Foto Capa: Mauro Pimentel / AFP
Por Bernardo Magno e João Gabriel Vasconcellos
O dia 11 de abril marca no calendário nacional as comemorações do Dia das Escolas de Samba, em homenagem a fundação do bloco Ouro sobre Azul, que posteriormente se tornaria a Portela. Entre desejos e pedidos, o aumento do número de escolas no Grupo Especial do Rio de Janeiro é o assunto mais falado pelo mundo do samba nas últimas semanas.
Debatido pelos foliões e profissionais da festa desde a mudança para três dias de desfiles, em 2025, o aumento foi anunciado na quinta-feira (09/04), após a plenária da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). A novidade é que a mudança será de forma gradual até 2030, diferentemente do declarado por Eduardo Cavaliere, prefeito do Rio, que bancava o aumento já para o ano que vem.
Entre fatos públicos e bastidores, a reportagem do Em Todo Lugar apurou as informações e traz todos os detalhes, idas e vindas das negociações.
SUGESTÃO DE PAES, PROMESSA DE CAVALIERE E ‘BOMBA’ NA LIESA
Tudo começou no dia 16 de março, quando Eduardo Paes, ainda prefeito do Rio, publicou em suas redes sociais que havia feito uma “última sugestão carnavalesca” a Eduardo Cavaliere, vice-prefeito até aquele momento, e Gabriel David, presidente da Liesa, já que entregaria o cargo ao fim daquela semana visando concorrer nas eleições para o governo do estado no segundo semestre.
O então prefeito sugeriu que o Grupo Especial passasse de 12 para 15 escolas já no próximo ano, com cinco desfiles em cada noite. Paes ainda indicou que as escolas convidadas deveriam ser as tradicionais União da Ilha, Império Serrano e Estácio de Sá, que estão na Série Ouro, a segunda divisão do carnaval do Rio. Os mais antenados perceberam que uma movimentação estava acontecendo e se animaram com a possibilidade.
A pauta ganharia as manchetes de vez no dia 20 de março, quatro dias após a postagem de Paes. Em sua cerimônia de posse como prefeito do Rio, ocorrida no Palácio da Cidade, na Zona Sul, Cavaliere anunciou que havia acatado a sugestão de seu ex-chefe e confirmou o aumento de três escolas na elite do Carnaval estava para 2027. O agora prefeito ainda seguiu na ideia de que as convidadas fossem Estácio, Ilha e Império Serrano.

A fala caiu como uma bomba na Liesa, que gostava da ideia mas tratava o assunto ainda em estágio de negociação. Questionada pela TV Globo, detentora dos direitos de transmissão dos desfiles e que nada sabia sobre o assunto, a Liga recuou na postura aberta à novidade, garantindo que se manteriam as 12 escolas e rapidamente desmentindo a informação.
Apesar de ser vista com bons olhos, a mudança necessitava de uma série de aprovações em plenárias, alterações no regulamento já aprovado e preocupava na questão financeira e estrutural, já que a Cidade do Samba conta com somente 14 barracões.
Sabendo disso, Gabriel David utilizou suas redes sociais para explicar que as conversas caminhavam bem, relembrar esses pontos e reforçar que nem Liga e nem prefeitura tinham autonomia suficiente para mexer no regulamento de forma unilateral. O presidente da Liesa ainda confirmou que o assunto seria debatido na plenária marcada para o dia 23 de março.
CAVALIERE RECUA, PAES SOBE O TOM E CRITÉRIO ENTRA EM PAUTA
Em cumprimento de agenda parlamentar no dia 22 de março, Eduardo Cavaliere falou com exclusividade para o portal Mais Carnaval e confirmou o bom andamento das conversas, mas recuou na confirmação da alteração para o ano que vem. Em discurso próximo ao de Gabriel David, o prefeito classificou as questões do subsídio às escolas e dos barracões como ‘pontos a se alinhar’ e garantiu esforços da prefeitura para tirar a ideia do papel.
Cavaliere também trouxe à tona o debate sobre quais escolas subiriam para a elite, deixando a decisão nas mãos da Liesa e reforçando a sugestão dada por ele e pelo ex-prefeito Eduardo Paes. Internamente, o assunto já era motivo de dor de cabeça. Unidos de Padre Miguel e Em Cima da Hora, terceira e quinta classificadas na Série Ouro deste ano, respectivamente, já se articulavam para entrar na justiça caso a Estácio de Sá, sexta colocada, fosse alçada à frente delas.
No mesmo dia, Eduardo Paes utilizou mais uma vez sua conta no X (antigo Twitter) para ‘deixar claro quem manda na forma que vai ser o Carnaval’ e subir o tom. Segundo o ex-prefeito, os pleitos das escolas são sempre bem-vindos, mas quem decide é o chefe do executivo municipal.
A publicação veio seguida de uma thread com diversos artigos de lei que corroboravam com a fala e foi rapidamente apagada. A postagem de Paes colocou ainda mais lenha na fogueira e esquentou mais o cenário para a plenária da Liesa no dia seguinte.

