Setembro Amarelo: até as grandes estrelas sofrem 

Não é difícil imaginar que a felicidade está atrelada ao sucesso pessoal. Todavia atletas renomados como Michael Phelps, Simone Biles, Josip Iličić, Robert Enke e Gigi Buffon querem mostrar o contrário. Apesar de superestrelas, continuam sendo humanos  

Foto de capa: Reprodução/Prinz Sportlich 

Por Rodrigo Glejzer 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 264 milhões de pessoas são afetadas por doenças como depressão e ansiedade. Entre os fatores principais para suas causas, estão problemas familiares, dificuldades de se relacionar socialmente e pressão no âmbito profissional.  

Silenciosas, elas se espalham por diferentes classes sociais e não têm preferência por profissão. Conhecidos por estarem no ápice da forma humana, os atletas também estão incluídos nesse suplício. E, nesse caso, nem os de alto rendimento, e vencimento, escapam. O maior exemplo é o multicampeão olímpico Michael Phelps.  

Vencedor de 28 medalhas (23 de ouro), é o maior campeão na história das Olímpiadas e considerado uma lenda viva do esporte mundial. Casado e pai de três filhos, o nadador americano poderia se considerar um completo sucesso, mas não foi o que aconteceu.  

Em diversas entrevistas que deu na última década, Phelps sempre foi muito claro sobre como a pressão exagerada lhe drenava as energias. Sempre que entrava para nadar, o público e a crítica não esperavam nada menos que um espetáculo. Recorde e medalha. Em busca do melhor físico, vivia em dietas restritas e treinos cada vez mais cansativos. A cada Olimpíada terminada, uma nova onda de depressão e ansiedade o abatia.  

Inclusive, o americano admitiu que, depois de Londres-2012, passou dias trancado em um quarto, sozinho, em seu episódio depressivo mais grave. Chegou a pensar em suicídio nesse meio tempo. Apenas em 2016, quando se abriu publicamente sobre o problema e foi a procura de tratamento, Phelps começou a mostrar sinais de melhora. Hoje, é um dos maiores porta-vozes sobre tratamento mental contra a depressão e ansiedade em atletas. 

Michael Phelps é o maior campeão olímpico da história, mas não escapou da depressão – Foto: Simon Bruty/Sports Illustrated    

Mês passado, durante as disputas olímpicas em Tóquio, outra estrela do esporte mundial cedeu aos seus problemas internos. Depois de assombrar suas adversárias nos jogos do Rio de Janeiro, em 2016, quando venceu quatro medalhas de ouro, a ginasta Simone Biles gerou bastante expectativa, do público e da crítica especializada, para mais uma performance brilhante. Não foi o que aconteceu.  

Classificada para sete finais na ginástica artística, Biles se retirou da maioria das disputas no individual (geral, salto, barras assimétricas e solo). Participou apenas da competição por equipes (prata) e trave (bronze). A multicampeã afirmou sofrer de problemas psicológicos, intensificados pelos momentos de alta pressão, que estariam causando “twisties”, termo usado na ginástica quando o atleta sente falta de sincronia entre corpo e mente durante as acrobacias. Começou-se a especular, por parte da imprensa e dos fãs da ginasta, que Biles poderia estar sofrendo com a pressão em se manter no topo. Afinal, são poucos atletas que conseguem chegar à excelência e perdurar.  

No entanto, os motivos da desistência de Biles começaram a ganhar outros contornos a partir do dia 15 de setembro. A data marcou a abertura de um painel do Comitê Judiciário do Senado dos Estados Unidos sobre os erros do FBI, a agência americana de investigação, na apuração dos abusos sexuais cometidos por Larry Nassar. Em 2017, o ex-médico foi condenado a 60 anos de cadeia por posse de pornografia infantil, mas, um ano depois, teve sua pena revista e extendida para mais de cem anos pelo abuso de, pelo menos, 100 mulheres ao longo de seus 18 anos à frente do departamento médico da equipe de ginástica americana.  

Simone Biles durante sua ida ao Senado americano para depor sobre o caso Nassar – Foto: Twitter/Jason Donner 

Depois de ter ido a público, em janeiro de 2018, e afirmado ter sido uma das vítimas de Nassar, Biles foi convocada ao Comitê Judiciário. No senado, a ginasta acusou o FBI de ajudar a perpetuar os abusos ao agir com indiferença. O desdém com o caso teria causado graves sequelas nas atletas a ponto de uma delas, Chelsea Markham, chegar a cometer suicídio, aos 26 anos, depois de ser vítima do ex-médico quando criança.  

