A venda da Serra Verde e a ameaça à soberania  

Foto Capa: Mineradora Serra Verde em Minaçu (GO) é alvo de acordo bilionário entre empresa brasileira e americana (créditos: Divulgação/Serra Verde)

Por: Rodrigo Modenesi 

Em 20 de abril de 2026, uma notícia sacudiu o mercado de mineração e o debate político brasileiro. A empresa norte-americana USA Rare Earth (USAR) anunciou a compra de 100% do Grupo Serra Verde, proprietário da mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. O valor da operação foi estimado em aproximadamente 2,8 bilhões de dólares, a ser pago parte em dinheiro e parte em ações da própria compradora. Com o negócio, os Estados Unidos passam a controlar a única mineradora de terras raras fora da Ásia capaz de produzir, em escala industrial, os quatro elementos magnéticos considerados mais críticos no planeta: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. 

O anúncio gerou repercussões imediatas no país. No âmbito político e jurídico, partidos como Rede e PSOL ingressaram com ações no Supremo Tribunal Federal e na Procuradoria-Geral da República. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu uma investigação formal. No plano diplomático, veio à tona o papel do então governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Em março de 2026, Caiado assinou, no consulado norte-americano em São Paulo, um memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos sobre exploração de minerais críticos, um ato que gerou acusações de inconstitucionalidade e questionamentos sobre a soberania nacional. 

Por trás de tudo isso, está uma disputa que redesenha o tabuleiro geopolítico do século XXI: a corrida global pelas terras raras, minerais indispensáveis para a fabricação de baterias de carros elétricos, chips, computadores, turbinas eólicas e para itens essenciais do arsenal militar dos EUA. 

O BRASIL E AS RESERVAS MUNDIAIS DE TERRAS RARAS 

Poucos países no mundo têm a sorte geológica do Brasil. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o país detém cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, o que representa aproximadamente 23% das reservas globais conhecidas. Essa fatia coloca o Brasil na segunda posição do ranking mundial, atrás apenas da China, que concentra cerca de 49% das reservas planetárias. A Índia aparece em terceiro, com pouco menos de 8%. 

As reservas brasileiras estão distribuídas principalmente em cinco estados: Goiás, Minas Gerais, Bahia, Rondônia e Amazonas, com destaque para os depósitos goianos de argila iônica, o tipo de minério explorado pela Serra Verde. 

Paradoxalmente, apesar da abundância geológica, o Brasil ainda engatinha na produção efetiva. Em 2024, o país produziu apenas 20 toneladas de terras raras, menos de 1% de uma produção mundial que superou 390 mil toneladas no mesmo período. A China, sozinha, domina cerca de 90% do processamento global e praticamente a totalidade da capacidade de separação dos elementos pesados mais valiosos. O Brasil, portanto, tem o recurso natural, mas carece da tecnologia, da cadeia industrial e da infraestrutura para transformá-lo em valor. 

A SERRA VERDE: UMA JOIA ESTRATÉGICA ÚNICA NO MUNDO 

A mina Pela Ema, em Minaçu (GO), é o coração da Serra Verde e um ativo sem paralelo no mundo ocidental. Construída ao longo de 16 anos e com investimento total superior a 1,1 bilhão de dólares, a mina entrou em produção comercial em janeiro de 2024 e se tornou imediatamente um objeto de desejo geopolítico internacional. Ela é a única mina em operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala comercial, os quatro elementos de terras raras magnéticas mais críticos: o neodímio (Nd), o praseodímio (Pr), o disprósio (Dy) e o térbio (Tb). 

Essa é uma característica estratégica importante da mina brasileira porque os elementos mais difíceis de obter fora da China são exatamente os pesados, como o disprósio e o térbio. Enquanto os elementos leves como neodímio e praseodímio são produzidos em menores quantidades por mineradoras nos EUA e na Austrália, os pesados continuam sob domínio quase exclusivo da China e, em menor escala, de Mianmar. A Serra Verde quebra o monopólio chinês. 

A mina Pela Ema (GO) da mineradora Serra Verde é considerada a única em operação fora da Ásia capaz de produzir, em escala industrial, os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras (créditos: Divulgação/Serra Verde) 

A mina opera em um depósito de argila iônica no Cerrado goiano, um tipo geológico raro e altamente favorável para extração por lixiviação, método que permite menor impacto ambiental comparado à mineração convencional. A empresa produz um Carbonato Misto de Terras Raras de alta pureza, que é o produto final exportado atualmente. A Serra Verde não divulga publicamente o volume atual produzido.  

