Dia Nacional da Luta contra a Violência à Mulher: como o best-seller “Bons Tempos” questiona a submissão feminina

Foto capa: “Bons Tempos”, publicado pela Editora Rocco – Créditos: Reprodução

Por Júlia Cândido

Celebrado no dia 10 de outubro, o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher reforça a importância de discutir as diferentes formas de violência enfrentadas pelas brasileiras, pois nem sempre o abuso começa com uma agressão física. Em muitos relacionamentos, ele aparece no controle das decisões e na ideia de que cabe ao homem exercer autoridade sobre a mulher. Essas questões estão no centro de “Bons Tempos” (Yesteryear), romance de Caro Claire Burke que ganhou reconhecimento internacional, foi publicado recentemente no Brasil pela Editora Rocco e terá uma adaptação cinematográfica produzida e estrelada por Anne Hathaway.

A data teve origem em uma mobilização realizada no Teatro Municipal de São Paulo, em 1980, quando um grupo de mulheres foi protestar contra o aumento dos crimes de gênero no país. Entretanto, mais de quatro décadas depois, a pauta permanece urgente. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025, 27% das brasileiras entrevistadas já haviam sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem. Esse número evidencia a dimensão do problema e a necessidade de reconhecer comportamentos abusivos que, muitas vezes, são tratados como questões de privacidade do casal.

Uma das obras literárias que dialogam com essa realidade é “Bons Tempos”, romance best-seller de Caro Claire Burke que questiona os ideais de família tradicional e as expectativas impostas às mulheres. A protagonista, Natalie, é uma influenciadora que constrói sua presença pública em torno da imagem de uma esposa dedicada e defensora de valores tradicionais. Sua vida parece seguir um modelo “ideal” de família, com uma rotina doméstica cuidadosamente planejada para as redes sociais, embora apresente contradições difíceis de ignorar.

Caro Claire Burke com seu livro “Yesteryear” (“Bons Tempos”, em português). Foto: ABC News

A história toma outro rumo quando Natalie se vê em uma realidade semelhante à de 1855. Longe das facilidades da vida contemporânea, ela precisa enfrentar situações severas no dia a dia e, consequentemente, percebe o quanto sua autonomia é limitada em uma sociedade na qual as mulheres têm poucas possibilidades de decidir sobre suas próprias vidas. Assim, a mudança de cenário expõe as estruturas falhas que sustentam o modelo de família que a protagonista costumava apresentar como ideal.

Dessa forma, ao abordar a violência dentro do casamento, o livro promove um debate sobre a expectativa de que a mulher aceite a autoridade do marido como parte de seu papel familiar. A submissão aparece como uma questão complexa quando deixa de ser uma decisão individual e passa a funcionar como uma obrigação sustentada por convenções sociais ou crenças religiosas. A narrativa, portanto, convida o leitor a refletir sobre como determinadas ideias acerca do comportamento feminino podem ser usadas para justificar relações desiguais.

A história de Natalie também levanta outro tópico importante: até que ponto os papéis tradicionais atribuídos às mulheres são fruto de uma escolha pessoal? Cuidar da casa ou dedicar-se à família não significa, por si só, abrir mão da autonomia, mas o problema começa quando essas funções são impostas e a mulher não tem liberdade para discordar do parceiro ou decidir os rumos da própria vida.

Paralelamente, a imagem de família “perfeita” que Natalie constrói nas redes sociais também ganha outro significado ao longo da trama. Por trás da rotina idealizada, o livro expõe as contradições de um padrão de referência que valoriza a dedicação feminina, mas pode deixar em segundo plano as necessidades e os desejos da própria mulher. Essa diferença entre a imagem pública e a realidade privada também convida o leitor a refletir sobre os conteúdos publicados nas redes sociais e os padrões de comportamento.

Com uma adaptação cinematográfica produzida e estrelada por Anne Hathaway a caminho, “Bons Tempos” amplia o debate sobre as expectativas impostas às mulheres e as consequências de relações marcadas pela desigualdade. A trajetória da protagonista mostra como ideias apresentadas como “naturais” podem ser questionadas quando entram em conflito com a liberdade individual. Assim, no Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, “Bons Tempos” ajuda a refletir sobre a importância de reconhecer relações abusivas e questionar comportamentos que levam ao controle dentro de casa.

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