Foto capa: Giovani Dietrich
Por Giovani Dietrich
A jornalista Ana Carolina Raimundi, repórter especial do Fantástico, da TV Globo, participou de uma aula especial na UniFACHA, onde compartilhou experiências marcantes de sua carreira e conversou com os estudantes sobre os desafios, as responsabilidades e o papel social do jornalismo. Formada pela própria UniFACHA, Carol começou a trabalhar na TV Globo em 2004. A profissional foi entrevistada pela mediadora Camilla Augusta Pereira em um encontro realizado na manhã desta quarta-feira (04), durante o UniFACHA Festival, marcado por reflexões, histórias emocionantes e troca de experiências.
Durante a conversa, Carol relembrou diferentes momentos de sua trajetória, destacando a importância de desenvolver um olhar humano sobre os acontecimentos. Ao falar sobre sua maneira de construir reportagens, resumiu sua perspectiva na frase: “Olhar pela diagonal das coisas, questões humanas, é o meu jeito de mudar o direcionamento, traçando um caminho”.
A repórter também abordou a dificuldade de separar a vida pessoal da profissão, relatando que algumas coberturas chegaram a provocar crises existenciais. Ao recordar matérias envolvendo vítimas de tragédias e crimes, explicou que, em determinado momento da carreira, percebeu que precisava mudar sua maneira de trabalhar. Embora aquela fase tenha sido fundamental para sua formação, passou a priorizar pautas com maior sensibilidade e enfoque humano, característica que contribuiu para sua identificação com o Fantástico.
Em entrevista ao Em Todo Lugar, Carol também refletiu sobre as transformações em sua visão jornalística ao longo da carreira e sua relação com o programa. A repórter destacou que foi necessário compreender a dimensão e a complexidade do Fantástico, percebendo que o formato da atração dialogava diretamente com sua maneira de contar histórias. Essa identificação contribuiu para consolidar seu olhar sobre a construção de reportagens e a abordagem de temas humanos.
Outro ponto destacado foi a iniciativa de buscar oportunidades e propor suas próprias pautas. Carol ressaltou a importância de ter atitude, bater à porta e apresentar ideias. Segundo ela, o jornalista precisa ir além de esperar por uma oportunidade: é necessário apurar, construir a reportagem, reunir informações, buscar contatos de possíveis entrevistados e defender a relevância da história. A profissional também contou que costuma lutar até o fim para conseguir espaço na programação para suas matérias.
Ao longo da palestra, foram lembradas reportagens de grande repercussão, como as relacionadas à fertilização in vitro, à tragédia de Petrópolis, à violência psicológica contra mulheres e à paralisia do sono. A jornalista destacou que busca abordar assuntos que provoquem reflexão e contribuam para a conscientização da sociedade. Ao falar sobre uma reportagem envolvendo o etarismo contra mulheres, lembrou o alcance de uma matéria exibida em um domingo à noite no Fantástico. Sua intenção, segundo ela, era justamente incomodar e estimular o debate, ajudando a desconstruir preconceitos.
A conversa também passou por experiências com personalidades internacionais, como Paul McCartney e Tom Cruise, mostrando a diversidade de situações vividas ao longo de sua carreira.
Um dos momentos mais emocionantes da aula aconteceu quando Carol relembrou uma reportagem sobre cuidados paliativos, realizada com pacientes com câncer em São Paulo. A jornalista contou a história de Priscila dos Santos, uma paciente com quem construiu uma relação de afeto durante a produção da matéria. Mãe de três filhos pequenos, Priscila descobriu um câncer de mama em 2021 e passou por tratamento. Em 2023, porém, a doença voltou e se espalhou pelos ossos, pulmões e cérebro. Ela morreu aos 32 anos.
Ao recordar a despedida, Carol se emocionou e explicou que, sempre que volta a falar sobre o assunto, sente como se reencontrasse aquela personagem. “Matérias sobre morte não são sobre doença, e sim sobre a vida das pessoas”, destacou a repórter, sintetizando a sensibilidade que procura levar às suas produções.

A história de Priscila também voltou à conversa durante a entrevista ao Em Todo Lugar. Questionada sobre qual personagem de uma reportagem gostaria de reencontrar caso pudesse voltar a um momento de sua carreira, Carol não hesitou em escolher Priscila. A jornalista contou que gostaria de ter tido mais tempo para conversar com ela, conhecer melhor sua trajetória e fazer outras perguntas sobre sua vida. A resposta reforçou o vínculo humano construído durante a produção da reportagem e a importância que essas histórias continuam tendo para quem as conta.

Carol também falou abertamente sobre seu diagnóstico de TDAH e os momentos de meltdown, além de defender que não tem medo de demonstrar emoção. Para ela, não é necessário esconder os sentimentos diante de histórias tão intensas. A emoção também faz parte do processo de contar uma história.
Outro tema abordado foi a importância da comunicação nas relações humanas. Ao refletir sobre os conflitos presentes na sociedade, a jornalista afirmou: “95% dos problemas no mundo são pela falta de comunicação, as guerras”. A fala reforçou sua visão sobre o papel do diálogo e da informação na construção de uma sociedade mais consciente.
Já em uma fase que descreveu como mais madura de sua trajetória, a jornalista ressaltou a importância de compreender os próprios limites sem perder a disposição de transformar realidades por meio da informação.
A aula especial reforçou o jornalismo como instrumento de transformação social e de visibilidade para questões humanas. Em um encontro que aproximou os estudantes de uma profissional formada pela própria instituição, Carol Raimundi deixou uma mensagem importante: por trás de cada reportagem, existem pessoas, histórias e vidas que merecem ser contadas.
