Xenofobia e esporte: dois caminhos que se cruzam

Foto de Capa: Aotearoa

Por Maria Luiza Queiroz

A caracterização da xenofobia é descrita como a aversão ao que é estrangeiro ou diferente. Quando trazemos a explicação do termo para a prática, estamos falando de um preconceito com quem tem uma cultura, hábitos, linguagem e até aparência diferente da cultura nata de um lugar. Como, por exemplo, os preconceitos e estereótipos dados aos asiáticos, a sexualização da mulher latina ao redor do mundo, as “piadas” com os nordestinos nas regiões sul e sudeste, entre outros. A disseminação da xenofobia está diretamente ligada aos movimentos migratórios que ganham cada vez mais volume ao redor do mundo, já que aumenta o contato entre povos diferentes. Por exemplo em 2015 o número de imigrantes que foram para a Europa teve um salto de 60% em relação ao ano anterior, neste mesmo ano o aumento de casos de xenofobia também aumentou, o ano de 2015, marcado por imagens chocantes de pessoas tentando entrar na Europa, mostrava também a repulsa dos europeus com a chegada dos imigrantes.   

A Lei 9459, de maio de 1997, caracteriza como crime o ato xenofóbico no Brasil, porém ainda há um desconhecimento da população e até de quem é vítima do crime para entender o que é a xenofobia e quando ela deve ser denunciada. Em território nacional, a pauta esteve em alta durante o BBB21, quando a participante Juliette Freire foi vítima de ataques xenofóbicos dentro do reality, o que expos e sintetizou como é grande esse preconceito entre os próprios brasileiros.  

 Desse modo é fácil detectar que a xenofobia, infelizmente, está presente em muitas áreas da vida cotidiana, como no trabalho, nas interações sociais, na escola, na televisão e em muitos outros âmbitos, como por exemplo no esporte que é um meio totalmente globalizado, porém com muitos preconceitos. Recentemente os jogadores de futebol Griezmann e Dembélé foram acusados de xenofobia contra funcionários asiáticos de um hotel que estavam hospedados, em um vídeo feito por um dos jogadores eles aparecem rindo dos funcionários e caçoando enquanto eles faziam um reparo no quarto deles, apesar dos jogadores terem negado as acusações, o ato leva à reflexão do quanto o meio esportivo de modo geral ainda reproduz não só a xenofobia, mas outros preconceitos de forma geral.  

  Há também o caso do jogador de basquete Giannis Antetokounmpo, filho de pais nigerianos que migraram pra Grécia. A estrela da NBA é grego, porém, mesmo nascido no país, Giannis só conseguiu tirar seu passaporte quando foi chamado para se juntar à NBA para jogar na competição americana. O atual campeão da NBA relata que diversas vezes dormia no estádio no qual treinava no país natal, com medo de ser vítima de ataques a noite voltando para casa.  

 O educador físico e ex-jogador de basquete Geraldo Magela, de 40 anos, conversou com a gente sobre suas experiências, tanto como quem praticou o esporte e sentiu na pele o que era estar em um país onde era visto como diferente, quanto como professor de educação física, que convive diariamente com os desafios do esporte.  

Quando jovem, você conquistou a experiência de jogar basquete fora do Brasil, nos EUA, você chegou a sentir na pele a xenofobia?  

 Eu já fui ao EUA três vezes, aos 15, 16 e aos 18 anos. Eu senti a xenofobia em diversos momentos diferentes. Cito três, o primeiro deles, talvez o que mais me incomodava, era do meu próprio treinador, que era tão “encantado” com a cultura estadunidense, que tudo que a gente fazia de errado ele dizia que era “coisa de brasileiro”. O segundo momento que senti na pele essa questão foi em um dia de aula que pudemos participar na escola onde treinávamos e os colegas nativos que nos acompanhavam não tinham a menor ideia de onde era o Brasil no mapa-múndi.  

 O terceiro momento foi quando estava caminhando na rua e estava de chinelos, entrei em um BK e, enquanto estava lanchando, via as pessoas comentando, apontando e cochichando. Essa foi uma experiência bastante constrangedora.  

Você acredita que hoje sua reação diante da xenofobia sofrida teria sido diferente? 

 Sim, pincipalmente com relação ao meu treinador, essa não é a postura que um educador deveria ter com um aluno ou atleta. 

Além de ex-jogador de basquete você é educador físico, com base nas experiências que tem nesse meio, por que acredita que o esporte ainda é um local de muito preconceito? 

Sim, o esporte ainda é, infelizmente, um campo fértil para diversos tipos de preconceitos. A começar que algumas modalidades são “elitistas”, o que dificulta o acesso favorecendo assim atitudes dessa natureza. Por outro lado, existem modalidades mais populares como o futebol, por exemplo, no qual podemos presenciar diversas manifestações de preconceito como o racial (exemplo: o goleiro Aranha do Santos que foi chamado de macaco por parte da torcida do Grêmio em 2014) 

 Essa modalidade possui diversos tipos de preconceitos em sua essência como no caso do jogador Richarlysson que sofreu vários ataques durante a carreira por conta da sua orientação sexual. Sem contar o futebol feminino que sofre com a falta de apoio e condições de trabalho e salário que é reflexo do machismo enfrentado na modalidade esportiva.  

Todas essas questões são reflexos de uma sociedade que vivemos e que é preconceituosa em sua raiz. É preciso um trabalho educacional muito grande para se promover maior tolerância com as diferenças, o que vai impactar o esporte e a sociedade de uma forma geral. 

 Na sua visão, em um meio tão globalizado quanto o esporte, qual é a melhor solução para acabar com os ataques xenofóbicos ainda presentes nas modalidades?  

 Para se ter resultados efetivos em relação a esses ataques xenofóbicos e qualquer outro tipo de preconceito, é fundamental investir na educação das pessoas levando-as a entender e respeitar as diferenças, além de políticas públicas que permitam coibir de maneira efetiva esses comportamentos. 

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