Frustrando as expectativas gerais, a plenária da Liesa realizada no dia 23 de março, um dia após a nova fala de Cavaliere e a publicação de Paes, se encerrou sem uma decisão tomada sobre o aumento no número de escolas. Contudo, o presidente Gabriel David explicou a situação, revelando ser um pedido feito diretamente pelo prefeito Cavaliere e que a questão não era simples, envolvendo mudanças estruturais na Sapucaí e na Cidade do Samba, além de uma ‘modificação total no regulamento’.
Em entrevista para o portal Mais Carnaval após o evento, Gabriel deu sua opinião sobre o critério a ser adotado para a escolha das três escolas convidadas, defendendo que fosse respeitado o desempenho técnico da Série Ouro 2026. A fala deixou clara as preferências da Liga, jogou um balde de água fria no Estácio e acendeu as esperanças da UPM.
POSTAGENS AGITAM, IMPASSE NA LIGA E ACORDO EM CHEQUE
Após uma semana sem grandes novidades, um story de Gabriel David na Prefeitura do Rio publicado em seus Instagram na sexta-feira (27 de março) agitou o público novamente. Em seguida, o prefeito Eduardo Cavaliere publicou em suas redes sociais uma foto ao lado do mandatário da Liesa, com a legenda “Haverá sinais”.
O encontro serviu para a Liga ouvir a oferta formal da prefeitura, algo que ainda não havia de fato acontecido. Entre todos os pontos abordados na reunião, a prefeitura se comprometeu a aumentar o subsídio dado às escolas em 5 milhões de reais para cada e prometeu uma estrutura que ajude as três novatas.
Apesar da postura cética em frente às câmeras, o presidente da Liesa gostou do que ouviu e alinhou o acordo, deixando claro que ainda precisava ouvir as escolas antes de formalizar. Além disso, ficou acordado que Império Serrano e União da Ilha teriam seus acessos garantidos, ficando para depois a decisão entre UPM e Estácio como a terceira agremiação, porém com a tendência para a vermelha e branca da Vila Vintém, o que agradava mais a Liesa.

Durante a semana que seguiu, as quatro escolas postulantes, se movimentaram nas redes sociais e chamaram a atenção dos internautas. No sábado, dia 4 de abril, vídeos do prefeito Cavaliere circularam durante cumprimento de uma agenda parlamentar em Madureira, na Zona Norte. Neles, o prefeito confirmou que estava tudo certo para que o aumento acontecesse já em 2027 e que o Império Serrano já estava na elite no Carnaval. Cavaliere ainda disse que havia um acordo para que subissem três escolas também nos grupos de acesso. Os vídeos pegaram ligas e escolas de surpresa, já que o evento não havia sido combinado com elas.
Logo em sequência, o Mestre de Bateria da União da Ilha, Marcelo Santos, fez uma publicação emocionada em seu status do Whatsapp confirmando o acesso insulano. No mesmo sábado, em reunião com a Liga RJ realizada na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, o prefeito confirmou as informações divulgadas mais cedo e ainda disse que havia um acordo para que as obras de construção da Fábrica do Samba fossem aceleradas.

