Duas goleadas, duas medidas

Por Diego Cataldo

Na quarta-feira (21), o time de futebol feminino do São Paulo enfrentou o CATS, em jogo válido pelo campeonato paulista. O placar foi 29 x 0 para o Tricolor. Neste sábado (24), em partida do campeonato holandês, o Ajax aplicou uma goleada de 13 x 0 no VVV. As duas goleadas – mesmo que em modalidades distintas – renderam uma discussão.

A postura do Ajax diante do adversário, por mais triste que fosse para o VVV, pareceu correta: eles continuaram a jogar e marcar gols mesmo com o placar já elástico. Afinal, quantos jogos vemos por aí onde um clube abre 2 ou 3 a 0 e abdica do jogo correndo risco de tomar um empate ou até mesmo a virada? É compreensível que mesmo em vantagem, o time continue em busca de mais gols, até pelo saldo de gols positivo ser critério de desempate para definição do título, por exemplo. Ainda assim, nas redes sociais surgiu uma discussão. Algumas pessoas defendiam o argumento de que, ao contrário do que aconteceu no campeonato paulista feminino, o time holandês não sairia de campo “falando baboseiras”. Nesse caso, as “baboseiras” se referem à fala da jogadora Nini – capitã do CATS – no qual o forte desabafo repercutiu no meio.

O desabafo da Nini, capitã do CATS na derrota por 29×0

Originally tweeted by Alessandra Xavier (@alegxavier) on 22 de outubro de 2020.

Entretanto, a goleada sofrida pelo CATS foi totalmente diferente pela que passou o VVV. Todo time já foi goleado, isso é um fato. Mas cada caso é um caso. A situação vivida pelo time do Taboão é uma síntese do descaso que vários times femininos sofrem no Brasil. Muitos clubes parecem só manter um time na categoria por obrigação, sem nenhum tipo de compromisso ou responsabilidade para com as jogadoras do elenco – a fala de Nini evidencia isso. Já o clube holandês está em um centro importante do futebol europeu, tem sua estrutura, salários em dia e etc.

A goleada sofrida pelo VVV foi atípica. Não é uma coisa que acontece todo dia no futebol masculino. Não é sempre que o Flamengo vai ganhar de 5 do Corinthians ou do Grêmio; não é sempre que o Bayern de Munique goleará o Barcelona por 8 a 0 e nem que a Seleção sofrerá novamente 7 gols em uma semifinal de Copa do Mundo.

E por quê? Porque por mais que alguns times sejam mais fortes tática e tecnicamente, os clubes têm estrutura, salários e uma preparação digna para disputar uma partida de futebol. Também é sabido que muitos clubes do futebol masculino – principalmente fora dos grandes centros e capitais – funcionam em condições precárias.

No caso do CATS, porém, goleadas assim podem acontecer com muita frequência, vide a disparidade entre os clubes. Basta lembrar que no ano passado, no campeonato carioca, o Flamengo venceu o Greminho por 56 x 0. Além de um 19 x 0 no Brasileirinho e um 12 x 0 no Colônia/Guapimirim.

A discussão vai muito além do “mimimi” como alguns internautas classificam as reclamações. O que se espera é que as federações olhem para os times menores e os ajudem cobrando dos clubes estrutura e condição de trabalho decentes. Só assim as jogadoras poderão evoluir, e o campeonato se profissionalizar com disputas mais equilibradas entre as equipes.

Em nota publicada no site, a Federação Paulista de Futebol reconheceu que “um controle mais rigoroso poderia evitar a exposição negativa das atletas e da comissão técnica”, disse também que cobrará do CATS melhoria para as jogadoras e que ajudará o time “comtoda estrutura que for possível e necessária” e concluiu afirmando que “a FPF seguirá lutando pela evolução do futebol feminino”.

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