“O novo normal’’ para quem?

A revista mais IN da história em uma edição totalmente OUT

Gisele Bündchen estampa capa polêmica da Vogue Brasil

Beatriz Valiante

Fundada em 1892 no país do Tio Sam, a Vogue vem, desde então, ditando as principais tendências do universo fashion. Ao longo de todo esse tempo, o veículo adquiriu tamanha relevância que hoje é publicado em 22 edições, como Vogue Portugal, Espanha e Brasil. No entanto, a revista que sempre influenciou a moda em todo o mundo, muitas vezes estando um passo à frente da história, agora parece estar completamente perdida no tempo.


Em um momento em que todos se voltam para o horror causado pelo novo coronavírus, é esperado o básico de qualquer veículo de comunicação: não se mostrar alheio ao que está acontecendo. Mas, por mais que pareça o mínimo a ser feito, a Vogue Brasil preferiu assumir um caminho completamente inverso em sua última edição, em maio de 2020. Em plena pandemia, com mais de 300 mil mortes confirmadas, até a saída da edição, no Brasil, desemprego em alta, pessoas desamparadas e em situação de risco, é extremamente inaceitável que a revista tenha saído da redação com uma capa tão alienada: Gisele Bündchen vestindo roupas de grife ao lado dos dizeres “o novo normal”.


Enquanto várias publicações de moda reconhecem os impactos da Covid-19 e buscam veicular conteúdos criativos, sensíveis e empáticos com relação ao período, o não-posicionamento da Vogue Brasil escancara os ideais da revista. Ao mesmo tempo em que outros veículos de moda apostaram em capas em branco, como a Vogue Itália, ou decidiram prestigiar profissionais de saúde na linha de frente, chamando-os de “novos influenciadores”, como fez a revista Marie Claire, a Vogue brasileira apresentou uma realidade totalmente delirante e elitista.

No fim das contas, a capa é um retrato fiel de um jornalismo preguiçoso e fútil, não muito diferente dos formadores de opinião da internet que, em plena pandemia, fazem festas e ainda postam nas redes sociais. Os profissionais de comunicação devem agir com responsabilidade, sensibilidade e comprometimento com a vida, e, é claro, os veículos de moda não deveriam ficar de fora disso, principalmente em um momento tão delicado.


Talvez, o dito “normal” que a Vogue Brasil tanto almeja seja, de fato, essa glamourização da dor, alinhado à falta de empatia e à ausência de cuidado com o próximo, posicionamento facilmente encontrado em meio à população poderosa e elitizada do país, que acredita que tudo é apenas uma gripezinha enquanto gritam “dane-se a vida’’.


A Vogue, que busca reconstruir sua história e diz estar adotando um novo posicionamento de empoderamento às mulheres, deveria entender que, talvez, o novo normal seja repleto de representatividade, de empatia e, sobretudo, do reconhecimento de que a moda deve sempre andar junto à humanidade. Vogue Brasil, você está no velho normal; volte duas casas e tente outra vez.

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