Foto capa: La Biennale di Venezia
Por Júlia Cândido
A cerimônia de encerramento da 83ª edição do Festival de Veneza de 2026 ocorreu neste sábado (12), com a entrega dos principais prêmios da competição. Entre as produções vencedoras, o grande destaque do evento foi “Woman Unknown”, premiado pelo júri internacional com o Leão de Ouro, prêmio máximo do festival. Além disso, o longa também garantiu a Copa Volpi de Melhor Atriz para Mathilde Arcel.
“Woman Unknown”, dirigido pela cineasta dinamarquesa-egípcia May el-Toukhy, foi o único filme da competição principal dirigido exclusivamente por uma mulher. O documentário “NAZA”, por sua vez, foi codirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, sendo a única outra produção selecionada com uma mulher na direção.
A baixa representatividade feminina foi foco de debates desde o início do festival. Na abertura, Maggie Gyllenhaal, presidente do júri internacional, criticou a escassez de diretoras na competição e questionou os critérios utilizados para definir quais histórias chegam às principais mostras do cinema. “Quem decide o que é bom? Quem decide o que é valioso?”, perguntou a cineasta, que também apontou a existência de um problema sistêmico na escolha dos filmes.
Nesse contexto, a escolha de “Woman Unknown” para receber o Leão de Ouro ganha ainda mais peso. A presidente do júri, porém, rejeitou a interpretação de que a decisão teria sido influenciada pelo debate sobre a desigualdade de gênero e destacou, em vez disso, a excepcional precisão na realização do longa. Assim, com a vitória, May tornou-se a oitava cineasta mulher a conquistar o principal prêmio na história do Festival de Veneza. A última diretora a receber o troféu havia sido Audrey Diwan, em 2021, por “Happening”.
Terceiro longa-metragem de May el-Toukhy, “Woman Unknown” acompanha uma ex-empregada doméstica cujo segredo do passado ameaça seu novo noivado na Dinamarca pós-Segunda Guerra Mundial. A protagonista, interpretada por Arcel, precisa lidar com as consequências de uma relação mantida durante a ocupação alemã, enquanto tenta reconstruir a própria vida em uma sociedade marcada pelo julgamento moral.

Ao receber o prêmio na cerimônia de encerramento, May el-Toukhy afirmou que “Woman Unknown” aborda a forma como o corpo das mulheres é afetado por questões sociais e políticas, destacando também a dificuldade de as mulheres terem suas experiências reconhecidas. Dessa forma, a vitória do filme ganha relevância em uma edição marcada pela baixa presença feminina, especialmente por premiar uma obra centrada em temas como o silenciamento e o julgamento das mulheres.