Livro discute autoria, gênero e os bastidores da criação da telenovela brasileira

Foto Capa: reprodução/Instagram

Por Arthur Líbero

A telenovela brasileira está presente no imaginário do país há décadas. Personagens, histórias, conflitos e diálogos ultrapassam a tela e passam a fazer parte da memória coletiva. Mas, antes de chegarem à televisão, essas histórias são construídas por profissionais que carregam diferentes formações, experiências e maneiras de compreender o processo de criação. É justamente esse universo que os pesquisadores Tatiana Siciliano e Francisco Malta investigam no livro “Autoria e gênero na telenovela brasileira”, lançado nesta segunda-feira (31), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro.

A obra reúne entrevistas e depoimentos de nove autores e autoras que representam diferentes gerações da teledramaturgia brasileira: Ana Maria Moretzsohn, Lícia Manzo, Rosane Svartman, Solange Castro Neves, Lauro César Muniz, Alcides Nogueira, Silvio de Abreu, Ricardo Linhares e Glória Perez. A proposta é mergulhar nos processos criativos desses profissionais e discutir a autoria dentro de uma indústria que, embora tenha no autor uma figura central, depende de uma extensa cadeia de profissionais para transformar o texto em obra audiovisual.

O lançamento ocorre a partir das 18h e conta com sessão de autógrafos. O evento está confirmado na programação oficial da Livraria da Travessa.

(créditos: reprodução/Editora PUC Rio)

Da pesquisa sobre mulheres no audiovisual ao livro

A origem da obra está relacionada ao projeto de pesquisa “As trabalhadoras do audiovisual fluminense: trajetória de mulheres por trás das câmeras na TV e no streaming”, coordenado por Tatiana Siciliano e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), por meio do edital Auxílio Básico à Pesquisa (APQ1).

O projeto busca dar visibilidade às trajetórias de mulheres que atuam nos bastidores do audiovisual, em um mercado historicamente marcado por desigualdades. A pesquisa foi oficialmente contemplada no edital APQ1 da FAPERJ.

Segundo os autores, as entrevistas realizadas durante o projeto levaram a uma constatação que acabou direcionando o livro: o roteiro é a base sobre a qual se desenvolvem as histórias e os personagens que atravessam gerações. “Conforme as entrevistas foram acontecendo, uma coisa ficou muito clara para nós: o roteiro é a base de tudo”, explicam.

A partir dessa percepção, Siciliano e Malta decidiram ampliar o olhar. O objetivo deixou de ser apenas compreender a presença feminina nos bastidores e passou também a investigar como homens e mulheres de diferentes gerações construíram a teledramaturgia brasileira.

A pesquisa deu origem a um conjunto de trajetórias bastante distintas. Para os pesquisadores, essa diversidade foi justamente o que demonstrou que havia material para uma publicação.

Glória Perez, por exemplo, possui um processo de escrita mais individual, enquanto Rosane Svartman trabalha em uma estrutura próxima à chamada sala de roteiristas. Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares destacam a troca e a formação de novos autores. Silvio de Abreu tem uma trajetória marcada pela preocupação com a inovação da linguagem, enquanto Lauro César Muniz entende a telenovela também como espaço para discutir questões relacionadas ao Brasil, à política e às relações entre classes sociais.

Alcides Nogueira leva para o folhetim sua experiência com a dramaturgia, enquanto Lícia Manzo se destaca pelo cuidado com os diálogos e por abordar questões próximas do cotidiano. Já Solange Castro Neves carrega em sua trajetória a formação ao lado de nomes como Ivani Ribeiro e Cassiano Gabus Mendes.

Para os pesquisadores, colocar essas experiências lado a lado permite enxergar não apenas diferentes formas de escrever uma novela, mas também diferentes maneiras de compreender a própria história da televisão brasileira.

Mais do que analisar novelas, ouvir quem as criou

Uma das principais características da pesquisa está justamente na opção por entrevistar os autores. Em vez de observar somente as novelas já exibidas, os pesquisadores procuraram compreender o caminho percorrido até que aquelas histórias chegassem à televisão.

Antes das entrevistas, Siciliano e Malta fizeram um levantamento sobre as trajetórias profissionais, obras e formações dos participantes. O procedimento permitiu identificar a importância do repertório na criação de narrativas que precisam se sustentar durante meses e desenvolver personagens e conflitos de maneira contínua. “Ouvindo os autores, também conseguimos compreender melhor de onde vêm suas referências, como constroem seus personagens e histórias e de que maneira suas experiências pessoais e profissionais atravessam a escrita”, afirmam.

Dessa forma, o livro busca responder não apenas quais histórias foram escritas, mas como seus criadores se tornaram os profissionais responsáveis por elas. A perspectiva também revela que não existe um único modelo de autor de telenovela. As experiências, formações e métodos de trabalho variam, e essa diversidade interfere diretamente na maneira como cada profissional constrói suas narrativas.

Quem é o autor de uma novela?

A discussão sobre autoria ganha uma dimensão ainda mais complexa quando aplicada à televisão. Diferentemente de uma obra literária individual, a telenovela é resultado da participação de uma grande quantidade de profissionais.

A ideia inicial parte do autor, que desenvolve a história, os personagens e os conflitos. Entretanto, o projeto passa pela curadoria executiva da emissora, pode contar com equipes de pesquisa e chega à direção, responsável por transformar o texto em imagens.

É nesse ponto que os pesquisadores recorrem ao conceito de “agrupamentos autorais”, desenvolvido pelo pesquisador Jonathan Gray. A ideia permite compreender a autoria no audiovisual como algo construído e negociado entre diferentes profissionais.

