Além das Quatro Linhas: Documentário “6 Escudos” resgata a memória e a paixão pelos clubes tradicionais do Rio

Foto capa: Mariana Silvestre

Por Camilly Ayres

O futebol carioca vai muito além do Maracanã lotado e da polarização midiática em torno dos quatro grandes clubes da capital. É com essa premissa que nasce o documentário “6 Escudos”, uma produção idealizada por Carlos Junior e Robbie Blakeley. O projeto audiovisual busca resgatar a história, a tradição e a resistência de seis equipes que moldaram o esporte no estado, mas que acabaram perdendo espaço e visibilidade ao longo dos anos: América, Bangu, Bonsucesso, Campo Grande, Olaria e São Cristóvão.

Entrevista com Carlos Junior e Robbie Blakeley. Foto: Mariana Silvestre

Mais do que relembrar taças e glórias do passado, a obra foca no elemento que mantém esses clubes vivos: o torcedor raiz. Em entrevista ao Em Todo Lugar, durante a estreia do documentário, os diretores detalharam os bastidores da produção e destacaram que o objetivo central foi dar voz a essas instituições e homenagear aqueles que formam a verdadeira alma dos clubes.

“Não é só relembrar os momentos, mas homenagear as pessoas por trás desses clubes, principalmente os torcedores, que são a alma do clube”, ressaltou Robbie Blakeley.

Durante a exibição, o documentário revisita marcos históricos que, por vezes, desaparecem do imaginário popular das gerações mais jovens. Entre eles, estão o São Cristóvão, bicampeão carioca (1926 e 1937); o Olaria, campeão da Taça de Bronze; o Campo Grande, que conquistou a Taça de Prata em 1982; e o Bangu, vice-campeão brasileiro em 1985, além da rica trajetória do América.

No entanto, o projeto não se furta a debater as dificuldades estruturais enfrentadas por essas equipes. A falta de apoio financeiro robusto e de investimentos direcionados por parte das federações cria barreiras severas para a manutenção de equipes profissionais competitivas nas divisões inferiores do campeonato estadual. Para os diretores, o documentário também funciona como um alerta: esses clubes são patrimônios culturais do Rio de Janeiro e precisam de um olhar mais atento para não sucumbirem ao completo esquecimento.

Entrevista com o ex-jogador Jorge Sena. Foto: Mariana Silvestre

A importância desse resgate histórico é reforçada por quem sentiu na pele o peso de vestir essas camisas. Jorge Sena, atacante e destaque do São Cristóvão nos anos 1970, celebrou a iniciativa da produção ao relembrar os momentos marcantes de sua carreira:

“Tem uma importância muito grande, um documentário maravilhoso. Eu joguei em 75 pelo São Cristóvão, onde fui o terceiro artilheiro do futebol carioca. Vencemos o Flamengo por 3 a 2, contra o Zico. Eles mostraram o que está faltando hoje no futebol brasileiro e no futebol carioca: é preciso ir a fundo nos times pequenos para buscar grandes craques do futebol brasileiro.”

Depoimentos como esse, somados à paixão inabalável dos torcedores que continuam frequentando os estádios de bairro, provam que o afeto pelo futebol autêntico sobrevive à falta de holofotes.

Camisa histórica do time do Campo Grande. Foto: Mariana Silvestre

“6 Escudos” surge, portanto, como um convite imperdível para a comunidade universitária e para os amantes do esporte: olhar para as raízes da nossa cultura esportiva, redescobrir os estádios de bairro e entender que a verdadeira paixão pelo futebol não depende de divisões ou cifrões, mas da lealdade de quem nunca abandonou o seu escudo.

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