Por Maria Luiza Massa
Para muitos torcedores, o apito final representa o fim de uma partida. Dentro de algumas casas, porém, ele pode marcar o início de uma noite de medo.
Um pevantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) identificou aumento de 28,8% nos registros de lesão corporal e de 27,4% nas ameaças contra mulheres em dias de jogos de futebol. Os dados, porém, não apontam as partidas como causa da violência. O estudo indica uma associação entre os dias de jogos e o crescimento dos registros, que pode estar relacionada a fatores como consumo de álcool, frustração com resultados e maior permanência dos homens em casa.
Realizado entre 2023 e 2025, o levantamento analisou registros policiais de cinco capitais brasileiras e identificou diferentes formas de violência contra mulheres. Na edição anterior da pesquisa, os aumentos registrados haviam sido de 23,7% para lesões corporais e 20,8% para ameaças, indicando uma elevação nos percentuais observados.
O jogo é a causa?
A relação identificada pelo estudo não significa que o futebol seja responsável pelos casos. Entre os fatores apontados pelas pesquisadoras estão a frustração com o resultado da partida, a exaltação dos ânimos e o consumo de álcool. A possibilidade de influência das apostas esportivas também aparece como uma hipótese, mas ainda não como uma relação comprovada.
O consumo de álcool pode contribuir para o aumento da tensão em dias de jogos ao reduzir a capacidade de controle e intensificar emoções como raiva e frustração. As apostas esportivas também entram nesse contexto como uma possível fonte adicional de estresse, especialmente diante de perdas financeiras ou expectativas frustradas com o resultado da partida.
Segundo o levantamento, os casos ocorreram dentro da residência, mostrando que a violência está inserida principalmente nas relações privadas. Dessa forma, o dia de jogo pode funcionar como um momento de intensificação de conflitos, mas a violência doméstica não começa nem termina com a partida. O comportamento do agressor e a dinâmica da relação são fatores que antecedem a esfera esportiva.
O recorte das vítimas também revela diferenças importantes. Mulheres de 15 a 29 anos representam 44,4% dos registros analisados, grupo que aparece de forma significativa nos dados.
E o futebol, pode fazer alguma coisa?
Clubes, jogadores, torcidas e entidades esportivas alcançam milhões de pessoas e podem transformar dias de jogos em oportunidades para campanhas de conscientização e incentivo à denúncia.
Além disso, a participação dos próprios atletas também pode contribuir para ampliar essa discussão. Mais do que divulgar campanhas pontuais, jogadores e clubes podem ajudar a questionar comportamentos violentos e modelos de masculinidade que associam força, controle e agressividade.
Em entrevista ao perfil historiadora do futebol, no Instagram, Bruna Barenco também destacou o potencial do esporte como espaço de conscientização.
“Esse ano, o Bahia fez uma campanha bem legal contra a violência contra mulheres, que incluiu realizou a ação-manifesto ‘Terceiro Tempo’ em parceria com a ONU e a Propeg na Arena Fonte Nova. Os clubes têm o papel social de reforçar campanhas contra a violência contra a mulher, incentivando a denúncia.” Afirma a influenciadora digital.
O futebol pode reunir paixão, rivalidade e fortes emoções, mas nenhuma dessas características justifica uma agressão. O jogo pode funcionar como um contexto de tensão ou até como um pretexto utilizado pelo agressor, mas não cria a violência nem retira de quem agride a responsabilidade pelo ato. Olhar para o problema dessa forma é fundamental para que a discussão não termine no apito final.
Em caso de violência contra a mulher, o Ligue 180 oferece orientação e atendimento. Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.