Atormentada pelas violações sofridas, pela falta de comprometimento dos órgãos nacionais em resolver os problemas e pela pressão em ser a melhor, o psicológico de Biles acabou cedendo. Quatro dias depois de se apresentar para depor, Biles deixou uma mensagem em suas redes sociais sobre seu sentimento ao desistir das provas em Tóquio. 

“Eu não mudaria nada pelo mundo. Eu dei uma brecha para que os atletas falassem sobre saúde mental e sobre seu bem-estar e compreendessem que você pode se colocar em primeiro lugar, antes do atleta”, afirmou a tetracampeã olímpica. 

Em entrevista para a revista Time, Biles conversou sobre seus sentimentos durante as Olímpiadas de 2020 – Foto: Twitter/Time 

Assim como Biles, outros atletas de nível mundial também tiveram que lidar com antigas cicatrizes ao mesmo tempo em que tentavam performar no mais alto patamar. Mais recentemente, o caso do jogador de futebol Josip Iličić ficou em evidência.  

Nascido em 1988, na Bósnia, perdeu o pai aos sete meses de idade. Quatro anos depois, viu sua família ser obrigada a refugiar-se na Eslovênia devido aos conflitos locais. Conhecida como Guerra da Bósnia, o embate envolveu questões territoriais e raciais. No fim, cerca de  97.207 pessoas, entre civis e combatentes, foram mortas. Muitas delas executadas de maneira cruel. As imagens das cidades em destroços correram o mudo e marcaram uma geração inteira.  

Depois de conviver com a guerra quando criança, Iličić conseguiu se profissionalizar como jogador, mas não escapou de novos dramas. Atuando na Itália, teve de lidar, mais uma vez, com o sentimento de perda. Em 2018, o zagueiro italiano Davide Astori morreu de forma repentina em um quarto de hotel. Mais tarde, a autópsia revelaria que o defensor sofria de problemas cardíacos e acabou vitimado pela doença. Muito próximo de Astori, o esloveno sofreu com a morte inesperada do amigo.  

Para piorar, Iličić também estava convivendo com uma grave doença. Sofrendo com inflamação bacteriana nos gânglios linfáticos, os pequenos órgãos que atuam na defesa do corpo, o atacante teve que interromper sua carreira a fim de se tratar. Caso o problema avançasse, poderia levá-lo ao coma. Depois de praticamente um ano parado, conseguiu vencer mais um obstáculo.  

Astori durante sua passagem pela Fiorentina-ITA – Foto: Gabriele Maltinti/Getty Images 

Depois de uma boa temporada em 2019, o esloveno começou a despontar, aos 31 anos, em 2020. Pela Atalanta-ITA, fazia sua melhor temporada na carreira. No entanto, o destino voltaria a lhe pregar peças. Com a mesma voracidade que fazia Iličić avançar na área adversária, a covid-19 passou a se espalhar pelo mundo.  

Bérgamo, cidade em que seu clube é baseado, virou epicentro da pandemia na Itália. Sem demoras, os noticiários de todo o mundo começaram a passar imagens macabras. Diversos caminhões ficavam estacionados nas ruas, apenas esperando serem preenchidos com as inúmeras vítimas do contágio. Tornaram-se famosas as imagens dos sacos pretos com corpos sendo retirados das casas e indo direto a crematórios. Para Iličić, foi como reviver o drama da guerra.  

Em março de 2020, os campeonatos mundo afora foram paralisados. Deprimido, o atacante pediu para ser afastado do clube. Foi prontamente atendido e blindado pela direção. Foram meses com poucas informações sobre seu real estado. Lamentavelmente, ainda teve que lidar com falsos boatos que sua esposa estava traindo-o durante o isolamento. Em julho, as competições voltaram, mas Iličić retornou apenas em agosto.  

Bem abaixo em nível de performance, era visível seu abatimento. Quando tornou a marcar gols, contundiu-se. Não participou da reta final da temporada 2019/2020. Atualmente, ainda não voltou à antiga forma. Titular incontestável ano passado, hoje convive entre o time principal e a reserva da Atalanta.  

Aos poucos, Iličić vai recuperando a forma na Atalanta – Foto: Reprodução/Super News 

Apesar de todos os casos citados serem críticos, cada um em sua particularidade, todos conseguiram conviver ou superar o problema. Infelizmente, nem todos conseguem ter a força necessária para reagir diante de um mau momento ou uma tragédia. Esse foi o caso de Robert Enke.  

