Foto Capa: divulgação/Carta Capital
Por Maria Luiza Massa
A política vai muito além das eleições e das disputas entre partidos. Ela está presente nos preços ao redor, nos direitos garantidos, no acesso à saúde e à educação, na preservação do meio ambiente, nas roupas que as pessoas vestem, na música que ouvem e nos filmes que assistem. Essas questões são influenciadas por decisões políticas que afetam diretamente a vida cotidiana. Por isso, mesmo aqueles que não acompanham o noticiário político estão sujeitos às consequências dessas escolhas.
Após o primeiro turno das eleições de 2026, o uso das redes sociais passou a ser apontado como um dos desafios da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, defendeu a ampliação da presença digital do presidente para alcançar públicos que ainda não haviam sido mobilizados. A discussão ocorre em meio à atuação da direita nas plataformas digitais, que já vinha investindo em estratégias de engajamento e na divulgação de conteúdos políticos. O cenário evidencia a importância das redes como espaço de disputa pela atenção dos eleitores, embora o alcance e a interação nas plataformas não sejam, isoladamente, suficientes para explicar o resultado das urnas.
Nesse contexto, a neutralidade também merece reflexão, uma vez que, embora a ausência de posicionamento seja um direito individual, a falta de participação no debate público pode contribuir para a manutenção das estruturas existentes. Isso demonstra que reconhecer a dimensão política da vida cotidiana é fundamental para compreender o funcionamento da sociedade.
A influência das figuras públicas nesse debate está relacionada, em parte, à relação que constroem com seus seguidores. Artistas e influenciadores compartilham momentos da vida pessoal, opiniões e experiências, o que pode criar uma sensação de proximidade com o público. Quando abordam temas políticos, essas personalidades aproximam as discussões de espaços que nem sempre são alcançados pelos discursos formais.
Em 2024, Taylor Swift tornou público seu apoio a Kamala Harris na disputa pela Presidência dos Estados Unidos e aproveitou a publicação para orientar seus fãs a buscarem informações sobre o alistamento eleitoral. Após a manifestação, o portal oficial Vote.gov registrou 405.999 acessos provenientes do link divulgado pela cantora nas 24 horas seguintes. O caso evidencia o alcance que figuras públicas podem ter ao estimular o interesse pela participação política.

A relação entre cultura e política, contudo, não surgiu com as redes sociais. Em 1983 e 1984, durante o movimento Diretas Já, artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil, Fafá de Belém e Milton Nascimento participaram de manifestações e comícios em defesa do direito de a população eleger diretamente o presidente da República. A música também teve papel marcante naquele período, e a presença dos artistas ajudou a aproximar a pauta política de milhares de pessoas.
Nesse sentido, o primeiro turno das eleições de 2026 registrou 33,4 milhões de eleitores ausentes, o equivalente a 21,08% do eleitorado, segundo o TSE. Esse foi o maior índice de abstenção em um primeiro turno de eleição geral desde 1998, quando a taxa chegou a 21,49%. O resultado reforça o debate sobre a participação política no país e a necessidade de ampliar o engajamento da população na vida democrática. Nesse cenário, o papel das figuras públicas volta ao centro das discussões, especialmente diante da cobrança por posicionamentos de artistas com grande alcance nas redes sociais.
No segundo turno, nomes como Anitta, Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Chico Buarque declararam apoio a Lula. Flávio Bolsonaro, por sua vez, recebeu menos manifestações públicas de artistas, entre eles o cantor Zezé Di Camargo e a cantora Ana Castela.
Além disso, o ator José de Abreu chegou a cobrar publicamente que colegas, como Selton Mello, se posicionassem naquele momento decisivo.
A presença de artistas no debate político pode, assim, funcionar como uma porta de entrada para temas que afetam a vida coletiva. Essas personalidades ajudam a ampliar a circulação de pautas e a mobilizar comunidades. Isso não significa, porém, que tenham o poder de determinar as escolhas dos eleitores, mas que podem contribuir para uma maior difusão de informações.
A influência de uma personalidade, entretanto, não deve substituir a análise individual do eleitor. A identificação com um cantor, ator ou influenciador não significa que suas posições políticas devam ser aceitas sem questionamento. Cabe aos eleitores comparar propostas, consultar diferentes fontes e avaliar os candidatos com base em seus históricos e compromissos. Dessa forma, a participação de figuras públicas pode contribuir para ampliar o debate, sem retirar dos cidadãos a responsabilidade de construir as próprias decisões.
