Dia do Flamenguista: a presença feminina nas arquibancadas rubro-negras

Foto capa: Divulgação/Garotas da Nação

Por Maria Luiza Massa

Celebrado em 28 de outubro, o Dia do Flamenguista foi oficializado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2007 e passou a integrar o calendário oficial da cidade. A data coincide com o dia de São Judas Tadeu, padroeiro do clube rubro-negro, conhecido como o santo das causas impossíveis. Essa ligação começou nos anos 1950, quando uma missa foi celebrada na Gávea, com a presença do time, na tentativa de afastar a má fase do clube. Após a dedicação de uma vela a São Judas Tadeu, o Flamengo conquistou o tricampeonato carioca de 1953, 1954 e 1955, feito que passou a ser associado pelos torcedores à graça alcançada por intercessão do santo.

A devoção ao padroeiro atravessa gerações de rubro-negros e faz parte da história de diversos torcedores. Essa paixão pelo clube também se manifesta nas arquibancadas, por meio dos gritos de gol e dos mosaicos organizados pela torcida, que demonstram o amor e a lealdade dos torcedores ao Flamengo.

Foto: Divulgação/Unicap

Nesse sentido, a palavra “torcedora” carrega uma história frequentemente associada à presença feminina nas arquibancadas brasileiras. No início do século XX, mulheres que acompanhavam partidas de futebol teriam popularizado o termo ao torcer lenços e luvas durante os momentos de tensão dos jogos. No entanto, apesar da participação feminina na cultura do futebol, o interesse das mulheres por um ambiente majoritariamente ocupado por homens ainda gera dúvidas sobre sua legitimidade.

Nesse contexto, mesmo quando uma mulher acompanha seu time e conhece toda a sua história, ela ainda pode ter menos credibilidade do que um homem ao expressar sua opinião sobre o assunto. Isso ocorre porque se criou uma apropriação simbólica desse espaço. Além disso, no meio futebolístico, o interesse feminino é frequentemente associado à influência de um namorado, pai ou amigo, e não a uma paixão ou vontade própria. Com isso, um ambiente de troca mútua de sentimentos nem sempre é receptivo às mulheres.

Movidos por uma mesma paixão, grupos de torcedores começaram a se organizar coletivamente na década de 1930 e instituíram o uso de uniformes, faixas e instrumentos musicais nas arquibancadas. Uma das primeiras torcidas organizadas do Flamengo foi a Charanga Rubro-Negra, fundada em 1942 por Jaime de Carvalho. Antes disso, em 1928, mulheres já se organizavam por meio da Phalange Feminina, grupo do qual Lydia Von Ihering foi uma das fundadoras. A iniciativa evidencia que a presença feminina na trajetória rubro-negra antecede em décadas o debate sobre pertencimento.

Décadas depois, iniciativas como a Nação Empoderada, criada em 2018, voltaram a reunir rubro-negras em torno do objetivo de conquistar espaço e combater o machismo. Atualmente, além da Nação Empoderada, existem grupos como o Pelotão Feminino da Torcida Jovem Fla, o Feminino da Raça Rubro-Negra e o Garotas da Nação.

Foto: Divulgação/Garotas da Nação

Em entrevista, Glaucia Silva, integrante da torcida Garotas da Nação, explicou como foi sua experiência inicial como mulher frequentando as arquibancadas.

“As pessoas geralmente reagem com espanto ou surpresa ao fato de eu ser mulher e gostar tanto de futebol e frequentar estádios. Infelizmente, sinto que ainda não tenho a mesma liberdade que um homem tem, mas, com toda a certeza, já é algo bem mais fácil nos dias atuais”, relata Glaucia.

A experiência da torcedora também ajuda a compreender a proposta do Garotas da Nação. O projeto reúne mulheres rubro-negras que, quando não têm companhia para frequentar o Maracanã, recorrem a um grupo no WhatsApp para combinar encontros e torcer juntas nas arquibancadas.

Apesar dos avanços na participação feminina nas arquibancadas, ainda há desafios para que as mulheres sejam reconhecidas em igualdade de condições com os homens. Os questionamentos sobre seus conhecimentos de futebol, o estranhamento diante de sua paixão pelo esporte e a necessidade de buscar companhia para frequentar os estádios mostram que a ocupação desse espaço ainda enfrenta obstáculos.

Afinal, o amor por um clube não depende do gênero de quem torce. Ao acompanhar uma partida no Maracanã, o sentimento pelo Flamengo não é definido pelo fato de ser vivido por um homem ou por uma mulher. Na realidade, ele é apenas o reflexo da pluralidade da maior torcida do Brasil.

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