Foto capa: Divulgação/Expo Favela
Por Monique RodSan
Rio de Janeiro — Este final de semana, a Cidade das Artes foi palco de um encontro transformador: a Expo Favela Innovation, organizada pela Central Única das Favelas (CUFA). O evento mostrou ao Brasil e ao mundo o imenso potencial das favelas e periferias, reunindo empreendedores, investidores, líderes comunitários e entusiastas. Mais do que uma feira de negócios, a Expo Favela foi uma celebração da inovação, criatividade e resiliência dessas comunidades, que movimentam cerca de R$ 120 bilhões anuais em consumo e estão no centro da economia brasileira.
A CUFA, com seu compromisso de promover o desenvolvimento social e econômico das favelas, vê na Expo Favela um caminho para mudar a percepção pública sobre essas regiões. “Quando falamos que a favela é potência, não carência, estamos corrigindo o olhar preconceituoso e repleto de compaixão equivocada. É hora de enxergar o que a favela já produz, o que já consome. É mais do que olhar para o que falta, é olhar para o que essas pessoas têm a oferecer”, declarou Galdino, um dos organizadores da CUFA, enfatizando o valor desse movimento.
A Expo Favela foi, portanto, uma resposta direta ao preconceito estrutural e à falta de políticas públicas para essas áreas, algo que a CUFA luta para corrigir. Ao criar uma plataforma que conecta empreendedores das favelas a grandes marcas, investidores e aceleradoras, a CUFA proporciona oportunidades para que esses negócios avancem e conquistem novas possibilidades.
Com centenas de participantes e uma programação intensa de palestras, workshops e painéis, a Expo Favela trouxe ao palco histórias inspiradoras de superação e empreendedorismo. Bianca, do Instituto Mundo Novo, exemplificou o impacto que a CUFA e a Expo Favela têm ao compartilhar seu projeto na Baixada Fluminense, que transforma a vida de mulheres em situação de vulnerabilidade por meio do artesanato e da economia criativa.
Outros empreendedores como Lomani Martins, do Complexo da Maré, e Tom Macaveli, do Vidigal, mostraram como seus negócios — um curso de culinária para mulheres e um espaço de coworking, respectivamente — estão mudando a realidade de suas comunidades. “Hoje, o Brota Vidigal é também Brota Rocinha, Brota Maré, Brota Favela. Estamos crescendo e mostrando que nossa comunidade é força e inovação”, destacou Tom.
Para Dandara, mulher trans e negra, estar entre os finalistas foi um ato de resistência, afinal ela trabalha para garantir acesso à justiça para familiares de pessoas privadas de liberdade, e compartilhou sua luta com o público: “Estar aqui é uma vitória. No Brasil, que é o terceiro país que mais mata trans e travestis, é um ato de resistência.”
Em meio ao vibrante cenário da Expo Favela Innovation Rio 2024, Viviane, CEO da Vizê Joias, compartilhou a história e os valores de sua marca, que tem como inspiração as tradições afro-brasileiras. Com 33 anos, Viviane é uma empreendedora determinada a usar suas criações para inspirar outras mulheres a abraçarem suas próprias forças e potenciais.
“Hoje eu estou com a coleção Joias das Águas, que representa nossa capacidade de adaptação, como a água,” explicou Viviane. “Assim como a água segue o fluxo e supera obstáculos, essa coleção celebra nossa resiliência.” Em suas palavras, fica claro o quanto esse conceito está alinhado ao crescimento da Vizê Joias, especialmente durante a pandemia, quando a empresa precisou pivotar seu negócio e “seguir o fluxo” em um momento de grandes desafios.
Viviane destaca também a importância do empreendedorismo feminino, especialmente nas favelas e periferias, onde, segundo ela, “a maioria dos negócios é de mulheres”. Ela compartilhou um pouco da sua experiência como parte de uma família matriarcal, que sempre foi a base de sua inspiração. “Nós que movimentamos a economia nas comunidades, vendendo, costurando, fazendo a roda de dinheiro girar para sustentar nossas famílias,” afirma.
O compromisso de Viviane com o empoderamento feminino vai além das joias que cria. Para ela, as peças são uma extensão da autoestima e da identidade de cada mulher, refletindo quem elas são e o que representam para o mundo. “Fazer joias não é só fazer algo bonito. É elevar a autoestima, é permitir que cada mulher mostre ao mundo o que é e o que acredita. A joia reflete aquilo que a gente é,” diz.