Cavaliere também anunciou que, junto aos barracões que estão sendo preparados para abrigar as escolas da Série Ouro, estará um nos moldes dos presentes na Cidade do Samba, resolvendo assim a falta de espaço na sede das escolas do Grupo Especial.
Mesmo com esses movimentos, o impasse interno na Liesa continuou. Capitão Guimarães, patrono da Unidos de Vila Isabel, e Anísio Abraão David, patrono da Beija-Flor de Nilópolis, se mostravam totalmente contrários à mudança. Em vídeo publicado em suas redes sociais na última segunda-feira (06/04), Guimarães externou sua opinião, criticando a então possibilidade e classificando-a como um ‘retrocesso’. Muito influente, a opinião dos dois mandatários deixou as escolas receosas e pôs em cheque o acordo feito entre Cavaliere e Gabriel.
PLENÁRIA CONFIRMOU O AUMENTO, MAS NÃO DE IMEDIATO
Cercada de expectativas, a plenária da Liesa nesta quinta-feira (09/04) era tratada como mera formalidade para sacramentar o acordo, Cavaliere estaria presente para apresentar a proposta e a imprensa foi chamada para a Cidade do Samba, com a promessa de escutar o aguardado anúncio. E ele veio, mas não da forma que se esperava.
Em um primeiro momento, Eduardo Cavaliere e Gabriel David apareceram para comunicar oficialmente que o acordo tinha sido selado com as escolas, mas que a subida não aconteceria já em 2027. Ficou combinado uma mudança gradual, respeitando regulamento, acordos já assinados e dando um prazo mais estendido para a organização econômica e estrutural necessária. Cavaliere foi embora e Gabriel voltou para a plenária.
Pouco tempo depois, o presidente da Liesa apareceu sozinho para falar como seriam as mudanças. Diferente do esperado, as escolas e a Liga decidiram seguir com o regulamento já assinado e manter apenas 12 escolas para o ano que vem, com uma sendo rebaixada. A novidade ficou por conta de quantas agremiações subiriam da Série Ouro, aumentando de uma para duas.
Esse modelo, que entra em vigor a partir do próximo carnaval, irá se repetir tanto em 2028, quanto em 2029. Portanto, o Grupo Especial contará com as tão faladas 15 escolas somente em 2030. O resultado representa uma grande derrota para Cavaliere, que fez do tema sua grande marca nos primeiros dias de mandato e sai sem conseguir confirmar a mudança já em 2027, como amplamente divulgado e prometido.
E COMO FICA A SÉRIE OURO?
Com a mudança confirmada para os próximos anos, a divisão de acesso do Carnaval carioca também vai sofrer com mudanças. A começar pela volta de Deo Pessoa no comando da Liga RJ. O ex-presidente da antiga Lierj, a responsável por tocar os desfiles do acesso antes da criação da atual organizadora, é uma figura bem-vista nos bastidores e tem bom diálogo com a alta cúpula da Liesa. A volta de Deo indica o afastamento do grupo liderado por Sandro Avellar, o que viabilizou o avanço de todos os acontecimentos citados nesta matéria.
Rebaixadas no último Carnaval, Inocentes de Belford Roxo e Unidos do Jacarezinho já teriam seus descensos cancelados independente do que ocorresse. Esse movimento resolve uma série de questões judiciais e blinda os bastidores da Série Ouro, já que as duas agremiações estudavam ir à justiça contra o resultado por questões distintas. O presidente da Caçulinha da Baixada, inclusive, ameaçou expor dirigentes e possíveis acordos ilegais. Outro movimento blindado era a volta da Acadêmicos de Santa Cruz, campeã da Série Prata deste ano.

Havia um acordo para que o acesso contasse com 16 escolas em 2027, como dito por Cavaliere na reunião com as agremiações do grupo no último sábado (04/04). Porém, existia um documento assinado para que esse número fosse de 14 agremiações, o que causava um impasse interno e fez com que alguns cenários fossem estudados, considerando a subida imediata de três escolas.
O primeiro deles, seria seguir com a assinatura, subindo assim a São Clemente, vice-campeã da Série Prata. A segunda possibilidade pensada foi a de manter o acordo firmado recentemente e desfilar com 16 escolas, subindo junto da São Clemente a Unidos de Vila Santa Tereza e a Acadêmicos do Cubango, respectivamente terceira e quarta colocadas na Série Prata.
Após a decisão tomada pela Liesa, as escolas decidiram em plenária seguir com o aumento de três escolas, confirmado em nota lançada pela Liga RJ no início da noite desta quinta-feira. A diferença ficou na forma como as vagas serão utilizadas, sendo duas para comportar Inocentes e Jacarezinho e a outra para subir a São Clemente. Sendo assim, a Série Ouro contará com 17 agremiações em 2027, duas a mais que no Carnaval deste ano.
