Dia do Saci: o folclore brasileiro e o risco do esquecimento

Foto Capa: Divulgação/Nei Alberto Pies

A palavra “folclore” surgiu em 1846, quando um escritor britânico uniu dois termos ingleses, folk (povo) e lore (saber), para dar nome ao “saber do povo”. No Brasil, o conceito abrange lendas, músicas, festas e modos de fazer que são transmitidos de geração em geração, principalmente pela tradição oral.

Devido às diversas influências indígenas, africanas e europeias, o folclore brasileiro pode ser dividido em várias categorias, como lendas e mitos, que são histórias fantasiosas sobre a natureza ou os comportamentos humanos. Também fazem parte desse universo personagens clássicos, como Iara, Curupira, Mula-sem-cabeça, Boto-cor-de-rosa e Saci-Pererê, além de festas tradicionais, como o Maracatu e o Bumba Meu Boi.

De acordo com o jornalista e pesquisador da cultura popular brasileira Andriolli Costa, criador do projeto “O Colecionador de Sacis”, valorizar o folclore vai além do ato de crer.

“A gente precisa convidar as pessoas a entenderem o folclore como saber popular, conhecimento e cultura tradicional. E isso independe de crença, independe de você acreditar ou não. Isso está ligado ao reconhecimento e à raiz. Eu vejo nele alguém que, diante dos problemas, encontra caminhos alternativos, usando a sagacidade, o humor, a malandragem e a ginga. De certa forma, isso também se aproxima de características que reconhecemos na cultura brasileira”, afirma o especialista.

Foto: Divulgação/Colecionador de Sacis

Presente nas histórias contadas pelos avós, nas páginas dos livros infantis e nas manifestações da cultura popular, o folclore brasileiro reúne personagens que atravessam gerações. Apesar dessa riqueza cultural, a preservação dessas narrativas enfrenta desafios em uma sociedade cada vez menos conectada às referências culturais brasileiras. Nesse contexto, o Dia do Saci, celebrado em 31 de outubro e oficializado pelo estado de São Paulo por meio de uma lei estadual, ainda não recebe reconhecimento nacional. Na mesma data, porém, o Halloween, conhecido como Dia das Bruxas, celebração de origem estrangeira, ganha destaque.

Como surgiu?

A formação do Saci-Pererê reflete o encontro de diferentes tradições culturais presentes no Brasil. Em seu artigo Saci-pererê: uma alegoria mestiça do sertão, a pesquisadora Carla Maria Anastásia aborda as influências africanas, indígenas e europeias na construção do personagem. Entre as referências apontadas estão Ossaim, entidade de origem africana; Yací Yaterê, pertencente às lendas indígenas; e o Fradinho, figura associada à tradição portuguesa.

Além disso, as variações regionais na pronúncia e na transmissão oral contribuíram para o surgimento de outras denominações, como Saci-Cererê, Saci-Taperê, Saci-Perê, Saci-Jerê, Siriri e Matinta-Pereira.

Em 1921, no livro O Saci, de Monteiro Lobato, a lenda é retratada por meio de um personagem brincalhão e provocador, cujas travessuras não são necessariamente motivadas pela intenção de fazer o mal. O personagem também conserva elementos ligados à representação europeia do diabo, como o cheiro de enxofre e a vulnerabilidade a orações e símbolos cristãos.

Foto: Divulgação/Capas de livros

Segundo uma das versões da tradição popular, o Saci poderia permanecer durante sete anos nos gomos do bambu antes de sair para viver suas aventuras. Ele também poderia viver por 77 anos e, após a morte, transformar-se em cogumelos venenosos ou em fungos conhecidos popularmente como orelhas-de-pau.

Nas narrativas populares, existem diferentes maneiras de escapar das travessuras do Saci. Uma delas consiste em espalhar barbantes com nós pelo caminho, pois a criatura pararia para desatá-los, permitindo que a pessoa fugisse. Outra possibilidade seria atravessar um riacho, já que, segundo a crença, o personagem não consegue passar por cursos d’água.

Para capturá-lo, acreditava-se que era necessário lançar uma peneira sobre os redemoinhos provocados por ele e retirar seu gorro vermelho, associado aos seus poderes mágicos. Dessa forma, o Saci poderia ser aprisionado dentro de uma garrafa.

Por que o folclore está perdendo espaço?

Com o avanço da tecnologia e a popularização das redes sociais, as histórias que antes eram transmitidas oralmente passaram a se reinventar nas telas. O consumo de vídeos curtos, com recursos visuais atrativos, cresce cada vez mais, enquanto o interesse pelas referências culturais brasileiras enfrenta desafios para se manter presente no cotidiano.

Produções como Sítio do Picapau Amarelo contribuíram para aproximar o público infantil das lendas brasileiras. Ao transformar personagens como o Saci e a Cuca em protagonistas de histórias transmitidas pela televisão, a obra de Monteiro Lobato ajudou a levar o imaginário popular a diferentes gerações.

Foto: Divulgação/Cine Cultural

Com a menor presença de produções nacionais dedicadas ao folclore na programação, surge o desafio de manter essas figuras presentes no cotidiano. Essa continuidade é importante para apresentar os personagens às pessoas que ainda não os conhecem e ampliar o reconhecimento de sua importância cultural.

Sobre a valorização insuficiente do assunto, Andriolli relata: “Quando fui fazer meu mestrado, estudando as lendas do Paraguai, encontrei a narrativa dos tesouros enterrados, conhecida como Plata Yvyguy. Eram tesouros que, segundo a crença popular, ficavam escondidos e eram protegidos por espíritos. O que mais me chamou a atenção foi descobrir que, todos os meses, pessoas morriam tentando encontrar esses tesouros. Foi quando percebi que não eram apenas historinhas ou manifestações de pura subjetividade. Se essas narrativas eram capazes de levar alguém a colocar a própria vida em risco, eu precisava tratar o folclore com seriedade, e não como meras histórias lúdicas.”

Preservar o folclore não significa apenas recordar personagens antigos, mas também manter vivas as narrativas, os saberes e as tradições que ajudam a formar a identidade cultural do país. Falar sobre o Saci é relembrar as raízes brasileiras, refletir sobre o racismo e valorizar a cultura indígena. Lembrar-se dele também significa preservar uma forma bem-humorada de enfrentar as adversidades.

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