Goleiro alemão, Enke iniciou carreira pelo pequeno Carl Zeiss Jena, atuando nas divisões inferiores germânicas, em 1995. Um ano depois, foi vendido ao Borussia Mönchengladbach, equipe da primeira divisão local. Ainda que o clube não vivesse a melhor fase, o arqueiro conseguiu se destacar e arranjar uma grande transferência para o Benfica-POR. 

Em terras portuguesas, Enke viveu sua melhor fase. Não ganhou títulos, mas foi titular durante boa parte de sua estadia. Por suas atuações, chamou a atenção do Barcelona-ESP, um dos maiores clubes do mundo. Negociado em 2002, com apenas 25 anos, foi bastante inseguro na Espanha. Ficou um ano sem jogar e, quando atuou, apenas quatro vezes, acabou sendo péssimo em duas oportunidades. Atraiu a ira da torcida e foi emprestado duas vezes (Fenerbahçe-TUR e Tenerife-ESP). Muito infeliz, pediu dispensa.  

Dois anos depois de sua malsucedida ida à Catalunha, Enke estava de volta ao seu país. Mesmo se tratando da depressão com o Dr. Valentin Makser, conseguiu ótimas atuações no Hannover 96-ALE. Tornou-se ídolo e conseguiu oito convocações para a seleção alemã. Estava cotado para ser um dos três goleiros da Die Mannschaft na Copa de 2010. Para a tristeza do mundo do futebol, não consegui chegar lá. Aos 32 anos, o arqueiro cometeu suicídio em 2009.  

Enke durante seu auge como titular da Alemanha – Foto: AFP

O jornal Record, de Portugal, enumerou alguns dos motivos que desencadearam seu ato final. A começar pelo medo do fracasso e da crítica, adquirido nos tempos de Barcelona. Depois, o arrependimento de ter saído do Benfica, onde era regular no time principal e adaptado à cidade. Por fim, o pavor de perder a filha.  

No mesmo ano em que viveu seu inferno pessoal, o goleiro virou pai. Em 2004, veio ao mundo sua primogênita, Lara. Para seu azar, a garota nasceu com um grave problema cardíaco e teve que passar por diversas cirurgias. Em uma delas, acabou falecendo. Enke nunca se perdoou pelo que aconteceu à criança.   

Teresa, esposa do goleiro, tentou de todas as formas reverter o quadro de depressão de seu marido. Até conseguiu convencê-lo a adotar uma menina, Leila, mas não foi o suficiente. No dia 10 de novembro, Enke deixou sua mulher e filha, então com oito meses, em casa e andou sem rumo.  

Homenagens de torcedores do Hannover 96 ao falecido Robert Enke – Foto: Thomas Peter/Reuters  

Desde então, outros jogadores profissionais passaram a vir a público falar da importância de se manter, mentalmente, saudável. Casos como do meio-campista Andrés Iniesta, depressivo por causa da morte repentina de seu bom amigo Dani Jarque, do lateral Marcelo, e seu ataque de ansiedade antes da final da Liga dos Campeões em 2018, e do atacante Nilmar, deprimido depois de uma passagem conturbada pelo futebol árabe, são alguns dos exemplos recentes de problemas envolvendo futebol profissional e saúde mental.  

Em carta publicada ao The Player’s Tribune, há dois anos, o italiano Gianluigi Buffon, um dos maiores goleiros de todos os tempos, contou sobre os momentos de angústia que viveu em seus mais de 20 anos de carreira. Aos 26 anos, viu-se deprimido. Como sua vida girava apenas em torno do futebol, não tinha vontade de fazer outras coisas.  

“Se você vive sua vida de forma niilista, pensando apenas no futebol, sua alma começará a murchar. Eventualmente, você ficará tão deprimido que não vai querer nem sair de sua cama”, descreveu o ídolo da Juventus-ITA.  

Para combater os momentos de tristeza, Buffon deixou claro a importância de ter outros hobbies fora do esporte. Na arte, encontrou novas formas de inspiração e passou a focar em outros objetivos que não fossem atrelados à sua performance em campo. Por fim, deu um conselho às novas gerações de como encarar seus momentos de falha: 

“Os erros são importantes, porque eles lembram que você é humano. Eles vão lembrá-lo, de novo e de novo, de que você não sabe nada, meu amigo. Isso é bom, porque o futebol vai fazer um excelente trabalho para tentar te convencer de que você é especial. Mas você deve se lembrar que você não é diferente do barman ou do eletricista, de quem você será amigo por toda a vida”, finalizou o campeão do mundo.  

“Você não é um super herói. É um homem como qualquer outro” – Foto: Claudio Villa/Getty Images 

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