Time de refugiados: uma mensagem para o mundo em Tóquio 2020

Foto de Capa: Popele Misenga na Rio 2016 (Roberto Castro/rededoesporte.gov.br)

Por Leonardo Rodrigues

“Eu já fui cuspido no Centro da cidade, já fui xingado de todo lado”, conta Popole Misenga, refugiado em território brasileiro desde 2013, em uma entrevista recente ao Canal Olímpico do Brasil. Popole, mais conhecido pelo seu apelido “Popo”, é judoca, vive no Rio de Janeiro e está na lista dos 29 atletas convocados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para competir nos Jogos de Tóquio 2020, pelo time de refugiados. A equipe, em formato de delegação especial, quer enviar um recado para o resto do mundo. 

Com a sua abertura marcada para o dia 23 de julho, a Olímpiada de Tóquio, passada de 2020 para 2021 por conta da pandemia, será a segunda edição na qual um time composto por refugiados estará competindo. Na Rio 2016, primeira participação da equipe, havia 10 atletas. Naquele ano, o time entrou para a história após desfilar no Estádio Maracanã, na abertura da competição, liderado por Rose Nathike Lokonyen, corredora sul-sudanesa que, aos oito anos, fugiu da guerra e, desde então, vive no Quênia. 

Em Tóquio, os 29 atletas sob status de refugiados irão competir pelo hino e bandeira do COI. Na formação do time, estão 19 homens e 10 mulheres, de 11 nacionalidades, que vão disputar as seguintes modalidades: atletismo, levantamento de peso, natação, badminton, canoagem, boxe, judô, taekwondo, caratê, luta greco-romana, tiro e ciclismo. 

Gráfico: Leonardo Rodrigues e Arte: Clara Flávio

Na apresentação virtual da equipe, Thomas Bach, presidente do COI, afirmou que “uma mensagem poderosa de solidariedade, resiliência e esperança para o mundo” será enviada pelo time de refugiados. Segundo ele, apesar das difíceis situações pelas quais já viveram, a presença dos seus atletas nos Jogos mostrará que qualquer pessoa, por meio do seu talento e espírito humano, pode contribuir com a sociedade. 

Segundo o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), em 2020, 82,4 milhões de pessoas ao redor do mundo foram forçadas a se deslocarem, sendo, entre elas, 26,4 milhões de refugiados. Os motivos variam entre perseguições, conflitos, violência, violações dos direitos humanos ou acontecimentos que afetem a ordem pública – ou seja, riscos à integridade física ou, até mesmo, à vida. 

Dentre os refugiados convocados pelo COI, nove são oriundos da Síria. O país, que há mais de 10 anos vive conflitos violentos em meio a uma guerra civil, já obrigou o deslocamento de mais de 13,3 milhões de pessoas, sendo 6,6 milhões de refugiados ao redor do mundo. 

A exemplo, tem-se a nadadora síria Yusra Mardini, que competiu na Olimpíada do Rio e disputará a prova de 100m borboleta em Tóquio. Asilada na Alemanha desde 2015, a tentativa de escapar da violência na Síria quase custou a sua própria vida: rumo à Europa, depois que o bote em que ela e mais 18 pessoas estavam presentes apresentou problemas, Yusra e a sua irmã mais velha, também nadadora, precisaram empurrá-lo por horas no mar. Yusra, após a sua participação na Olimpíada do Rio, ganhou um livro e um filme para contar a sua história, além de ter se tornado embaixadora da ONU. 

A presença do time de refugiados nas Olimpíadas é também um símbolo de superação. Antes de chegar aos Jogos, todos os 29 atletas tiveram de deixar para trás a vida nos países em que nasceram, com um futuro incerto pela frente. Direitos básicos, como estudar ou ter uma moradia, que deveriam estar garantidos a eles, precisaram ser conquistados ao longo de suas vidas. 

Cyrille Tchatchet II, levantador de peso convocado para a Olimpíada de Tóquio, sabe como pode ser difícil a vida fora de seu país de origem. Em 2014, após uma competição em Glasgow, o então jovem de 19 anos fugiu do acampamento da sua equipe, com medo de voltar para Camarões por motivos que, até hoje, não se sente confortável a dizer. Ele viveu nas ruas da Inglaterra e chegou a pensar em suicídio. Vencendo também a depressão, Cyrille se tornou campeão britânico com uma série de recordes nacionais, o que lhe rendeu uma bolsa de estudos concedida pelo COI. O atleta cursou enfermagem em Londres e atuou na linha de frente do sistema público de saúde britânico contra a covid-19. 

Popole, Rose, Yusra e Cyrille são apenas quatro dos 29 atletas que irão representar o time de refugiados nos Jogos de Tóquio deste ano. Cada nome desta lista foi selecionado entre aqueles que fazem parte do programa de apoio a atletas refugiados do COI. A escolha foi feita por critérios que ultrapassam a barreirado esporte, como gênero e região, para montar uma equipe que, além de competitiva, fosse representativa. 

Com um time quase três vezes maior do que na última edição das Olimpíadas, os refugiados vão para Tóquio na busca de subir no pódio pela primeira vez. A medalha é importante para todos os atletas, afinal, é uma competição. No entanto, enviar uma mensagem de “esperança, resiliência e solidariedade” para o mundo, representar todos os milhões que foram forçados a deixar os seus países e mostrar onde eles podem chegar é onde está a verdadeira essência dos Jogos. 

Saiba mais sobre o time de refugiados na matéria produzida na editoria de Esportes do Em Todo Lugar.

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