Dia do médico veterinário: o trabalho sobre cuidar de quem não fala

Foto capa: UNASP

Por Maria Luiza Marques e Maria Luiza Massa

Por trás de cada consulta e procedimento, existe um profissional que se dedica através de seu conhecimento e sensibilidade para cuidar de seres que, mesmo sem palavras, também sentem dor, medo e precisam de atenção. O romantismo de cuidar de animais é contestado quando diagnósticos, tratamentos e decisões podem definir a vida de um paciente. Sendo assim, é exigido um preparo para lidar diariamente com a responsabilidade de possíveis perdas.

A médica veterinária Maria Clara Massa, especialista na área ortopédica, chama atenção ao ser perguntada sobre o caso mais marcante da sua carreira.

‘’O caso da Julieta, uma cadela idosa, apresentava um sarcoma de tecidos moles bem pequeno mas que evoluiu para várias metástases ao longo do corpo, virando, infelizmente, um caso paliativo. Os tutores foram bem resilientes e ela também, mudando minhas perspectivas sobre a força dos animais, sobre o cuidado que nós devemos ter com eles, porque sem dúvidas eles retribuem com muito amor e gratidão.’’

Maria Clara Massa

O exemplo reforça que tratar bem um animal é também reconhecer suas necessidades e proporcionar a ele cuidado até o fim, enquanto evidencia a força do veterinário em acompanhar cada etapa do tratamento, mesmo quando a cura já não é possível.

Ao contrário do que pensam, a medicina veterinária reúne diferentes áreas de atuação, cada uma com desafios e responsabilidades próprias. As experiências de diferentes especialidades ajudam a mostrar a diversidade e a importância dessa profissão.

Como os animais não conseguem dizer quando sentem dor ou desconforto, alguns sinais podem acabar passando despercebidos. Em outro momento, a veterinária chama atenção para quais são os problemas mais comuns e como a demora em identificá-los pode afetar os animais.

‘’O que eu mais vejo são fraturas, luxação de patela, displasia coxofemoral e ruptura do ligamento cruzado cranial. O problema agrava-se com a demora dos tutores a notar desconfortos mais iniciais como poupar membros, resistência ao realizar alguma atividade física e ao não querer caminhar. Problemas esses que diagnosticados rapidamente podem retardar a progressão da osteoartrose, gerando menos dor e inflamação, evitando maiores malefícios.’’

Foto: Reprodução/claramassa.vet

Se na ortopedia o cuidado está voltado à mobilidade e à recuperação física, na nutrição a atenção se volta para outro aspecto essencial da saúde animal: a alimentação. É nesse campo que atua a médica veterinária Julia Pompeu, especialista em nutrição animal, que destaca a importância de uma alimentação adequada para a prevenção de doenças e para o bem estar dos animais. Esses cuidados, no entanto, começam dentro de casa.

‘’Acredito que os maiores erros dos tutores em relação à alimentação é o paciente comer os mesmos alimentos que os humanos, preparados da mesma forma. Já peguei muitos casos de intoxicação em animais que se alimentavam dos mesmos pratos dos tutores. Eu particularmente, sou muito a favor da alimentação natural, feita com ingredientes frescos e balanceados para os pets. Alguns estudos já apontam que a alimentação adequada, tende a aumentar a expectativa dos animais em 2 anos, além disso, um envelhecimento saudável é muito notório, tendo funções hepáticas, renais, cardiológicas e neurológicas, como exemplo, muito mais preservadas.’’

Observar o comportamento dos animais também faz parte dos cuidados. Mudanças na rotina ou atitudes que fogem do habitual podem ser os primeiros sinais de que algo não vai bem. A especialista explica quais sinais devem servir de alerta para os tutores: — Os sinais clínicos que demonstram isso são: coceira, lambedura excessiva, diarreia, vômito, queda de pelos e por fim, desnutrição ou obesidade.

Foto: Reprodução/ _caodefamilia

Mas não é só sobre animais. Cuidar dos animais também é cuidar das pessoas, dos alimentos que temos em casa e do ambiente em que vivemos. A medicina veterinária também ocupa espaço na saúde pública, na prevenção de zoonoses, na segurança dos alimentos, na vigilância sanitária, entre outros.

O trabalho destes profissionais alcança muito mais pessoas e animais do que se imagina. Envolve a prevenção, identificação e controle de riscos que podem afetar diferentes espécies e comunidades. Entre eles estão as zoonoses, doenças que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos, cujo monitoramento é fundamental para evitar que problemas relacionados à saúde animal se transformem em questões de saúde pública.

Essa atuação está ligada ao conceito de Saúde Única, que reconhece essa conexão entre saúde pública, saúde animal e meio ambiente. Por isso, é correto dizer que o equilíbrio entre esses três aspectos influencia diretamente a qualidade de vida de toda sociedade. A medicina veterinária ultrapassa os limites das clínicas, hospitais e propriedades rurais e ocupa um papel importante na proteção da saúde coletiva.

Além disso, quem cuida também sente, o contato constante com a doença e a morte pode tornar a profissão emocionalmente desafiadora. A perda de um paciente pode trazer frustração, ansiedade e impotência em casos de que, apesar dos esforços, o tratamento não é suficiente. Mesmo o veterinário(a) sendo tecnicamente preparado para momentos como esse, não significa que não sejam afetados por eles. Ao mesmo tempo, o profissional precisa estar ao lado do tutor, que também enfrenta o medo, a angústia e, muitas vezes, o luto. É uma posição que requer e exige um equilíbrio entre conhecimento técnico e sensibilidade, sem que uma coisa precise anular a outra. Sobre esse aspecto, a doutora Maria Clara relata:

— Passei pelo caso da Ganache, uma American Bully resgatada de canil, já adulta em que teoricamente seria operada uma piometra e durante a cirurgia não era esse o caso, e sim uma má formação provavelmente por suas várias gestações. Foi uma cirurgia muito difícil, demorou muitas horas, dei o meu melhor e mesmo assim achei que não seria o suficiente para salvá-la, mas foi. Ela evoluiu bem e eu acompanho até hoje, definitivamente me mostrou que eu era suficiente na minha profissão.

Eles não precisam deixar de sentir para atuar de maneira ética e responsável, ser profissional é encontrar maneiras de, por trás do jaleco, acolher, cuidar e seguir em frente, mesmo diante de situações que também o afetam.

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