Foto capa: Divulgação/Terra
Por Maria Luiza Massa
A escolha de Anitta como rainha de bateria da Grande Rio acontece em um momento de forte conexão entre a artista e o enredo da escola para o Carnaval 2027, “Sankofa Tabon”, que aborda a ancestralidade, identidade e o retorno de africanos libertos à Costa do Ouro. O tema também se aproxima de seu novo álbum, EQUILIBRIVM II, que explora referências à espiritualidade, ao Candomblé, à cultura brasileira e às raízes africanas.
Contudo, Anitta surpreendeu com a mudança de escolha de quem iria a coroar, uma vez que, esse ato é geralmente feito pelo antiga rainha de bateria para a nova. Nessa lógica, a coroação seria feita por Virginia Fonseca, porém a escolha da cantora resolveu voltar às raízes do carnaval e Eloína dos Leopardos a coroou.

E quem é Eloína dos Leopardos?
Eloína nasceu no bairro do Catumbi, no Rio de Janeiro, e foi criada pela madrinha, que era costureira do bloco carnavalesco Bafo da Onça. Foi ali que começou a desfilar ainda criança. Aos 12 anos, se vestia e maquiava como mulher e, tinha ao seu lado uma grande amiga: Rogéria. Essa que era conhecida como a “travesti da família brasileira”, tornou-se a primeira travesti a alcançar grande popularidade na TV nacional. Por conta dessa companhia, Eloína conseguia acessar os bailes de carnaval, concretizando ainda mais sua paixão.
Em 1975, Eloína participou de um concurso de baile de Carnaval vestida de biquíni branco com penas de faisão brancas e rosas, e ficou em segundo lugar. No qual prendeu a atenção do figurinista Viriato Ferreira, parceiro profissional do carnavalesco Joãozinho Trinta. E em 1976, aos 31 anos, Eloína foi convidada para desfilar à frente dos ritmistas da Beija-Flor de Nilópolis, sendo a primeira mulher a ocupar esse posto na história do Carnaval carioca, dando origem à função de “rainha de bateria”.

A escola venceu o Carnaval naquele ano e Joãozinho Trinta a manteve no posto pelos dois anos seguintes, período em que a Beija-Flor seguiu campeã, o que a consolidou como um marco de sorte para a escola. Além disso, acontecia a ditadura civil-militar brasileira (1964–1985), período de repressão a identidades LGBTQ+. O que demonstra a tamanha coragem de Eloína de ser uma mulher trans/travesti liderando a bateria de uma escola de alta relevância nesse contexto político.
Na década de 1980, Eloína produziu e estrelou o espetáculo “Noite dos Leopardos”, no Rio de Janeiro. Um show adulto que agitou a vida noturna carioca na galeria Alasca, em Copacabana. O nome “Leopardos” era o apelido dado aos rapazes que se apresentavam e terminavam o número completamente nus. O show foi um fenômeno de público por cerca de dez anos, e atraiu nomes como Cazuza, Elza Soares e Caetano Veloso. Foi esse sucesso que consagrou seu nome artístico definitivo.
Para Marcela Porto, mulher trans e rainha de bateria da Chatuba de Mesquita, Eloína é um símbolo de resistência: — Ela foi a pioneira, o corpo de Eloína na avenida falou, gritou e mostrou que podemos estar ali também e onde quisermos. Todas as mulheres que vierem como rainhas de bateria devem reverenciá-la. Ela é imortal e eterna, sua história é marcada e carimbada pela força e orgulho de ser Travesti — afirma a rainha de bateria.

A presença dessas mulheres na festa é histórica, mas a conquista de visibilidade ainda convive com o preconceito e com a resistência em reconhecê-las em posições de destaque. Essa contradição entre um Carnaval que as recebe e uma sociedade que ainda impõe barreiras aparece na fala da entrevistada:
“O carnaval sempre abraçou as mulheres trans e travestis, lembro de Rogéria, Jane di Castro, Roberta Close e tantas outras que abrilhantaram o Carnaval. A maior festa popular não deixou de nos abraçar e continua abraçando até hoje, porém creio que o crescimento é lento e poderia haver um pouco mais de representatividade. As travestis fazem parte do carnaval porém ainda há um preconceito ao dar a elas um local de destaque.”
Desta forma, o que um dia foi um gesto de ruptura em meio à ditadura transformou-se, décadas depois, em um cargo de visibilidade midiática global. A trajetória de Eloína mostra que, apesar dos avanços conquistados, a busca por reconhecimento e aceitação social permanece. O espaço ocupado por travestis e mulheres trans no carnaval pode ter mudado, mas a luta por representatividade ainda acompanha essa história.