A operação da mina está em fase de otimização desde o início da produção comercial em 2024. Sua meta é atingir até 6.400 toneladas anuais de óxidos de terras raras (TREO), podendo dobrar esse volume em uma segunda fase de expansão. A vida útil da mina é estimada em mais de 20 anos. 

Por esses motivos, não é exagero dizer que, fora da China, a Serra Verde é hoje a reserva de minerais críticos mais estratégica e cobiçada do planeta. 

“Mineral crítico” é qualquer mineral ou elemento químico que reúne, ao mesmo tempo, duas características: a alta importância estratégica. Eles são essenciais para setores considerados prioritários por um país ou bloco econômico, como tecnologia avançada, transição energética, defesa e indústria digital. E o risco elevado de desabastecimento. Ou seja, sua oferta é geograficamente concentrada, geralmente em poucos países, sua cadeia de processamento é controlada por rivais geopolíticos, ou sua extração é tecnicamente difícil e cara. 

AS TERRAS RARAS NA INDÚSTRIA DE ALTA TECNOLOGIA E DE ENERGIA RENOVÁVEL 

Atualmente as “terras raras” estão em praticamente todos os aparelhos tecnológicos modernos. Trata-se de um grupo de 17 elementos químicos da tabela periódica, os 15 lantanídeos, mais o escândio e o ítrio, que possuem propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas únicas. O paradoxo é que esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre, mas sua concentração em depósitos economicamente viáveis é limitada, e sua separação industrial é tecnicamente muito complexa e custosa. 

Na indústria civil, as aplicações são vastas. O neodímio e o praseodímio são ingredientes essenciais para a fabricação de ímãs de alto desempenho, os chamados ímãs de NdFeB (neodímio-ferro-boro). Esses ímãs são o coração dos motores de veículos elétricos. Um carro elétrico pode utilizar entre 1 e 2 quilogramas desses elementos na sua fabricação.  

 Os elementos de terras raras possuem propriedades eletrônicas, magnéticas e óticas essenciais para diversas tecnologias modernas (créditos: Gil Leonardi /Agência Brasil) 

O disprósio e o térbio são ainda mais críticos. Esses elementos são adicionados aos ímãs de neodímio para que eles mantenham suas propriedades magnéticas em altas temperaturas, condição indispensável para motores elétricos de alto desempenho e turbinas de energia. Cada unidade offshore de turbina pode requerer até 600 quilogramas de terras raras. Sem esses dois elementos, os ímãs perdem eficiência sob calor, o que inviabilizaria grande parte da tecnologia verde e de mobilidade elétrica. 

Outras aplicações ocorrem na fabricação de componentes de alta precisão, como chips e semicondutores. Smartphones, computadores, lasers médicos, sistemas de ressonância magnética e equipamentos de telecomunicação também dependem desses minerais. 

GEOPOLÍTICA E DEFESA: O USO MILITAR DAS TERRAS RARAS PELOS EUA  

Se na economia civil as terras raras já são insubstituíveis, na indústria de defesa sua importância é ainda mais absoluta. Esses minerais estão presentes em praticamente todos os sistemas militares de alta tecnologia contemporâneos: radares, mísseis guiados de precisão, sensores, satélites, sistemas de comunicação criptografada, visão noturna, drones militares e aviões de combate de última geração. 

Para se ter a dimensão da dependência, cada caça furtivo F-35 Lightning II, principal aeronave de combate da força aérea norte-americana, utiliza cerca de 418 quilogramas de terras raras em sistemas de radar, controle de voo, sensores a laser e em tecnologia stealth, que garante invisibilidade para radares inimigos.  

Caça furtivo F-35 Lightning II, principal aeronave de combate da força aérea norte-americana, utiliza cerca de 418 quilogramas de terras raras em seus sistemas (créditos: Divulgação/Lockheed Martin) 

Um navio destróier da classe Arleigh Burke emprega aproximadamente 2.600 quilogramas desses minerais. Enquanto um submarino nuclear da classe Virginia chega a requerer 4.600 quilogramas, do sistema de propulsão à guiagem de mísseis Tomahawk. Giroscópios de tanques de combate, sistemas antimísseis Patriot, drones de reconhecimento e armamento de precisão igualmente dependem de ímãs e ligas produzidos a partir de terras raras. 

