Dia do Consumo Consciente: como a geração Z está mudando, aos poucos, a maneira como se consome moda nas redes sociais  

foto capa Reprodução/Pinterest 

Por: Rafaella Gama

Todo dia 15 de outubro, o Brasil celebra o Dia do Consumo Consciente, data criada em 2009 pelo Ministério do Meio Ambiente para provocar uma reflexão sobre os hábitos de compra da população e seus efeitos na sociedade e no planeta. A data surgiu da importância de educar crianças, jovens e adultos sobre as consequências sociais e ambientais de cada compra e a necessidade de fazer escolhas mais responsáveis. Para a geração Z, que cresceu com o celular na mão e transformou a internet em um verdadeiro shopping, o tema é ainda mais relevante: segundo uma pesquisa da Temenos com brasileiros, 63,5% da geração Z (de 18 a 24 anos, no recorte do estudo) admitem fazer uma compra por impulso pelo menos uma vez por mês, contra 47,4% das pessoas com 25 anos ou mais. 

Parte da explicação para esse comportamento está na forma como a internet foi desenhada. O que move a vontade de comprar nem sempre é o produto em si, mas a expectativa de tê-lo: a dopamina, popularmente chamada de “hormônio do prazer”, está mais ligada à antecipação e à vontade do que à recompensa propriamente dita. Basta navegar, escolher e colocar um item no carrinho para que os circuitos do desejo sejam ativados. No entanto, os sites de compras não são o único ambiente em que esse ciclo de recompensa ganha força: as redes sociais, com destaque para o TikTok e o Instagram, tornaram-se a principal porta de entrada para novos produtos. Em um ambiente de rolagem infinita, no qual cada postagem apresenta uma nova tendência e cada compra está a um clique de distância, essa lógica se repete o dia inteiro. Nesse cenário, os influenciadores, figuras centrais da vitrine digital, exibem diariamente o “novo produto sem o qual você não pode viver”, os “looks do dia” e as indicações com cupons de desconto. Ao aproximarem o produto de um rosto familiar, transformam o desejo em uma recomendação feita por alguém em quem o público confia, o que encurta ainda mais o caminho entre ver, querer e comprar. 

Porém, nos últimos anos, parece estar surgindo um movimento que busca desmistificar o consumo desenfreado: o Brasil soma cerca de 118 mil brechós ativos, segundo o Sebrae, e quase 7 mil lojas voltadas ao mercado de segunda mão foram abertas no país desde 2021. Um estudo do BCG ainda projeta que o mercado de moda circular brasileiro cresça entre 15% e 20% ao ano até 2030. A geração Z está entre as principais impulsionadoras dessa onda: a Enjoei, plataforma on-line de moda circular, afirma que esse público continua sendo o principal consumidor do site, e uma pesquisa da OLX aponta que 80% dos jovens da geração Z já compraram produtos usados. 

Em algum momento, comprar roupas em brechós virou algo “cool” entre os jovens. Durante muito tempo, o mercado de segunda mão parecia dividido entre dois extremos: de um lado, os brechós de luxo, que vendem apenas peças de grife; de outro, os brechós beneficentes, ligados a doações e ações solidárias. Aos poucos, esse espaço se abriu para quem busca algo diferente, com personalidade e preço mais justo, e o que começou como um gesto inofensivo acabou servindo de base para um movimento que questiona o papel dos influenciadores como catalisadores do consumo. 

Muitos influenciadores passaram a adaptar o conteúdo que publicam, e não necessariamente por bondade, mas porque parte do público parece não aguentar mais o discurso do “mais um produto inovador que você precisa ter”. O ponto não é demonizar as compras, mas defender que a moda vai muito além desse discurso raso. É exatamente com essa proposta que influenciadoras como Laura Hoff têm conquistado espaço nas redes sociais. Laura estudou moda no Istituto Marangoni, em Paris, e, mesmo com uma formação em um setor movido por coleções e lançamentos, usa sua plataforma para mostrar que é possível renovar um look sem comprar nada novo. Em seus vídeos de get ready with me, ela conta a história da moda enquanto transforma peças que já tem e muda a maneira de usá-las: a saia vira top, o vestido ganha novos recortes com a ajuda de alfinetes e até a combinação de vestido com calça entra na lista de possibilidades. 

No fim das contas, o problema nunca esteve em assistir a vídeos de comprinhas ou em, de vez em quando, se render às microtendências. São práticas que, querendo ou não, se tornaram comuns graças ao avanço das redes sociais e das comunidades presentes nelas. A questão principal é saber separar o que é realmente necessário daquilo que é apenas um impulso do momento. É nesse ponto que o público, especialmente a geração Z, parece estar mais atento: o consumo deixa de ser automático e passa a vir acompanhado de perguntas sobre a necessidade da peça, sua origem e a quantidade de vezes que será usada. Quando quem tem grande alcance incorpora essas perguntas ao próprio conteúdo, o debate chega a muito mais gente do que chegaria por conta própria. 

A importância desse movimento vai muito além da estética. Muita gente que compra em brechós talvez nem tenha noção dos benefícios da moda circular para a sociedade, seja ao dar uma nova vida a peças que seriam descartadas, ao customizar o que já existe no armário ou ao produzir as próprias roupas. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o setor da moda e dos têxteis é responsável por 2% a 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, de acordo com a Global Fashion Agenda, são produzidas 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano no mundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de roupas incinerado ou enviado a aterros a cada segundo. Por isso, no Dia do Consumo Consciente, vale lembrar que consumir com consciência não significa deixar de comprar, mas comprar sabendo o porquê e considerando o ciclo completo de um produto, da extração dos recursos ao descarte. 

Afinal, moda é política, e isso não é de hoje. Reduzir uma parte tão importante da sociedade a um simples meio de consumo desenfreado não faz justiça à história que ela carrega. Parafraseando a mãe das patricinhas conscientes, Laura Hoff: “os deuses da moda” não ficariam nada satisfeitos com isso.

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