Diversidade racial tá na moda? 

Por Ágatha Araújo. Foto de capa/Divulgação: Acielle/ Style du Monde.

Um novo olhar antirracista 

Em 2020, uma nova luz foi jogada na discussão sobre o movimento antirracista. O estopim dessa mudança aconteceu após George Floyd, um homem negro, morrer asfixiado na abordagem policial de Derek Chauvin em Mineápolis, nos Estados Unidos. 

Arte Pichação em homenagem a George Floyd. Foto/Divulgação Por Angela Weiss.

 Acompanhada de uma revolução digital regada a hashtags como #BlackLivesMatter e, no Brasil, #VidasNegrasImportam, a discussão sobre a luta antirracista viria a ser radicalmente discutida e compartilhada ao redor do mundo, objetivando denunciar a desigualdade e a discriminação sofrida pela população negra nas várias esferas sociais. A indústria da moda não passou incólume. 

A semana Fashion Revolution, maior movimento ativista de moda do planeta e que acontece desde 2014, foi realizado de maneira diferente em 2020. Em meio ao calor da onda antirracista, surgiu o Comitê Racial do Fashion Revolution Brasil, grupo composto por ativistas de norte a sul do país. 

O Comitê Racial Fashion Revolution trabalha como um fórum consultivo que se estrutura em torno de espaços de estudo, ação e fortalecimento de capacidades dos participantes para a promover a equidade racial. Ou seja, a preocupação principal do Comitê está em criar ações que possam trazer emancipação financeira e pertencimento aos criadores negros na indústria da moda como um todo, principalmente em cargos de liderança e de inovação. 

Paloma Gervasio, coordenadora do comitê. Foto/Divulgação: Fashion Revolution Brasil.

Qual é a cor de quem faz minhas roupas?  

Essa pergunta é uma das ações realizadas do Comitê na edição de 2022, cuja resposta implica esclarecer o racismo dentro do universo da moda. Da pergunta surgiu a hashtag #aCorDeQuemFezMinhasRoupas cuja proposta é exigir que as empresas ofereçam uma cadeia produtiva saudável e justa, com foco na promoção de equidade e igualdade racial. 

Para Ana Fernanda, jornalista e integrante do Comitê, a pergunta provoca uma reflexão válida.  “É importante perguntar a cor de quem fez minhas roupas porque moda não se resume ao que a gente vê nas passarelas, vitrines e capas de revista. Por trás de cada peça de roupa vendida há muito trabalho e muito lucro. Quem fica com os trabalhos pior remunerados e menos protegidos e quem fica com os lucros?”, refletiu Ana na entrevista à Carta Capital

Ana Fernanda, coordenadora do comitê racial e de diversidade. Foto/Divulgação: Fashion Revolution Brasil.

Na edição de 2022, por exemplo, pautas indígenas também foram trazidas para o centro da questão. O comitê se apresentou contra a PL do veneno e a favor da PL do cânhamo. A estilista Day Molina, descendente de indígenas, acredita que a pluralidade e a diversidade são importantes para evitar o apagamento e apropriação de movimentos e culturas. “Essa perspectiva decolonial é fundamental para que a gente possa escrever uma nova história de referências e simbologias estéticas. Onde a gente possa se enxergar e possa celebrar nossa diversidade e nosso orgulho do pertencimento étnico, cultural e racial”, afirmou Day ao FFW. 

Uma mulher diversa 

Raissa Isabel, que é hoje uma mulher formada em moda e envolvida em diversos projetos de design e upcycling, já foi uma menina apenas apaixonada por desenhar e viver a infância de forma criativa. “Eu adorava desenhar roupas que eu gostaria de ter, fazer roupas para minhas Barbies a partir de outras coisas e pegar roupas que eu e minhas amigas tínhamos para vestirmos umas às outras e depois desfilar (ou até desenhar roupas que nosso clubinho teria como uniforme)”, relembra Raissa. 

Raissa Isabel. Foto/Divulgação por Larissa Mendonça .

Aos 19 anos, passa a enxergar a moda de forma profissional e começa a faculdade em Petrópolis. “Nunca vi a Moda como um desenvolvimento para longo prazo porque em Três Rios, uma cidade do interior, isso não era uma realidade viável. Não existia pela cidade pessoas obtendo êxito trabalhando com moda, somente pequenas costureiras de bairro e grandes lojas de roupa”, reflete a profissional de moda. 

Raissa Isabel. Foto/Divulgação por Bruno Osorio .

Depois de algumas recusas como modelo em agências, Raissa se encontrou na cena Ballroom como modelo e curadora, um lugar que celebrava sua beleza e seu estilo. “Inclusive, uma forma de conseguir mostrar meu verdadeiro estilo dentro da Ballroom era fazendo uma grande curadoria em bazares pra achar o que eu precisava, através disso percebi uma grande aptidão para a parte curatorial, começando apenas pra mim mas depois ampliando para um brechó”, explica a modelo. 

Raissa Isabel. Foto/Divulgação: Instagram da Raissa.

Depois de uma trajetória considerável no mundo da moda (hoje tem 25 anos e coleciona inúmeros trabalhos de curadoria, styling e produção visual), Raissa ainda não acredita que a indústria esteja mais diversa. “Percebo que o mercado tem estado minimamente mais amplo para uma proposta plural, vejo pessoas não padrão cada vez mais em campanhas, mas não vejo tanto esse progresso nas passarelas. Principalmente nesse momento em que a magreza excessiva está novamente “na moda”, com transtornos alimentares num momento de romantização e utilização de remédios para emagrecimento acelerado”, Raissa refere-se à tendência de retorno à magreza presente nos anos 2000. 

Os desafios que ainda enfrenta na indústria justificam seu ceticismo, “acredito que meu principal desafio é ser uma mulher retinta com traços tão marcantes, quando penso nos trabalhos como modelo”. Além disso, não fazer parte de uma bolha privilegiada ou de um “berço de ouro” dificultam ainda mais seu reconhecimento e sua visibilidade. “Alguns podem colocar isso num lugar de vitimismo ou exagero, mas basta observar o perfil e lugar social das pessoas que mais conseguem se manter estáveis dentro da indústria da moda que isso fica inegável”, afirma. 

Raissa Isabel. Foto/Divulgação por Daniel Vasconcellos.

Tendo Suyane Ynaya e Nigel Xavier como principais referências, Raissa segue de forma inquieta em busca de se aprofundar mais na sua arte. “Hoje percebo o quanto segui sempre uma trajetória muito ampla, de muitos amores e desejos, e quero hoje afunilar um pouco mais esse caminho, o que traz a grande pergunta que preenche a mente do artista pelo menos uma vez “para qual caminho vou seguir agora?””. 

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