Segundo análises publicadas pela Benchmark Mineral Intelligence e pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), mais de 70% das importações de terras raras dos Estados Unidos historicamente vieram da China, um rival geopolítico direto. Essa dependência estrutural é considerada uma das vulnerabilidades mais críticas da capacidade militar e industrial norte-americana. 

O BLOQUEIO CHINÊS E OS RISCOS PARA A SEGURANÇA DOS EUA 

Em 2025, a China restringiu as exportações de vários elementos de terras raras em resposta à escalada tarifária do governo Trump, provocando choques imediatos em cadeias industriais globais. O gesto demonstrou que Pequim é capaz de usar o controle sobre esses minerais como arma geopolítica, e que Washington precisa urgentemente de fontes alternativas de abastecimento. 

Nesse cenário, a urgência norte-americana em garantir fornecimento seguro de terras raras, especialmente disprósio e térbio, os elementos mais críticos e escassos fora da Ásia, transcende qualquer lógica comercial. É uma questão de segurança nacional e capacidade bélica.  

A compra da Serra Verde, portanto, não é apenas uma transação financeira. Ela é parte de uma estratégia geopolítica deliberada de rearmamento e de garantia de fornecimento estável de insumos estratégicos para os EUA. 

A ESTRATÉGIA DOS EUA E O PAPEL DE RONALDO CAIADO: A “DIPLOMACIA” QUE ABRIU O CAMINHO PARA OS EUA 

Para entender a venda da Serra Verde, é preciso recuar ao dia 18 de março de 2026. Naquela quarta-feira, o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado, do PSD, compareceu ao consulado norte-americano em São Paulo e assinou um memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos sobre exploração de minerais críticos e terras raras. O acordo foi firmado em conjunto com Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada americana no Brasil. 

Chamado pelo governo goiano de “declaração de intenções de boa-fé”, o memorando previa cinco eixos de cooperação: mapeamento mineral, desenvolvimento tecnológico, melhoria do ambiente regulatório, capacitação e estímulo à industrialização local de terras raras.  

Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás. Ele renunciou ao cargo para concorrer à presidência da República em outubro (créditos: Hellenn Reis/Alego) 

O ato gerou reações imediatas. Juristas e especialistas questionaram sua constitucionalidade. Segundo a constituição, os recursos minerais pertencem à União e não aos estados, assim como a competência de legislar sobre jazidas e minas. A atribuição de manter relações formais com governos estrangeiros também é exclusiva do governo federal. O governo de Goiás rebateu, alegando que o papel dos estados no desenvolvimento econômico regional é constitucionalmente reconhecido. 

A dimensão financeira e o cronograma do acordo revelam a manobra dos EUA. Em novembro de 2025, o banco de fomento ao desenvolvimento do governo norte-americano, a DFC (US International Development Finance Corporation), prometeu um investimento de 465 milhões de dólares para a Serra Verde. Em fevereiro de 2026, esse valor de investimento foi ampliado para 565 milhões de dólares. A formalização final do contrato de empréstimo com a DFC foi confirmada em abril de 2026. Essa linha do tempo mostra que o financiamento estatal americano e a compra da Serra Verde pela USA Rare Earth foram processos quase simultâneos e claramente coordenados.  

A sequência dos eventos expõe a tática norte-americana. Primeiro, o financiamento bilionário da DFC foi concedido à Serra Verde; em seguida, Caiado assinou o memorando de entendimento diretamente com Washington, contornando Brasília; e, menos de cinco semanas depois, a USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora. Com isso, o financiamento foi revertido para uma empresa sob o controle dos EUA. E assim, os EUA garantem o acesso a fontes de minerais críticos alternativos à China. 

15 ANOS DE FORNECIMENTO GARANTIDO DE TERRAS RARAS 

O outro elemento estratégico na negociação da venda da Serra Verde é o contrato de offtake de 15 anos que acompanha o negócio. Por meio desse contrato, 100% da produção da Serra Verde na chamada Fase 1, incluindo neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, será vendida a uma empresa capitalizada por agências do governo dos Estados Unidos. O acordo inclui também uma tabela de pisos mínimos de preço para os minerais críticos. 

Um contrato de offtake garantindo preços mínimos para disprósio e térbio é, sob qualquer análise objetiva, mais vantajoso para o comprador (EUA) do que para o vendedor (Brasil). Com ele, os EUA garantem um fornecimento estável e economicamente previsível de elementos críticos para sua indústria de defesa e tecnologia. Em termos práticos, isso significa que o governo norte-americano é, ao mesmo tempo, financiador da operação e comprador garantido de toda a produção.  

