O fim do Cine Joia: tradicional cinema de rua encerra suas atividades

Por Bárbara Scarpa, Beatriz Lemos e Maria Luiza Queiroz

Os cinemas de rua marcaram os anos 1950, 1960 e 1970. Só em Copacabana eram diversas salas de sucesso, como o Art Palácio, Cine Paissandu e Cinema Rian. Entretanto, poucos espaços resistiram à invasão comercial das grandes salas de cinema e, por muitos anos, o Cine Joia foi um desses. Infelizmente, no último dia 13, o cinema encerrou suas atividades, deixando um legado para a sociedade.

Como surgiu? 

Inaugurado abril em 1969 pela família Valansi, dona da Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira, recebeu esse nome em homenagem à matriarca da família. De acordo com a filha do fundador, Lydia Valansi, o cinema era como um tesouro para seu pai. Sendo assim, ele decidiu nomeá-lo homenageando sua mãe, Joia Valansi. 

Localizada dentro da Galeria 680 na Av. Nossa Senhora de Copacabana, com apenas 87 assentos, a pequena sala com sua charmosa decoração típica do estilo 60’s, visava exibir filmes nacionais e internacionais, independentes e clássicos que não teriam espaço nos circuitos comerciais ou que já haviam sido exibidos nos cinemas anteriormente.  

Além de trazer a proposta de transmitir filmes independentes, o Cine Joia também buscava trazer como ponto central a democratização do acesso ao cinema. Visto que atualmente paga-se caro por essa experiência, os valores do ingresso no Joia eram R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia), possibilitando assim o acesso às classes mais baixas. 

O Cine Joia, localizado no subsolo de uma Galeria em Copacabana, fecha suas portas. (créditos: O Globo)

Cine joia e suas atividades

O Cine Joia manteve suas atividades até 2005, quando se viu obrigado a fechar as portas e assim se manteve até 2011. O cineasta Raphael Aguinaga reabriu o cinema com a intenção de manter um preço popular para democratizar e aumentar o número de frequentadores da antiga sala de cinema. A aposta bem sucedida rendeu frequentadores assíduos ao pequeno local em Copacabana, como conta a médica Andréa Grivot, “acho que já fui mais de 50 vezes. Geralmente eu ia uma vez na semana, quando tinha filme novo e de vez em quando no festival. Se tivesse mais de um filme em cartaz, eu ia mais de uma vez na semana”.

A programação do Cine Joia foi outro fator de destaque no cinema. Em 2014 foi eleita a melhor programação do Rio de Janeiro, pela ACCRJ (Associação dos Críticos de Cinema do Rio de Janeiro), outro ponto que também foi destacado por Andréa Grivot, “lá tinha filme francês, de outras nacionalidades, não era só americano, tinha vários gêneros e festivais…” 

Em 2020, o Cine Joia, mais uma vez, anunciou o encerramento de suas atividades. O cinema estava fechado desde março por conta da pandemia e sendo mantido por patrocínio, que tinha contrato com o cinema até outubro deste ano. Em contrapartida Raphael Aguinaga, dono do estabelecimento, afirmou em seu comunicado no Facebook que deixou de receber o repasse de verba, tornando-se insustentável manter o estabelecimento e os funcionários. Na declaração, feita no dia 13 de novembro, ele conta: “quase chegamos lá. Não fossem as complicações morais e comerciais trazidas pela pandemia e o fato de que nosso ex-patrocinador, a RioFilme, decidiu nos abandonar quando mais precisávamos”. 

Raphael Aquinaga, dono do estabelecimento. (créditos: O Globo)

Segundo o jornal O Globo, a Secretaria Municipal de Cultura se pronunciou da seguinte forma: “A Secretaria Municipal de Cultura, por meio da RioFilme, esclarece que que não houve rescisão de apoio ao Projeto CineCarioca Escola – Copacabana, o que houve foi o término de vigência do contrato em 28 de agosto de 2020. O Projeto, uma ação de fomento ao acesso de estudantes da rede municipal de ensino ao cinema, também foi estendido para os assistidos pelos CRAS-Centros de Referência da Assistência Social. Tendo em vista a pandemia da Covid-19 no Rio de Janeiro, foi solicitado pelo presidente da RioFilme uma readequação do projeto, mas não houve resposta favorável da parte do exibidor”.  

