Foto capa: Simon Galloway / LAT Images via Getty Images
Por Marina Campos
A New York Fashion Week Spring/Summer 2027 devolveu à moda americana algo que parecia ter sido deixado de lado nas últimas temporadas: o prazer de se vestir. Entre nove dias de desfiles, um protesto que virou notícia internacional e uma discussão sobre sucessão criativa em pelo menos duas grandes casas, o calendário desta edição deixou claro que cor, glamour e personalidade voltaram ao centro da conversa, sem abrir mão do peso comercial que sempre definiu a moda de Nova York.
Ralph Lauren abre a temporada com o peso do arquivo

A apresentação de Ralph Lauren, realizada em 9 de setembro, um dia antes do início oficial do calendário, deu o tom simbólico da semana. Prestes a completar seis décadas de história, a marca não tentou parecer jovem às custas de seus próprios códigos. Em vez disso, revisitou o repertório que a consagrou, denim ao lado de alfaiataria e seda, peças com acabamento propositalmente gasto, bordados artesanais, e recuperou elementos do arquivo sem transformar o desfile em retrospectiva. A coleção funcionou como um lembrete de que, em 2026, a separação entre moda americana e luxo tradicional já não faz muito sentido.
Proenza Schouler testa uma nova era com Rachel Scott

Depois da saída dos fundadores Jack McCollough e Lazaro Hernandez para a Loewe, Rachel Scott assumiu a direção criativa da Proenza Schouler trazendo a sensibilidade que construiu à frente da Diotima: mais cor, mais estampa, silhuetas menos rígidas. O grande momento comercial da coleção, porém, foi o retorno da bolsa PS1, relançada como PS1 Walker em parceria com Reed Krakoff, justamente quando a estética dos anos 2000 volta a interessar uma nova geração de consumidores. A coleção ainda não responde por completo à pergunta que baliza essa transição: até onde Scott pode levar a marca sem deixar de ser Proenza Schouler.
Diane von Furstenberg volta ao calendário com Henry Zankov

Depois de anos fora da programação oficial, a Diane von Furstenberg retornou à NYFW marcando também a estreia de Henry Zankov como diretor artístico. O desafio do designer, conhecido por sua própria marca de knitwear e cor, é modernizar uma casa carregada de um símbolo tão forte quanto o wrap dress sem abandoná-lo. Na coleção, o vestido icônico segue presente, mas divide espaço com tricôs, alfaiataria e estampas gráficas que ampliam o guarda-roupa da marca.
Coach mostra como envelhecer sem parecer datada

Aos 85 anos, a Coach chegou à temporada em um dos seus melhores momentos culturais recentes, resultado de mais de uma década de trabalho de Stuart Vevers para transformar uma marca de bolsas de couro em um nome relevante para o público jovem. A coleção seguiu essa lógica: couro pesado ao lado de peças mais leves, estética vintage tratada como luxo vivido, não como peça de museu. A força da casa está justamente em não depender de um único produto histórico, e sim de uma linguagem que combina arquivo, cultura pop e celebridades, algo que ajuda a explicar o bom momento da marca dentro do grupo Tapestry.
Tory Burch devolve a cor e a vontade de se arrumar

Apresentada no Sunken Garden de Isamu Noguchi, a coleção de Tory Burch resumiu bem o espírito da temporada: recuperar o prazer de se vestir depois de anos de roupas discretas. Violeta, turquesa, coral e amarelo manteiga dominaram uma paleta pensada quase como um argumento de humor, enquanto peças práticas como o car coat ganharam brocados e tecidos mais luxuosos. A trilha sonora inspirada em O Iluminado, de Stanley Kubrick, acrescentou uma camada de estranhamento que impediu a coleção de soar apenas doce. Com Anna Wintour, Amanda Seyfried e Lauryn Hill na primeira fila, o desfile reforçou uma tendência clara da semana: a elegância expressiva está de volta.
Christian Siriano aposta no excesso

Em um mar de coleções mais comedidas, Christian Siriano escolheu o caminho oposto. Rococo Redux, apresentada no Cunard Building, transformou os códigos do rococó francês em volumes, corsets e vestidos longos pensados para o red carpet, incluindo uma colaboração com a marca de bebidas Alani Nu. Fiel à sua reputação de vestir corpos e idades que o red carpet tradicionalmente ignora, Siriano reafirmou que ainda existe espaço, e público, para a fantasia dentro do ready-to-wear americano.
O protesto que ofuscou a coleção da COS

Nem todo desfile marcante da temporada pertence às coleções de primavera/verão. No dia 13 de setembro, a apresentação outono/inverno 2026 da COS, no WSA Building, em Manhattan, reuniu nomes como Sharon Stone, Michelle Williams, Lupita Nyong’o e John Boyega na primeira fila, mas acabou sendo ofuscada por um confronto entre Steven Kolb, CEO e presidente da CFDA, e ativistas da PETA. Os vídeos do episódio, registrados por convidados e pela equipe da Fashionista, mostram Kolb segurando dois manifestantes, arrancando seus cartazes e cobrindo a boca deles com as mãos, chegando a enrolar a perna em torno de uma ativista para imobilizá-la no chão enquanto ela gritava contra o uso de lã, tudo isso enquanto as modelos seguiam desfilando ao fundo.
O protesto fazia parte da campanha “Wool Kills”, promovida pela PETA contra o uso de lã pela H&M Group, controladora da COS, depois de uma investigação da organização apontar maus-tratos a ovelhas em uma fazenda certificada na África do Sul. Horas após a repercussão, Kolb publicou um pedido de desculpas nas redes, reconhecendo ter agido de forma inadequada, tornou sua conta privada e anunciou um afastamento voluntário do trabalho. A CFDA confirmou a decisão e informou que vai conduzir uma revisão interna do caso, enquanto a H&M Group declarou que suspendeu as licenças de uma fazenda de lã e uma de mohair citadas na investigação da PETA. O episódio mostrou, mais uma vez, que os bastidores de uma fashion week podem gerar tanta notícia quanto qualquer coleção.
O que a temporada revela
No conjunto, a NYFW SS27 mostrou uma moda americana menos interessada em desaparecer. Se há uma conclusão possível, é que o arquivo continua sendo o ponto de partida favorito da moda americana, mas já não é suficiente sozinho. A temporada pede desejo contemporâneo, não nostalgia repetida, e as marcas que melhor entenderam isso foram, também, as que mais deram o que falar.
Encerrada a etapa nova-iorquina, o calendário internacional segue para seu segundo ciclo. Na próxima semana, entre 17 e 21 de setembro, é a vez da London Fashion Week, que chega marcada por dois retornos aguardados: o da McQueen, com a estreia de Seán McGirr à frente da casa, e o da Mulberry, sob a direção criativa de Christopher Kane. Se Nova York apostou em cor, legado e espetáculo, resta ver que resposta Londres vai dar a essa mesma pergunta que atravessou toda a semana americana: o que significa vestir-se com desejo, e não apenas com discrição, em 2027.