Para quem deseja conhecer mais sobre o trabalho de Viviane, a Vizê Joias pode ser encontrada no Instagram em @Visejoias, onde ela continua compartilhando não apenas suas criações, mas também a missão de inspirar e empoderar mulheres através da beleza e da identidade cultural. Na Expo Favela, Viviane representa uma mensagem poderosa: a de que a favela e suas mulheres são potências e, juntas, constroem um legado que transforma.
A CUFA vê na Expo Favela uma poderosa ferramenta para mudar a narrativa predominante sobre as favelas. Em vez de serem vistas apenas como áreas de carência, elas devem ser reconhecidas como centros de cultura, resiliência e força econômica. Galdino, representante da CUFA, reforçou que essas regiões são habitadas por pessoas trabalhadoras e honestas, que consomem, produzem e contribuem para a economia do país. “A favela é uma potência, e a CUFA trabalha para mostrar que a favela não precisa de compaixão, mas de reconhecimento e oportunidades”, afirmou.
A Central Única das Favelas (CUFA) tem desempenhado um papel fundamental em áreas onde o Estado muitas vezes se mostra ausente. Em uma conversa franca sobre o impacto e a responsabilidade do governo, Galdino, representante da CUFA, trouxe uma perspectiva interessante: não se trata apenas de uma falha do Estado, mas de uma questão cultural que precisa ser transformada. “Precisamos ser mais ativos, a própria população precisa buscar mais e esperar menos”, destacou ele, reforçando que a CUFA ensina os moradores das favelas a encontrarem caminhos para acessar a riqueza que o Brasil produz.
Galdino enfatizou que, enquanto o Estado consegue mobilizar forças policiais para operações nas favelas, faltam iniciativas para levar médicos, profissionais de cultura e esportes para esses territórios. Segundo ele, essas oportunidades poderiam abrir portas e mentes, criando uma base para um futuro mais digno e seguro para os jovens. “Quando você dá essas oportunidades, você prepara os jovens para buscar uma vida digna”, afirmou.
O preconceito estrutural ainda é uma barreira para o investimento privado nas favelas, que são frequentemente vistas como zonas de risco, apesar de seu potencial econômico. Para Galdino, a chave para atrair empresas não está apenas em bater na porta delas, mas em buscar incentivos e apoio do poder público, como leis e isenções fiscais. “As empresas vêm porque também ganham benefícios, como isenção fiscal, e isso é o que torna a parceria sustentável”, explicou.
Ele ainda reforçou que as favelas movimentam grande parte da riqueza do país, e que é essencial dividir essa riqueza gerada internamente. A CUFA, com parcerias como a Favela Log com a Amazon, tem trazido exemplos concretos de como empresas podem entrar nas favelas de maneira benéfica para todos. “A favela não precisa só de ajuda, ela precisa de oportunidade para mostrar seu potencial”, completou.
Um dos principais objetivos da CUFA é modificar a narrativa dominante sobre as favelas. Ao invés de serem vistas como espaços de carência, elas são apresentadas como locais de cultura, resiliência e força econômica. Galdino reforça que a favela é formada por pessoas trabalhadoras e honestas, que consomem, produzem e contribuem para a economia do país. “A favela é uma potência, e a CUFA trabalha para mostrar que a favela não precisa de compaixão, mas sim de reconhecimento e oportunidades”, afirmou.
Na discussão sobre a violência policial e a proteção dos direitos humanos, a CUFA vê a ADPF 635 como uma medida importante, mas entende que ainda há muito a ser feito para garantir a segurança e dignidade dos moradores. “O próximo passo é garantir que o Estado esteja presente não apenas com repressão, mas com serviços básicos de saúde, educação e cultura”, declarou Galdino.
A CUFA continua a trabalhar para que a favela seja reconhecida pelo que realmente é: um lugar de potência, cultura e possibilidades. Por meio de iniciativas como a Expo Favela e parcerias com empresas e o poder público, a organização abre portas para o futuro e desafia o Brasil a enxergar as favelas por seu verdadeiro valor.
Para além das histórias inspiradoras, a Expo Favela trouxe ao evento uma programação rica, que incluiu oficinas práticas de tranças, turbantes, rimas e percussão, além de painéis sobre mídia, diversidade e a cultura geek, celebrando a inclusão e a representatividade que a CUFA promove. No domingo, o evento também reuniu torcedores para assistir à Final da Copa do Brasil (Atlético MG 0 X 1 Flamengo), reforçando o senso de pertencimento e comunidade.