Enquanto o Brasil renuncia à sua capacidade de negociar preços no mercado ou de diversificar seus compradores por mais de uma década. Em um mercado em que a escassez de elementos pesados tende a se aprofundar e os preços tendem a subir, fixar preços mínimos por 15 anos beneficia sobretudo quem compra. 

Além disso, a USA Rare Earth declarou em seus documentos oficiais que a operação faz parte de uma plataforma totalmente integrada do tipo “da mina ao ímã”, abrangendo mineração no Brasil, processamento e separação nos EUA, produção de ligas metálicas no Reino Unido e fabricação de ímãs de neodímio no estado americano de Oklahoma. 

Fica evidente que, nessa arquitetura de produção, o Brasil ocupa a etapa mais primária e de menor valor agregado da cadeia: a extração e a produção do concentrado. As etapas seguintes de separação dos elementos, de produção de ligas e da fabricação dos ímãs serão realizadas nos Estados Unidos, no Reino Unido e provavelmente na França. Essa estrutura de produção inviabiliza a possibilidade de transferência de tecnologia de ponta para o país.   

AS REAÇÕES JURÍDICAS EM DEFESA DA SOBERANIA 

A reação política e jurídica ao negócio no Brasil foi rápida e veio de múltiplas frentes. A deputada federal Heloísa Helena da Rede ingressou com uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal, pedindo a suspensão imediata da operação.  

A ação alega que a venda fere princípios constitucionais de soberania nacional e de desenvolvimento econômico, e que o arcabouço regulatório brasileiro é insuficiente para proteger minerais críticos pertencentes à União diante de operações envolvendo capital estrangeiro. A autora da ação também solicitou, em caráter liminar, que nenhuma medida seja tomada que transfira controle econômico relevante sobre os ativos minerais até o julgamento definitivo. 

Em paralelo, os deputados do PSOL Sâmia Bomfim, Glauber Braga e Fernanda Melchionna acionaram a Procuradoria-Geral da República contra Ronaldo Caiado, pedindo a apuração da operação e a adoção de medidas para o cancelamento imediato de todos os acordos e contratos relacionados à negociação.  

Os parlamentares argumentam que Caiado invadiu competência constitucional exclusiva da União ao assinar acordos sobre recursos minerais com um governo estrangeiro.  

Representações também foram encaminhadas ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério Público Federal. Em todos esses movimentos, o argumento central é o mesmo, a presença de financiamento estatal estrangeiro na operação configura uma intervenção indireta de outro Estado em um setor estratégico brasileiro, o que exige escrutínio mais rigoroso do que uma transação comercial convencional. 

A INVESTIGAÇÃO DO CADE 

No plano regulatório, atendendo a um pedido do deputado federal Arlindo Chinaglia, do PT de São Paulo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu um processo de investigação sobre a compra da mineradora. 

Em documentos encaminhados ao Cade e ao Ministério de Minas e Energia, Chinaglia argumentou que a operação bilionária deveria ter sido previamente notificada ao órgão antitruste brasileiro, o que não ocorreu. 

O deputado questionou ainda a participação direta do governo norte-americano na operação, tanto como financiador, via DFC, quanto como comprador, e classificou a transação como um evento grave para a soberania nacional. 

Chinaglia indagou se o governo federal brasileiro foi informado ou participou das negociações, cobrou acesso a contratos e processos internos e apontou falta de transparência em toda a operação.  

Na sua avaliação, o acordo pode levar o Brasil a perder acesso ao próprio recurso natural no futuro. Em um cenário extremo, o país poderia ser obrigado a adquirir no mercado internacional o minério extraído em seu próprio território para uso em setores estratégicos como defesa, energia, tecnologia e sustentabilidade. 

PROMESSAS E PERGUNTAS SEM RESPOSTA 

Em meio às polêmicas, a Serra Verde e a USA Rare Earth fizeram declarações tranquilizadoras à imprensa. O CEO da Serra Verde, Thras Moraitis, afirmou que, com a geração de caixa propiciada pela transação, a empresa combinada terá condições de expandir suas pesquisas e investimentos no Brasil.  

Mas as perguntas fundamentais permanecem sem respostas concretas. A primeira delas diz respeito à transferência de tecnologia. A exploração de terras raras envolve processos industriais sofisticados e caros, especialmente a etapa de separação dos elementos, que agrega valor cerca de 20 vezes superior à extração bruta.  

