Academia LED na UniFacha: Os bastidores da cobertura esportiva multiplataforma

Foto capa: Mariana Silvestre

Por Natália Magnani

Em uma imersão completa sobre a rotina, os bastidores e os desafios das grandes coberturas esportivas globais, os jornalistas e comunicadores da Globo compartilharam suas experiências durante uma palestra promovida pela Academia LED, realizada no auditório da UniFacha. O encontro reuniu profissionais de destaque na cobertura do Grupo Globo: Carlos Gil (repórter da Globo), Duda Dalponte (repórter da Globo), Mariana Fontes (apresentadora do SporTV) e Cauê Dias (gerente de redação de Esporte da Globo), que atuou como mediador da palestra. Os participantes discutiram a dinâmica da cobertura de grandes eventos, desde a época em que a tecnologia era limitada nas Copas do Mundo até a era atual do consumo de conteúdo em tempo real e das redes sociais.

Cauê Dias, Duda Dalponte, Mariana Fontes e Carlos Gil. Foto: Natália Magnani

Cobrir um evento como a Copa do Mundo vai muito além dos 90 minutos em campo. Como destacaram os palestrantes, a cobertura começa semanas antes do apito inicial e envolve meses de preparação, logística e apuração aprofundada.

No trabalho de transmissão, a rotina do repórter de campo exige um equilíbrio constante entre o estudo de dados estatísticos e a sensibilidade diante dos acontecimentos ao vivo. Para isso, são necessárias pesquisas minuciosas, que abrangem desde estatísticas de confrontos e marcas históricas até informações colhidas no dia a dia dos treinos. Contudo, na hora do jogo, o repórter precisa saber o momento certo de intervir: o narrador é quem comanda e distribui o jogo, enquanto os repórteres atuam como peças estratégicas ao longo do campo, acrescentando informações relevantes sem interromper a narrativa.

“A gente estuda, acompanha os treinos, faz anotações… Mas o repórter precisa ter a sensibilidade do timing. O narrador é quem comanda e distribui a bola, e nós estamos ali para colaborar nos momentos certos da transmissão”, conta Carlos Gil.

Além das transmissões na TV aberta e no SporTV, um dos maiores desafios atuais é atender à demanda do ecossistema multiplataforma. Enquanto a TV Globo busca falar com o público mais amplo e diverso possível, o SporTV direciona seu conteúdo ao torcedor “superfã”, aquele que deseja análises táticas e detalhes minuciosos. Paralelamente, o ge.globo e as redes sociais exigem conteúdos rápidos, bem-humorados e focados no aspecto humano dos atletas e da torcida.

Redes sociais, improviso e o fenômeno dos bastidores

Um dos pontos altos da conversa foi a discussão sobre como a tecnologia e a ampliação das zonas mistas criaram novas oportunidades de linguagem. Hoje, a presença do público e a força das redes sociais transformaram os bastidores em conteúdo principal.

Exemplos marcantes apresentados pelos palestrantes ilustram essa mudança. Momentos descontraídos no desembarque de delegações, reações de atletas na saída dos estádios e interações espontâneas da torcida, por exemplo, ganham milhões de visualizações e, muitas vezes, repercutem mais do que análises técnicas. Também vale destacar a comunicação direta: nas coberturas internacionais, a exigência de produzir conteúdo para o ambiente digital com apenas um celular nas mãos aproxima o público da realidade do evento. A espontaneidade e a capacidade de reagir ao imprevisto tornaram-se habilidades indispensáveis para o jornalista moderno.

Cauê Dias e Duda Dalponte. Foto: Mariana Silvestre

A evolução tecnológica do jornalismo esportivo

A comparação entre as coberturas passadas e as atuais expõe o salto tecnológico vivido pela imprensa nas últimas décadas. Nas Copas anteriores, a cobertura dependia de processos lentos, como o envio de arquivos via FTP ou por links dedicados, além da necessidade de manter ilhas de edição locais em funcionamento para produzir matérias gravadas, voltadas à programação linear da televisão.

Já nas coberturas atuais, o cenário é dominado por transmissões ao vivo por meio de conexões celulares, com equipamentos LiveU, conhecidos como “mochilinhas”, e pela transmissão em alta definição diretamente de smartphones. A distribuição do conteúdo ocorre simultaneamente para a TV, o streaming, os portais e as redes digitais, exigindo do repórter uma rotina constante de entradas ao vivo e produção de conteúdo multiplataforma. Essa evolução permite maior agilidade e qualidade técnica de qualquer lugar do mundo, mas também exige do profissional muito mais versatilidade.

A importância da bagagem teórica e da escuta no jornalismo

Apesar do fascínio pela tecnologia e pela rapidez das redes sociais, os palestrantes deixaram um conselho fundamental para os futuros comunicadores: a prática técnica não substitui a bagagem teórica nem o interesse genuíno pelo outro.

Em uma era dominada pela busca por engajamento individual, marcada pelo chamado “jornalismo do eu”, foi ressaltada a urgência de resgatar a essência da comunicação social: ouvir. A curiosidade, o hábito da leitura, o estudo contínuo e a capacidade de escutar atentamente entrevistados e torcedores são os verdadeiros pilares de uma grande reportagem. O jornalista não é a notícia; ele é a ponte entre o fato e o espectador.

Carlos Gil e Mariana Fontes. Foto: Mariana Silvestre

Pluralidade e representatividade no esporte

Os profissionais também abordaram o avanço da diversidade nas redações e nas transmissões esportivas. A maior presença de mulheres na reportagem, na apresentação, na narração e nas áreas técnicas, como a videografia e a cinematografia, foi destacada como uma conquista essencial, capaz de enriquecer a narrativa jornalística.

“Trazer novas vozes e olhares plurais para a linha de frente e para os bastidores é um caminho sem volta para oxigenar o esporte e construir uma conexão muito mais verdadeira com o nosso público.”

“É importante que essas pessoas se sintam representadas… É uma atividade que a gente tem que continuar fazendo. Não é porque a gente conquistou o nosso lugar, os nossos direitos, que eles estão estabelecidos. A gente tem que continuar conquistando e ocupando esses lugares”, diz Duda Dalponte.

Tratar o esporte sob múltiplos olhares, respeitando a pluralidade de gênero, raça e origens, não apenas reflete melhor a sociedade brasileira, mas também prepara o terreno para os próximos grandes eventos, como a Copa do Mundo Feminina e os futuros ciclos olímpicos.

Plateia durante a palestra da Academia LED. Foto: Mariana Silvestre

Ao encerrar a apresentação no auditório da UniFacha, os palestrantes deixaram uma mensagem clara aos estudantes e jovens profissionais: aproveitem o ambiente acadêmico para errar, testar linguagens e construir repertório. O mercado de trabalho busca profissionais apaixonados pelo que fazem, dispostos a aprender continuamente e conscientes de que a boa comunicação é, acima de tudo, um ato de sensibilidade e conexão humana.

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