Foto Capa: reprodução/Pinterest
Por Rafaella Gama
No dia 29 de outubro, é comemorado o Dia Nacional do Livro. Data de postar foto de livro na estante, marcar o clube de leitura, compartilhar a meta de leituras do ano e declarar amor eterno à literatura. Mas, no meio de tanta celebração, vale uma pergunta meio desconfortável: será que se está mesmo comemorando a leitura, ou só a performance de ler?
É nítido como a leitura cresceu entre os jovens nos últimos anos. Graças a comunidades literárias como o BookTok (book, livro, + TikTok), comentar sobre livros virou algo extremamente comum nas redes sociais. Maratonas de leitura, clubes do livro, fã-clubes dedicados a personagens… A internet mudou completamente a forma como a sociedade enxerga o hábito da leitura, principalmente os jovens. Em teoria, essas mudanças seriam para melhor: mais gente lendo, qual poderia ser o problema nisso? Bom, realmente tem mais gente lendo, mas será que todas as pessoas estão, de fato, lendo? Ou só gostam de falar que sim para conseguir um tipo de validação, ou até mesmo engajamento?
Existe um motivo pelo qual cada vez mais pessoas se propõem a fazer coisas em nome da performance, e ele é mostrado no livro Sociedade do Cansaço, escrito pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. A obra fala sobre como a sociedade se acostumou a viver num modelo baseado em desempenho e como os indivíduos são incentivados a todo momento a produzir cada vez mais, sem um limite estabelecido de quando devem parar. Não porque tem alguém obrigando, mas porque eles mesmos se obrigam. Han também fala sobre o chamado “excesso de positividade”, a doença da sociedade contemporânea que não é causada pela repressão, e sim pelo excesso de estímulos e de possibilidades. Então, não importa qual seja a área em discussão, é preciso sempre ser o melhor nela. E não basta apenas ser o melhor: é preciso gravar e postar para que todos vejam isso também.
Com a leitura, não é diferente. Ler deixou de ser apenas uma atividade casual e se tornou um dos principais elementos da cultura da performance excessiva, e é nesse ponto que a linha entre ler de verdade e ler por desempenho começa a ficar tênue. Em 2024, uma influenciadora viralizou ao relatar que fazia uso da “leitura dinâmica”, uma técnica de ler apenas as partes mais “importantes” da obra, que a fez terminar três livros em apenas um dia. Mais recentemente, na Bienal de São Paulo de 2026, dois acontecimentos chamaram a atenção do público: ao serem desafiados por um influenciador a citarem dois autores negros, nenhuma das seis pessoas entrevistadas conseguiu responder. Em outro vídeo, uma menina diz que o livro que menos gostou de ler foi “O Diário de Anne Frank”, pois Anne se “vitimizava demais”. Esses acontecimentos não são isolados: eles ilustram perfeitamente como a essência da leitura (desenvolver pensamento crítico, ler para adquirir conhecimento, genuinamente aproveitar a obra) está se perdendo.
O mais traiçoeiro do modelo apontado por Han é que ele não parece tão nocivo quanto realmente é. A pessoa que lê três livros por dia nunca vai achar que é a vítima da situação, pelo contrário! Ela vai se sentir a pessoa mais inteligente e disciplinada do mundo, justamente por conseguir fazer algo que a maioria não consegue. E como ler é sempre visto como algo positivo, nunca como excesso, ela vai ser aplaudida e recompensada por isso. A sociedade está tão cega pela lógica da performance que nem percebe quando ela satura até as coisas mais simples, como sentar e ler um livro.
E essa competição de performance acontece, principalmente, dentro das comunidades literárias. A internet, assim como os estúdios de cinema algumas décadas atrás, percebeu que, quando usada da forma certa, a leitura pode ser algo muito rentável. Influenciadores literários costumam ser remunerados por livro divulgado, o que cria um incentivo direto para produzir cada vez mais conteúdo sobre leitura, não necessariamente para ler mais, mas para parecer que lê mais. É nesse contexto que a leitura acelerada frequentemente aparece embalada no vocabulário do wellness, vendida como uma forma de ser uma pessoa mais culta e evoluída espiritualmente: ler três livros em um dia, dizem, seria prova de disciplina e cuidado consigo mesmo. Só que essa lógica é contraditória por definição. Não é possível, genuinamente, ler e assimilar o conteúdo de três, quatro livros em vinte e quatro horas. O que se compra ali não é conhecimento, é a cultura da performance em seu mais puro estado: a aparência de produtividade disfarçada de autocuidado.
Dois anos depois de toda a polêmica envolvendo a tal da “leitura dinâmica”, a influenciadora que viralizou na época veio a público dizer que se arrepende amargamente de ter feito e de ter incentivado pessoas a fazerem o mesmo. Um detalhe curioso da retratação: ela contou que começou a fazer a leitura dinâmica porque já tinha perdido o gosto pela leitura e não enxergava como isso poderia ser errado. Não foi a prática acelerada que apagou a sua paixão pelos livros, mas sim ter cedido a uma lógica que transformou a leitura em um trabalho antes de qualquer técnica entrar em cena. A realidade é que boa parte das pessoas também já foi, em algum grau, contaminada por essa lógica do desempenho. Talvez o primeiro passo seja se perguntar, com honestidade, se ainda se gosta de ler, ou se, em algum momento, também se parou de gostar e só se segue a grande massa, postando cada vez mais resenhas sem alma e sem cor, apenas seguindo um roteiro pré-existente. Afinal, ler é político, é resistência e pertencimento. Ler mais nunca será o problema; pelo contrário, pode ser a grande solução para muitas questões da sociedade. O problema é tratar a leitura como apenas uma trend do TikTok e não reconhecer o real impacto que palavras num papel podem ter na vida das pessoas.
Então, neste Dia Nacional do Livro, que se comemore do jeito mais simples e mais difícil: lendo. Sem meta, sem foto, sem resenha, sem ninguém para aplaudir. Só a pessoa, uma história e o tempo que ela merece. Porque, no fim das contas, um livro não precisa de plateia para continuar sendo importante.