Sala do Cine Joia, em Copacabana (créditos: Rotacult)

A certeza é de que a perda cultural e histórica, provindas do fechamento do Cine Joia, é imensurável. Fica ao público o sentimento de tristeza, como relata Gustavo Montello, de 26 anos, “eu como assíduo cliente dos cinemas de rua, fico triste. Sou um grande apoiador para terem mais cinemas de rua. Era um local que fazia parte da história de Copacabana. Vai deixar saudades” e Andrea Grivot, de 54 anos, compartilha do mesmo sentimento, “fiquei muito triste porque eu gostava e ia bastante, apesar de ser um cinema pequeno, era a alternativa em Copacabana”.

Em entrevista concedida ao Em Todo Lugar, a Professora da FACHA e crítica de cinema Andrea Cursino, evidencia a importância do Joia para o Rio de Janeiro, “o Cine Joia é um cinema pequeno que atende um público variado. Não só os moradores de Copacabana, mas cinéfilos que saem de diversas áreas da cidade para aproveitar os títulos diversificados que o cinema oferece. O Joia tem sessões temáticas e fez um sucesso enorme na retomada com o Raphael Aguinaga e curadoria do Raphael Camacho. A ideia das sextas só com filmes antigos lotava o Joia todas as semanas e muitas vezes tinha gente voltando para casa sem ingresso porque a sala já estava lotada”.

Cine Joia durante a exibição do filme “De repente, eu te amo” e esteve presente os protagonistas e o Secretário de Turismo da cidade. (créditos:livenews)

Ela também sinaliza a falta de incentivo governamental como o problema central para diminuição dos cinemas de rua, “acho que não é a cultura do cinema de rua que está acabando, é muito mais a falta de incentivo do governo para os pequenos e médios empresários em manter os cinemas funcionando. Não que as grandes empresas não precisem de apoio, sim elas precisam, mas os pequenos e médios tem mais dificuldade de se manter apenas com bilheteria, já que o espaço da sala também é menor do que os cinemas de shoppings.  Os cinemas de rua são alternativas viáveis e cobrem um nicho do mercado que as grandes redes de cinema não conseguem cobrir. Filmes de outros países além do cinema produzido por Hollywood, os clássicos e tantas outras ideias que podem ser aproveitadas para movimentar as salas de cinema de rua”.  

Muito se questiona hoje em dia sobre as novas formas de se assistir aos filmes e documentários, muitos apontam as plataformas de streaming como o ponta pé para o fim dos cinemas, entretanto a professora discorda, “desde sempre se questionou o fim do cinema a cada nova forma de comunicação. Foi assim com a chegada da TV, das locadoras de vídeo, e agora o streaming. O cinema nunca vai acabar. Nada supera a experiência de ir para sala de cinema e aproveitar a imersão do filme numa sala preparada para isso. Em casa não é nem de longe a mesma experiência. É bom também, mas não tem a imersão que só a sala de cinema proporciona”. Dando assim um sopro de esperança aos cinéfilos nesse momento delicado.  

O significado do Cine Joia

O cinema acabou, mas ficará para a história. Depois de tantos anos, muitos filmes e pessoas passaram por lá. Era um cinema pequeno, mas sua importância é tamanha para quem pôde frequentá-lo. Como a Andréa Grivot desabafa, “desde a adolescência eu frequentava, era um cinema pequeno, na verdade havia só uma sala de cinema. Era aconchegante, você ficava mais próximo. E um diferencial de lá é que passava filmes antigos, que quase nenhum cinema passa. Vai fazer falta”.

Gustavo Montello declara que “sempre vou lembrar do Cine Joia com muito carinho apesar de não ter ido lá com tanta frequência. Só queria agradecer pelos momentos bons que passamos, por proporcionar uma cultura de qualidade por um preço super acessível”. E complementa que ver mais um cinema fechando é desanimador porque “o nosso povo está precisando de cultura. E quando mais um cinema de rua se fecha no país, mais a nossa cultura é afetada. Aos poucos vamos percebendo que os espaços como cinemas, museus, livrarias vão ficando na nossa memória e no passado”.

O Cine Joia entra para a história como mais um cinema de rua ficando na memória. Entramos em contato com o dono do estabelecimento, Raphael Aguinaga, mas até o fim desta reportagem não houve resposta.

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