Haverá alguma transferência de tecnologia para o Brasil? Haverá instalação de sistemas de separação e produção de óxidos em solo nacional? Até o momento, não há nenhum compromisso concreto nesse sentido. O próprio CEO da Serra Verde admitiu à CNN Brasil que não há planos aprovados para novas etapas de industrialização no Brasil. 

A segunda questão diz respeito ao emprego. A extração de minerais é hoje uma atividade altamente mecanizada e automatizada. A Serra Verde, que opera uma mina de grande porte, atualmente emprega um número relativamente modesto de trabalhadores. Segundo diferentes fontes, atualmente entre contratados diretos e terceirizados, a empresa emprega entre 400 e 1.000 funcionários. 

Mesmo com a ampliação prevista, dificilmente haverá a criação de um número expressivo de postos de trabalho que justifique, por si só, o argumento econômico-social da operação. Além disso, a geração de emprego em mineração nunca se comparou, historicamente, à geração de empregos na industrialização. 

Trabalhadores que atuam na extração de terras raras na mina de Pela Ema em Minaçu (GO) (créditos: Divulgação/Serra Verde) 

A terceira e mais crítica questão é a do modelo de negócio para o Brasil. Os minerais da Serra Verde serão beneficiados aqui, com a produção dos bens manufaturados finais, como os ímãs de alta qualidade, as ligas metálicas e os componentes tecnológicos, em solo brasileiro? Ou, o país se consolidará, mais uma vez, como mero exportador de insumo primário, enquanto as etapas mais lucrativas e tecnologicamente sofisticadas da cadeia se realizam nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Europa? 

Os documentos oficiais da USA Rare Earth depositados na SEC (Securities and Exchange Commission, em português, a Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos) indicam, sem ambiguidade, que a separação do concentrado será feita nos EUA, a produção de ligas no Reino Unido e a fabricação de ímãs em Oklahoma. Ou seja, o Brasil exporta concentrado, e os EUA e seus aliados fazem o produto final. 

Há uma diferença crucial entre defender a abertura econômica e aceitar passivamente o papel de fornecedor de matéria-prima barata. O Brasil já faz isso há décadas com o minério de ferro, a soja e o petróleo bruto, exporta commodity e importa produtos industriais e tecnologia de alto valor. As terras raras representam uma chance histórica de romper esse ciclo. Mas, pelas informações disponíveis até o momento, a venda da Serra Verde não parece estar sendo construída sobre a lógica da soberania. 

DEBATE URGENTE E TRANSPARÊNCIA NECESSÁRIA 

A venda da Serra Verde é um negócio que coloca em tensão direta os interesses estratégicos do Brasil e dos Estados Unidos e instaura uma situação bastante desfavorável do ponto de vista econômico e estratégico para o país. 

O que torna tudo muito preocupante é a falta de transparência que marcou o processo. A atuação do então governador Caiado, assinando acordos sobre recursos da União diretamente com o governo norte-americano e sem autorização federal, criou um precedente perigoso de “paradiplomacia inconstitucional” em área estratégica sensível. O governo federal afirma que não foi devidamente consultado. O Cade não recebeu notificação prévia.  

O Brasil deveria negociar com mais atenção e rigor. A exemplo do que fizeram países como Vietnã, que proibiu a exportação bruta de terras raras e condicionou investimentos à construção de fábricas locais de processamento, e da própria China, que exige joint ventures e transferência de tecnologia, como contrapartida para o acesso ao seu mercado. A riqueza mineral estratégica do país não pode ser alienada sem contrapartidas claras e mensuráveis. 

O que está em jogo não é apenas uma empresa de mineração avaliada em 2,8 bilhões de dólares. É o controle sobre os 23% das reservas mundiais de terras raras que estão enterradas no Cerrado brasileiro e que, nas próximas décadas, poderão definir quem fabrica os ímãs dos carros elétricos, as baterias de alta performance, os chips de IA, as turbinas da energia limpa e os sistemas dos armamentos mais sofisticados do mundo.  

Mais do que nunca, o Brasil precisa realizar um debate público amplo, transparente e tecnicamente qualificado sobre os termos em que está disposto a participar dessa disputa. Não devemos ficar no papel de coadjuvante que entrega a matéria-prima, mas sim, assumir a postura de ator soberano que negocia benefícios geopolíticos, comerciais e tecnológicos concretos para a sua soberania e seu desenvolvimento. 

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