A Expo Favela Innovation não é apenas um evento anual, é um movimento contínuo de transformação, impulsionado pela CUFA. A organização acredita que só com parcerias e incentivos públicos e privados será possível gerar oportunidades para essas comunidades. Exemplos concretos como a Favela Log, parceria com a Amazon, mostram que empresas podem entrar nas favelas e promover mudanças reais. “A favela não precisa só de ajuda, ela precisa de oportunidade para mostrar seu potencial”, enfatizou Galdino.
Outro tema discutido foi a ADPF 635, que busca proteger os direitos humanos nas favelas e impedir a violência policial. A CUFA vê essa medida como um passo importante, mas ressalta que ainda é necessário garantir a presença do Estado nessas áreas de forma positiva, com serviços de saúde, educação e cultura, e não apenas através da repressão.
A Caminho da Grande Final em São Paulo
A Expo Favela Innovation Rio 2024 encerrou-se com um saldo extremamente positivo. A CUFA segue para a grande final nacional, em dezembro, em São Paulo, onde o país poderá testemunhar o impacto dos empreendedores das favelas e o que eles têm a oferecer para uma sociedade mais justa, inclusiva e inovadora. Mais do que um evento, a Expo Favela é um reflexo da missão da CUFA: construir um futuro onde as favelas sejam reconhecidas por seu verdadeiro valor e contribuição ao Brasil.
A CUFA e a Expo Favela são, juntas, um movimento de transformação social que veio para ficar, desafiando o país a enxergar as favelas por sua potência e contribuindo para a construção de uma nova história para o Brasil.
A Expo Favela Innovation é também um espaço para a expansão da cultura geek e o crescimento da animação 3D no Brasil. Em uma conversa com Marcos, da Geek Mall Produções, discutimos o impacto desse movimento, que não só se consolidou globalmente, mas tem conquistado cada vez mais visibilidade em solo brasileiro.
Nos últimos anos, o mundo da animação 3D e da cultura geek tem ganhado cada vez mais visibilidade e popularidade, não só globalmente, mas também no Brasil. Em uma conversa com Marcos, da Geek Mall Produções, discutimos o impacto desse crescimento, desde os primeiros sucessos, como Toy Story, Shrek e Frozen, até as produções brasileiras mais recentes. Marcos observa que a tecnologia de animação evoluiu de forma impressionante, permitindo a criação de detalhes cada vez mais realistas, como a representação de diferentes texturas de pele, tecidos e até neve, como vimos em Frozen. Ele destaca que, enquanto anteriormente a animação era um mercado dominado por grandes produções internacionais, hoje, os talentos brasileiros também estão brilhando. “Os brasileiros estão arrebentando muito com relação a isso,” afirma. Ele menciona como exemplo A Era do Gelo e a nova animação brasileira Noé.
Sobre o crescimento da cultura geek e dos eventos de cosplay, Marcos aponta que, atualmente, o público brasileiro tem muito mais acesso a eventos e convenções, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. “Antigamente, você só poderia entrar nos eventos se pagasse um ingresso muito alto,” ele relembra, explicando que agora há mais sensibilidade e inclusão, com eventos gratuitos que permitem maior participação do público. Para os interessados em acompanhar as novidades da cultura geek e do mundo cosplay no Brasil, Marcos recomenda seguir o Instagram da Geek Mall Produções (@ geekmallproducoes) e outras comunidades associadas, como o Império Comando (@imperiocomando) e Mundo Teia (@ mundoteia), que trazem conteúdos e eventos do universo geek e nerd para o público brasileiro. Essa conversa mostra que o Brasil está se afirmando cada vez mais na animação e na cultura geek, promovendo um ambiente inclusivo e acessível, e ampliando o alcance desses movimentos culturais.
A Expo Favela Innovation Rio 2024 provou ser um evento incomparável, onde a força, criatividade e resiliência das favelas brilharam ao lado da cultura geek e da inovação brasileira. Com iniciativas que vão desde o apoio ao empreendedorismo até a valorização da cultura pop e da animação 3D, a feira destacou como esses universos se complementam e contribuem para um Brasil mais inclusivo e diverso. Em dezembro, a grande final em São Paulo promete reunir ainda mais histórias e talentos, tornando impossível perder o próximo capítulo dessa que é a maior feira de empreendedorismo que conecta a Favela e o Asfalto, e que veio para transformar o país.

Edição de vídeos: Maria Camelo, Publicidade e Propaganda, 3º Período, UniFACHA