Para Siciliano e Malta, reconhecer o caráter coletivo da produção não significa colocar todos os envolvidos no mesmo lugar. O autor permanece responsável pela arquitetura narrativa e pela coesão da história, ainda que sua criação seja atravessada por outras funções e decisões ao longo da produção.

“A ideia e a arquitetura narrativa partem do autor, que também responde pela coesão da história”, explicam.

A discussão se torna ainda mais interessante porque a própria audiência pode interferir nos caminhos de uma novela. Entre os episódios recuperados pela pesquisa estão mudanças envolvendo personagens de “Paraíso Tropical” e “Caminho das Índias”.

Ricardo Linhares relata que Bebel, interpretada por Camila Pitanga em “Paraíso Tropical”, inicialmente seria uma personagem coadjuvante e teria apenas uma noite de relacionamento com Olavo, vivido por Wagner Moura. A reação dos espectadores contribuiu para ampliar o espaço dos personagens na trama.

Em “Caminho das Índias”, Glória Perez também precisou lidar com a resposta do público. Maya, personagem de Juliana Paes, inicialmente terminaria a história ao lado de Bahuan, interpretado por Márcio Garcia. A recepção dos espectadores contribuiu para a mudança do rumo da trama e para a formação do casal Maya e Raj, vivido por Rodrigo Lombardi.

Os casos ajudam a demonstrar como a autoria de uma telenovela não termina quando o roteiro é escrito. Ela também é atravessada pelas escolhas da produção, pela interpretação dos atores, pela direção e pela resposta de quem acompanha a história.

Gênero e a presença das mulheres na teledramaturgia

Embora o livro não se limite às trajetórias femininas, a discussão sobre gênero permanece central. O ponto de partida da pesquisa foi justamente a necessidade de ampliar a visibilidade das mulheres que trabalham atrás das câmeras.

A investigação coordenada por Tatiana Siciliano reúne entrevistas com profissionais de diferentes áreas do audiovisual e busca construir um acervo sobre suas experiências no mercado de televisão e streaming. Entre as profissionais entrevistadas pelo projeto estão roteiristas como Lícia Manzo, Ana Maria Moretzsohn, Rosane Svartman, Mariana Torres e Ângela Chaves, além de diretoras, pesquisadoras e executivas.

A iniciativa também tem produzido trabalhos acadêmicos derivados das entrevistas. Na PUC-Rio, por exemplo, pesquisas vinculadas ao projeto analisam as experiências de mulheres no mercado audiovisual e os desafios encontrados por elas nos bastidores.

O livro amplia esse debate ao colocar autoras e autores de diferentes gerações em diálogo. A escolha permite observar tanto a presença feminina quanto as transformações ocorridas na própria organização do trabalho de criação das novelas.

Telenovela como memória cultural

Para os autores, estudar a telenovela significa também estudar o Brasil. A produção ultrapassa a função de entretenimento porque registra mudanças de comportamento, valores, conflitos sociais e transformações culturais.

A telenovela brasileira possui origem na tradição do folhetim e, ao longo do desenvolvimento da televisão, tornou-se uma das formas mais populares de narrativa ficcional do país. Por isso, os pesquisadores defendem que preservar sua memória também significa preservar parte da história cultural brasileira.

Nesse processo, a universidade possui papel fundamental.

“Ao estudar a telenovela, a academia também ajuda a compreender a própria história cultural do Brasil”, afirmam os pesquisadores.

Para eles, essa atuação deve envolver não apenas a produção de pesquisas, mas também a organização e análise de arquivos, obras e depoimentos de profissionais que participaram da construção da televisão brasileira.

A aproximação entre universidade e mercado também aparece como uma preocupação dos autores. Na avaliação deles, o diálogo entre os dois espaços pode contribuir para a formação de profissionais mais preparados diante das mudanças da indústria audiovisual.

Repertório como ferramenta para quem quer trabalhar com audiovisual

A pesquisa também apresenta uma reflexão para estudantes e futuros profissionais de Comunicação, Jornalismo, Cinema, televisão e áreas relacionadas.

Para Siciliano e Malta, o talento é apenas uma parte da formação de um autor. Leitura, experiência, conhecimento e construção permanente de repertório são fundamentais para quem pretende trabalhar com criação audiovisual.

“Estar preparado é tudo”, afirmam os autores, em referência a uma conhecida frase de Shakespeare.

O conselho se estende também a quem deseja transformar uma curiosidade em pesquisa acadêmica. Para eles, o primeiro passo é observar aquilo que desperta interesse e transformar essa inquietação em perguntas.

“Pesquisar é justamente transformar uma inquietação em conhecimento”, defendem.

A própria trajetória do livro é um exemplo desse processo: uma pesquisa inicialmente voltada para as experiências de mulheres nos bastidores do audiovisual acabou levando os pesquisadores a uma investigação mais ampla sobre autoria, processos criativos, gênero, memória e transformação da televisão brasileira.

Sobre os autores

(créditos: reprodução/Instagram)

Tatiana Siciliano é professora adjunta do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, doutora em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ. A pesquisadora lidera o grupo Narrativas da Vida Moderna na Cultura Midiática, dos Folhetins às Séries Audiovisuais (NARFIC), e é uma das coordenadoras do grupo Narrativas & Consumo. Sua pesquisa concentra-se em cultura das mídias, narrativas ficcionais e processos de autoria e estilo na ficção audiovisual.

Francisco Malta é roteirista, pesquisador e pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), integra o grupo Narrativas & Consumo e desenvolve pesquisas relacionadas à televisão, narrativa e audiovisual.

“Autoria e gênero na telenovela brasileira” tem 300 páginas. A obra também está disponível para comercialização em livrarias e plataformas de venda.

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