em ser desejável e em manter a individualidade de cada consumidor do que em impor uma estética minimalista e única. Em vez disso, as marcas apostaram em fazer a ideia de se vestir voltar a ser divertida, e não uma busca por uma estética padronizada.
1. Prada
Mini, midi, lápis, plissadas, ornamentadas, em camadas, com painéis removíveis e as mais diferentes combinações: a saia foi o centro absoluto do desfile de Miuccia Prada e Raf Simons, batizado simplesmente de “The Skirt”. Foram 63 looks, todos construídos em torno da peça, sem um único vestido, calça ou short na passarela. Os dois trataram a saia não como algo exclusivamente feminino, nem como uma resposta nostálgica a décadas passadas, mas como uma espécie de tela, unindo velcro industrial a bordados de cristal, recortes assimétricos e silhuetas que iam do lápis ao kilt. O resultado mostra como uma única peça pode mudar completamente o styling, conversando diretamente com uma moda mais individual, na qual a pessoa não compra uma tendência, mas entende que pode construir sua própria personalidade a partir dela.

2. Gucci
A Gucci de Demna não aparece apenas como uma fantasia de passarela, mas como um universo que precisa funcionar também no guarda-roupa e na loja. Se em seus primeiros desfiles à frente da casa o designer apresentou sua leitura pessoal da marca, a coleção SS27 veio como uma consolidação dessa visão. O resultado ajuda a entender uma das maiores questões da temporada: como uma maison recupera relevância sem abandonar seus códigos reconhecíveis? Demna parece construir sua resposta a partir da mistura de referências, unindo o legado histórico da Gucci a uma linguagem contemporânea e mais comercial.

3. Bottega Veneta
Louise Trotter apresentou pela Bottega Veneta sua terceira coleção e seguiu em uma direção leve e respirável, com tecidos fluidos, construção artesanal e silhuetas menos rígidas, criando uma sensação mais relaxada. Inspirada na transição entre estações, a coleção trouxe rafia, linho e couro ao lado do intrecciato histórico da marca, além de flores em couro que a própria Trotter distribuiu nos assentos do desfile. O gesto resume bem sua proposta: o luxo não precisa ser comunicado apenas pela rigidez, pela perfeição e pela ostentação. Aqui, o trabalho manual segue central, mas em peças que parecem mais fáceis de incorporar ao cotidiano.

4. Roberto Cavalli
Cavalli ocupou o extremo oposto da temporada. Sob a direção de Fausto Puglisi, a casa trouxe animal print, transparência, plumas, brilho, jeans ornamentados e referências extremamente sensuais, misturando a herança de estampas de leopardo e tigre da marca a uma estética mais clubber e noturna. Enquanto boa parte de Milão buscava tornar o luxo mais cotidiano, Cavalli mostrou que ainda existe espaço para uma moda deliberadamente exagerada, unindo referências tão distintas quanto a Sicília natal de Puglisi, Los Angeles e o Nova York dos anos 2000 em uma única passarela.

O principal ponto da temporada não parece ser uma única tendência, mas uma mudança de comportamento. Depois de um período em que o quiet luxury e o minimalismo dominaram boa parte do discurso da moda, Milão SS27 apresentou uma vontade clara de recuperar personalidade.
Para quem acompanha moda nas redes sociais, essa temporada também é interessante por oferecer muitas imagens facilmente reconhecíveis: as 63 saias da Prada, a loja Gucci reconstruída, o desfile cotidiano da Moschino, o espelho da Fendi e os acessórios maximalistas de Marni. São conceitos que funcionam não apenas dentro do desfile, mas também como narrativa editorial e conteúdo digital.
Milão SS27 apresentou, assim, uma moda menos preocupada em parecer perfeita e mais interessada em parecer viva. A temporada não parece pedir que todo mundo siga uma única tendência, pelo contrário: ela sugere que a próxima fase da moda pode ser justamente sobre misturar, exagerar, adaptar e escolher o que faz sentido para cada pessoa.
