Foto Capa: reprodução/Google Maps
Por Anna Beatriz Lustosa Beleli
Dia 9 de abril, o Brasil celebra o Dia da Biblioteca, data instituída pelo Decreto nº 84.631, de 1980, com o objetivo de valorizar espaços de acesso à informação, à cultura e à cidadania. Mais do que locais que abrigam livros, as bibliotecas desempenham um papel essencial na preservação da memória coletiva e na promoção da inclusão social. Esse cenário se reflete na Biblioteca Machado de Assis, localizada no Sesc Botafogo, no entorno da faculdade FACHA.
Para compreender melhor o funcionamento do espaço e a relevância da data, foram ouvidas duas profissionais que atuam diretamente na biblioteca: Eliana Souza Costa e Andréa de Oliveira, responsáveis por diversas funções no local.
Segundo as entrevistadas, a Biblioteca Machado de Assis é fruto de uma parceria entre o Sesc RJ (Sistema Fecomércio RJ) e a Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria Municipal de Cultura. Ela ocupa o atual espaço desde 1969, tendo passado a ser administrada pelo Sesc em julho de 2024.
No contexto institucional, Andréa destaca que a biblioteca tem como principal função fomentar a leitura e valorizar a arte e a educação por meio de experiências diversas, como oficinas e atividades culturais. Ela ressalta ainda que o espaço funciona como um ponto de encontro entre diferentes culturas e comunidades, promovendo a circulação cultural.
Eliana complementa ao afirmar que as bibliotecas integram um dos pilares culturais do Sesc, estando presentes em 23 unidades, incluindo as bibliotecas móveis. Para ela, o serviço desempenha um papel fundamental na mediação e no estímulo à leitura, além de atuar como um importante canal de divulgação cultural.
O público que frequenta a biblioteca é bastante diverso. Andréa explica que isso varia de acordo com a programação, mas inclui desde pessoas em situação de rua, que utilizam os computadores, até estudantes e pesquisadores que frequentam o espaço diariamente para estudar e trabalhar. Ela também observa a presença de visitantes curiosos que acabam se tornando frequentadores assíduos após conhecerem os serviços oferecidos.
Já às sextas-feiras, o público infantil ganha destaque com as atividades de contação de histórias, que também atraem familiares, como pais e avós.
Ao refletir sobre a importância do Dia da Biblioteca, Andréa considera a data mais do que simbólica, especialmente em um contexto de redução desses espaços. Para ela, ter uma biblioteca de bairro é um privilégio, pois oferece não apenas acesso a livros físicos, mas também oportunidades de convivência, estudo e troca social.
Em uma época em que a cultura e a leitura são, segundo ela, frequentemente desvalorizadas, a existência desses espaços torna-se ainda mais significativa. Eliana reforça essa visão ao relacionar a leitura à formação crítica, afirmando que o incentivo à leitura amplia horizontes e contribui para a autonomia intelectual.
Entre os principais desafios enfrentados pelas bibliotecas atualmente, Andréa aponta a necessidade de atrair e fidelizar o público. Segundo ela, é fundamental investir em atividades que despertem interesse e garantam a permanência dos frequentadores. Além disso, destaca a importância de manter um acervo atualizado e atrativo. Ela também contesta a ideia de que o livro físico está em declínio, defendendo que ele ainda possui um público fiel, motivado inclusive pela experiência sensorial da leitura.
Eliana, por sua vez, enfatiza a necessidade de recursos humanos, financeiros e estruturais para manter a qualidade dos serviços. Ainda assim, observa que a leitura de livros físicos permanece forte e que as novas tecnologias surgem como aliadas, e não como ameaças.
No campo do incentivo à leitura, Andréa destaca o projeto “Palavras que Alimentam”, uma iniciativa de mediação que busca aproximar o público do acervo. A proposta consiste na disponibilização de fragmentos de textos que, ao serem lidos, despertam o interesse dos leitores, incentivando o empréstimo dos livros. Segundo ela, o projeto tem obtido resultados positivos, ao criar conexões espontâneas entre os leitores e as obras.


A biblioteca também desempenha um papel importante na inclusão social. Andréa ressalta que o espaço é aberto a todos, independentemente de vínculo com o Sesc, e conta com um acervo diversificado, incluindo livros em braile e recursos tecnológicos adaptados para pessoas com deficiência visual ou dificuldades de leitura. Eliana acrescenta que, embora a acessibilidade ainda esteja em desenvolvimento, já há avanços significativos, com equipamentos e materiais voltados para esse público.
As duas profissionais também relatam experiências que evidenciam o poder transformador da leitura. Andréa lembra de casos em que frequentadores conseguiram aprovação em concursos públicos após utilizarem bibliotecas como espaço de estudo, retornando posteriormente para agradecer.
Eliana menciona a trajetória de um frequentador em situação de rua que passou a se envolver com atividades da biblioteca, demonstrando potencial de mudança.Ela também recorda um caso anterior, em São João de Meriti, de um catador que se tornou leitor assíduo e, posteriormente, conseguiu transformar sua realidade por meio do acesso à leitura.
Ao falar sobre obras marcantes, Eliana cita títulos como Eu Sou Malala, Capitães da Areia e O Alienista, destacando o impacto dessas leituras em sua formação pessoal e crítica. Andréa, por sua vez, menciona autores como Machado de Assis e Pedro Bandeira, ressaltando que a relação com a leitura é um processo contínuo de amadurecimento, no qual o leitor evolui ao longo do tempo.
Diante de todos esses relatos, o Dia da Biblioteca revela-se mais do que uma data comemorativa. Trata-se do reconhecimento de um espaço de aprendizado, transformação, convivência e construção de conhecimento. Mais do que um ambiente de leitura, a biblioteca se afirma como um verdadeiro espaço de vida.



