Da esquerda para a direita: Luciano Vidigal, Luciana Bezerra e Marcello Melo. Foto: Luna Cofré
Por Carolina Ernesto Coelho
No domingo passado, dia 6 de outubro, aconteceu no Rio Market, evento de mercado do Festival do Rio, uma palestra sobre a história de sucesso do Nós do Morro, associação cultural sem fins lucrativos. O ator e jornalista Guti Fraga, em 1986, idealizou o projeto de realizar um teatro da e na comunidade para a comunidade. Detectou a necessidade da arte na favela do Vidigal e fundou o grupo com Luiz Paulo Corrêa e Castro, dramaturgo, Fernando Mello, cenógrafo e Fred Pinheiro, iluminador.
A mesa da palestra composta por Luciano Vidigal, Luciana Bezerra e Marcello Melo, frutos desse trabalho que segue mudando vidas, compartilharam um pouco de suas trajetórias. O grupo mudou não apenas suas vidas, mas a de suas famílias, além da autoestima da comunidade.

Luciana Bezerra, atriz, diretora, cineasta, roteirista, sócia e professora do Nós do Morro, há 31 anos na associação, relatou “Em 1986, inaugurava a peça “Encontros”. Eu tinha, então, 11 anos de idade e era plateia de Encontros. E ser plateia de “Encontros” mudou totalmente a minha vida. O advento de você fazer um teatro onde as pessoas vão se sentar na plateia e vão ver uma história que diz respeito a si. Porque encontros era uma crônica do cotidiano vidigalense em 1986, que era o que eu assistia na plateia.”

Ator e cineasta, Luciano Vidigal também contou ter sido objeto de transformação do Nós: “Eu tinha 10 anos e minha mãe era empregada do Otávio Muller. E aí, eu já fiquei encantado vendo o Otávio Müller no quarto dele decorando um texto pra uma novela da Globo, falando sozinho, criando um personagem. Uma loucura que me encantou. E aí eu falei: mãe, quando eu crescer, eu quero ser igual o patrão da senhora.”
Descobriu que, ao lado de sua casa, existia o Nós do Morro, e quis fazer teatro, experimentar. Segundo ele, a arte ensina que a relação é horizontal e lhe ensinou o orgulho de suas origens. A arte é muito poderosa e não só forma artistas, como forma plateia.

Atual diretor executivo do Nós do Morro, ator, poeta, compositor e músico, Marcello Melo mudou-se para o Vidigal em 1996, quando o Nós do Morro completava 10 anos. Oriundo da baixada Fluminense, de Nova Iguaçu, pai solo de dois filhos, conheceu o teatro Nós do Morro e o Guti, quando tinha 24 anos. Foi nesse contexto que se reconheceu como cidadão, homem negro e artista.
“E quando eu chego no Vidigal, achando que eu ia encontrar várias barreiras, várias soluções me foram apresentadas. Um pai solo, com dois filhos, numa favela, pensando como eu vou criar dois filhos numa favela que eu não conheço. E aí entra o Nós, que também serviu como uma creche. Meus filhos ficavam lá, o que me dava muito segurança de tê-los ali. E o Nós do Morro pra mim foi isso: um abrigo.”
Luciana pontuou também a necessidade de fazer a ideia dar certo e a importância da continuidade para obter o sucesso. A equidade é um dos princípios do Nós, pois trabalham com alunos de todos os tipos, com histórias diferentes, com caminhadas diferentes, aprendizados diferentes e com dificuldade de aprendizado.
Um grupo que há 38 anos oferece aulas de todas as artes de graça, com pouca ajuda financeira, deveria, segundo ela, ser um patrimônio material da cidade. Pessoas da baixada, da zona norte e de diversas partes da cidade procuram o Nós do Morro para fazer aula, não apenas pelo fato de terem ensino de excelência, mas sim porque é gratuito. E apesar do êxito, não há incentivo do Governo.
Ela completa: “E ainda hoje, quando a gente senta pra conversar com os financiadores, muitas vezes, é dito: mas o que vocês ganharam de expertise? E nós dizemos: ganhamos multiplicação, damos aulas, passamos saberes, que é algo que todo mundo aqui sabe que não tem retorno financeiro. Educação é me ver no lugar que eu ocupo hoje. Educação é ver o Marcello, é ver o filho dele na novela das oito. É ver o Juan Paiva fazendo todos os filmes nacionais. É ver o Babu com um monte prêmio.”

Os fundadores, voluntários, professores, diretores acreditaram que era possível transformar a realidade da favela do Vidigal, seguiram acreditando e, é por isso que estão há quase quatro décadas modificando o sistema. Muitas foram e são as dificuldades, os percalços no caminho para construir essa história que abraça o poder da arte. No palco não há julgamentos.
A vontade de construir um futuro melhor para os cidadãos do Vidigal e para àqueles que nascem com pouco acesso permanece viva. Ter três protagonistas, na atual novela da Globo, advindos do Nós do Morro, é o resultado da mudança acontecendo, da arte como grande metamorfose da vida.
