Foto capa: Olhar digital
Por Nathalia Ribeiro
A data 27 de setembro marca o Dia Nacional da Doação de Órgãos no Brasil. Efeméride criada em 2007 a partir da Lei nº 11.584/2007 com o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a importância de ser um doador.
No Brasil, a doação de órgãos de pessoas falecidas só acontece com a autorização expressa da família. Ou seja, mesmo que a pessoa tenha registrado em vida o desejo de se tornar doador, a decisão final fica com seus parentes e cuidadores mais próximos.
A campanha tem por objetivo estimular a conversa entre familiares e amigos para que se torne mais fácil tomar a decisão de doar caso esse, eventualmente, se torne o caso.
Quem pode doar e quem pode receber
A doação pode ocorrer de 2 formas:
Doadores em vida, maiores de idade, juridicamente capazes e com plena saúde física podem doar parte dos rins, do fígado, da medula óssea, ou dos pulmões, de forma que a própria saúde do doador não seja prejudicada. Essas doações normalmente ocorrem entre parentes de até 4° grau ou, para não parentes, mediante autorização judicial.
Doadores já falecidos passam por uma série de exames que comprovam a morte encefálica. Então é possível coletar rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado, intestino, tecidos, córneas, válvulas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias.
Pessoas com doenças crônicas e agudas que não têm mais opções de tratamento viável podem se beneficiar da doação. Assim, um único doador pode ajudar a salvar até 8 vidas.
Além da doação de órgãos vitais, também é possível transformar a rotina e a qualidade de vida de diversas pessoas com o transplante de órgãos não essenciais para a vida. É o exemplo da transplantação de córneas que pode devolver a visão de algumas pessoas, ou até mesmo o enxerto de peles para vítimas de queimaduras profundas.
Como funciona a fila de transplantes
O Sistema Nacional de Transplantes, regido pelo Ministério da Saúde, é responsável por regulamentar, monitorar e conduzir todo o processo de doação e transplantes no país. O Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo, garantido para toda a população pelo SUS. Esse processo inclui, exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento médico e medicação pós transplante, de forma totalmente gratuita.
O Cadastro Técnico Único funciona como uma fila para os receptores. De acordo com o Ministério da Saúde, é uma lista unificada para todo o país, porém organizada por estados e regiões por motivos logísticos. Se não houver receptor disponível no estado em que aquele órgão foi recolhido, ele será direcionado para outras regiões mais distantes. Atualmente, o cadastro tem cerca de 50 mil pessoas aguardando transplante.
O SNT, portanto, organiza a distribuição dos órgãos de acordo com os critérios:
– Compatibilidade sanguínea e genética: para evitar rejeição é preciso garantir que o doador e o receptor tenham o mesmo tipo sanguíneo.
– Porte: a altura e peso do doador e receptor devem ser semelhantes para que os órgãos sejam compatíveis.
– Gravidade do caso: pacientes em estado crítico são prioridade na fila.
– Tempo de espera: pode se tornar um critério de desempate quando os outros pré requisitos são semelhantes.
Como os órgãos são recolhidos e transportados
Após a constatação da perda total e irreversível das funções cerebrais de acordo com diretrizes do Conselho Federal de Medicina – diagnosticada por 2 médicos que não fazem parte da equipe de transplantação – é preciso recolher a autorização da família do doador.
Depois, é feita a cirurgia de retirada de órgãos, dentro de um centro cirúrgico. Seguindo todos os procedimentos de uma cirurgia padrão, com uma equipe multidisciplinar e mantendo o corpo com aparência natural e preservada para eventuais cerimônias fúnebres.
Para a retirada, é preciso seguir uma ordem de acordo com a sensibilidade ao tempo de cada órgão. Assim que o corpo para a circulação normal, os órgãos começam um processo de deterioração causado pela falta de oxigenação.
É chamado de tempo de isquemia, o tempo limite para a coleta e transplantação de um órgão. Ou seja, o tempo em que aquele órgão pode ficar sem fluxo sanguíneo. Algumas partes do corpo como o coração tem apenas 4 horas para serem transplantados, outras como o fígado e o pâncreas tem até 12 horas.
Esse transporte de órgãos pode ser por meios terrestres ou aéreos, utilizando de ambulâncias e carros oficiais até mesmo aviões ou helicópteros dependendo da urgência da situação. Segundo a Confederação Nacional de Transportes, desde 2001 existe uma parceria entre o SUS e as companhias aéreas comerciais para estabelecer um fluxo de viagens que comporte as necessidades de transporte de órgãos do país. Quando não há voos comerciais com as rotas necessárias, a Força Aérea Brasileira entra em ação.
A restrição de tempo exige ação rápida e eficiente dos agentes de saúde, e por isso, é essencial ter uma política nacional tão séria e bem estabelecida.
É de extrema importância agir com rapidez e ampliar o debate sobre a doação para que não haja dúvidas no momento em que essa conversa se fizer necessária.
Porque se tornar um doador
Muitas vezes o transplante de órgãos é a única opção para pessoas com condições graves e urgentes.
De acordo com um relatório publicado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, em 2025 foram realizados 31 mil procedimentos de transplante de órgãos e tecidos no Brasil. Porém, ainda existe grande recusa por parte das famílias e esse é um dos maiores obstáculos para o sistema de transplantes. 45% das famílias ainda não autorizam a doação. Entre as razões para a recusa estão a dificuldade de compreender o diagnóstico de morte cerebral, questões religiosas e a desconfiança com o processo de transplantação.
Assim, o dia 27 de setembro se torna um convite à reflexão. É preciso estimular a conversa para ajudar a desmistificar e esclarecer a importância e a rigorosidade do sistema de transplante de órgãos no país.
A doação de órgãos é uma forma de transformar o luto em vida. Significa uma nova chance e uma oportunidade para aqueles que precisam recomeçar. A cada doador, diversos pacientes podem ter uma nova chance para viver.
