Foto Capa: reprodução/Nilmar Lage/Greenpeace
Por Arthur Líbero
Um dos principais problemas enfrentados no Brasil ultimamente são as queimadas na Amazônia. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), 28.697 focos de queimadas foram registrados no bioma. O valor representa um aumento de 83% em comparação ao mesmo período em 2023, quando foram registrados 15.710 focos e está 38% acima da média dos 10 anos anteriores (2014 a 2023).
Esse problema também já contribuiu para que outros focos de incêndio surjam em outras partes do Brasil, chegando até mesmo em estados do sul do país, como Paraná e Santa Catarina. Isso acabou dificultando a formação de chuvas nessas áreas e aumentou a liberação de gases de efeito estufa, que são os causadores do aquecimento global.
Para entender melhor e acompanhar de perto esse problema, a professora e pesquisadora dinamarquesa Stine Kroijer está liderando uma pesquisa em Antropologia Social sobre os incêndios florestais na Amazônia. E, com isso, ela precisou estudar a língua portuguesa para ter um melhor contato ao comanda o projeto. “Eu normalmente falo espanhol, por isso eu busquei uma oportunidade de fazer a transição de espanhol para português. Como venho trabalhando durante muitos anos com pesquisa no Equador, então, comecei a trabalhar aqui no Brasil também. Em Brasília era preciso praticar o idioma para poder comunicar com a gente, com as pessoas daqui”, conta ela.

Sobre a pesquisa, Stine conta que o interesse pelo tema dos desmatamentos florestais começou já na adolescência, “o interesse surgiu quando eu tinha 15 anos e foi a primeira vez que vivi em uma comunidade indígena no Equador. E aí passei a me interessa em saber como é que os povos indígenas vivem aqui, por que estão vivendo dessa forma, e qual a relação deles com o meio ambiente.
Ela ressalta que o problema das queimadas não é o fogo em si, e sim quem está fazendo o seu uso e de que forma isso pode impactar no meio ambiente, “é claro que durante os anos também se vê que os povos indígenas usam fogo em suas práticas agrícolas, e que essas práticas são uma forma de renovação da floresta, até mesmo como uma forma de proteger a própria floresta. As terras que os povos indígenas manejam têm uma cobertura florestal mais alta que as terras privadas ou as terras públicas de diferentes formas. Então, de alguma forma, já existe a solução ao desmatamento. Mas, nesse caso, é preciso entender que os povos indígenas são muito melhores para cuidar da cobertura florestal do que outros setores do país”.

A pesquisadora fala sobre seu interesse na biodiversidade presente na Amazônia e fala como a importância da sua preservação é também uma forma de prevenção à extinção, “estive lá muitas vezes, mas ainda preciso conhecer melhor a Amazônia brasileira, mas conheço muito o Equador, Peru e Bolívia, e as diferentes florestas amazônicas desses países. O que me interessa são as diversidades tanto quanto aos meio-sistemas biológicos. Enquanto há as formas de vida social, existem muitas formas de vidas diferentes e ambas as coisas estão em perigo de extinção. Na Europa nós já acabamos com nossas florestas, então acho que não somos o melhor exemplo para outros países, mas é importante dizer que, se não resolvermos esses problemas, elas (as florestas de outros países) podem acabar também.
Stine argumenta ainda que muitos incêndios são provocados por atividades humanas e ocorrem em determinadas propriedades, “gosto de mostrar que há uma relação muito específica acerca dessa cobertura florestal e a posse da terra. Primeiro, é preciso saber que os incêndios são antropogênicos, que são feitos por humanos e após esses incêndios, pode haver uma mudança na titularidade da terra. Essa questão se conecta ao debate no Brasil sobre o marco temporal, que se refere às regras sobre a posse e os direitos territoriais. Ou seja, as dinâmicas de incêndios e propriedade estão interligadas e afetam a gestão da terra”.
A pesquisadora, agora, se reúne com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) para conhecer um pouco mais sobre o trabalho realizado por eles. Em seguida, ela se junta a outros pesquisadores internacionais e com o Departamento de Antropologia da UFRJ para realizar essas pesquisas e contribuir para que a população brasileira encontre uma solução mais rápida para os dilemas vivenciados em uma das florestas mais famosas do mundo.



