O calcanhar de Aquiles da IA: energia e água limitam o futuro da inteligência artificial  

Foto Capa: Data center da Meta em Indiana, EUA (créditos: Divulgação/Meta)

Por Rodrigo Modenesi 

A cada dia mais pessoas utilizam profissionalmente as ferramentas de IA em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as grandes empresas de tecnologia anunciam, a cada mês, o lançamento de um novo modelo de inteligência artificial mais preciso e eficiente que o anterior. Mas o que muitos não sabem é que uma barreira se impõe, silenciosa e implacável, nos bastidores deste mercado em expansão. 

O aumento da demanda global pelo uso de IAs já produz lentidão de resposta e travamentos nos sistemas, sobretudo em horários de pico. Os usuários comuns começam a sentir na própria pele, ou, mais precisamente, nas telas dos seus celulares e computadores, esse efeito colateral que reflete a necessidade da expansão dos data centers. É o mesmo fenômeno que paralisava o acesso à internet nos anos 1990, quando os servidores eram insuficientes para a demanda que crescia exponencialmente. Mas de fenômeno nostálgico e inofensivo a crise atual tem apenas a aparência. 

As máquinas que sustentam esse avanço tecnológico estão sedentas por energia elétrica e água tratada. A IA, essa entidade etérea que parece viver nas “nuvens”, afinal tem um corpo físico muito concreto: os data centers, que abrigam os grupos de computadores que processam as perguntas e fornecem as respostas aos usuários. E esse corpo está com seu desenvolvimento ameaçado. 

O aumento da demanda e a crise no fornecimento de energia para os data centers  

A Agência Internacional de Energia (AIE) registrou em 2025 que o consumo de eletricidade dos data centers saltou 17% em relação ao ano anterior. Com isso, o gasto específico dos data centers voltados para IA cresceu mais rápido do que o crescimento global do consumo de energia, que foi de apenas 3% no mesmo período. A projeção atual da AIE é de que o uso global de energia elétrica por data centers de IA poderá triplicar até 2030.  

Nos Estados Unidos, os data centers respondem por aproximadamente 50% de todo o aumento da demanda de eletricidade do país em 2025. A PJM Interconnection, a maior operadora da rede elétrica americana, que serve mais de 65 milhões de pessoas em 13 estados, estima que estará com seu sistema de distribuição totalmente saturado e abaixo do nível de confiabilidade em 2027. Para se ter uma noção do tamanho do problema, um único data center de IA de grande porte (Data Center Hyperscale de IA) consome entre 100 e 650 megawatts de energia, podendo chegar ao equivalente do consumo elétrico de até 500 mil residências. 

O custo da eletricidade nos EUA, em algumas regiões próximas a grandes concentrações de data centers, chegou a subir 267% desde 2020, um choque que, embora amortecido pelas tarifas reguladoras estaduais, já pressiona as contas domésticas e gera endividamentos das famílias. Como reação, em onze estados americanos, moradores e políticos de espectros opostos, do senador Bernie Sanders do Partido Progressivo de Vermont ao governador republicano Ron DeSantis, travam uma batalha comum contra a instalação indiscriminada de novos data centers em suas jurisdições.  

Ao mesmo tempo, os projetos de expansão de data centers de IA nos EUA aguardam aprovação numa fila por fornecimento de energia. As filas por energia elétrica acumulam mais de 2.100 gigawatts de demanda de consumo e superam hoje a capacidade total instalada do país. Estima-se que entre 30% e 50% dos data centers planejados para entrar em funcionamento em 2026 deverão ser instalados apenas em 2028 ou depois, simplesmente porque não há energia disponível para alimentá-los dentro dos EUA.   

Na Europa, o cenário não é menos preocupante, embora por razões distintas. A política de muitos países europeus de resistência à expansão da energia nuclear, a única fonte capaz de oferecer geração em grande escala atualmente na região, reduz dramaticamente a oferta de eletricidade disponível para a expansão de data centers. 

Como um sintoma desta busca por mais energia, a AIE registra que as grandes empresas de tecnologia já respondem por cerca de 40% de todos os contratos corporativos de compra de energia elétrica no mundo todo.   

A construção de usinas nucleares privadas para as big techs 

Diante da incapacidade da rede elétrica pública de suprir sua demanda, as big techs estão financiando o desenvolvimento e a construção de uma nova geração de usinas nucleares privadas, num movimento sem precedentes na história da energia. Neste novo cenário, o estado aparece apenas como regulador e concedente de licenças e não mais como o operador ou financiador principal. 

Essas novas usinas nucleares privadas devem utilizar reatores modulares compactos, chamados em inglês de Small Modular Reactors (SMRs). São vasos de usinas nucleares de pequeno e médio porte, com potência geralmente abaixo de 300 megawatts, que podem ser fabricados em série e montados no local de instalação. Com eles, chegaremos à era das usinas nucleares modulares pré-fabricadas.  

Conjunto de Small Modular Reactors SMR (créditos: Agência Câmara de Notícias)

Ao contrário das usinas nucleares convencionais, que são construídas inteiramente no canteiro de obras e levam décadas para ficar prontas, a ideia é que sejam mais rápidas de construir, mais baratas e transportáveis, garantindo flexibilidade geográfica. Essas usinas devem ser instaladas próximas aos data centers para garantir o fornecimento contínuo e estável de energia necessário ao funcionamento dos equipamentos. 

Empresas como Kairos PowerX-energyTerraPower e NuScale nos EUA são startups, ou empresas de capital misto, que desenvolvem projetos de SMRs com financiamento privado, muitas vezes com aporte direto das próprias big techs. A Microsoft, por exemplo, firmou um acordo com a Constellation Energy para reativar e expandir a usina nuclear de Three Mile Island, no estado da Pensilvânia, exclusivamente para abastecer seus data centers. A Google fechou um contrato com a Kairos Power para comprar energia de SMRs que ainda serão construídos. A Amazon fez o mesmo com a X-energy. Ironicamente, a demanda energética das IAs está se tornando o maior motor de investimento privado da indústria nuclear mundial. E com isso, o risco de acidentes nucleares pode se multiplicar. 

A crise hídrica e a resistência das comunidades 

Além de energia elétrica, os data centers consomem um recurso ainda mais precioso e politicamente delicado: água doce tratada. E consomem também em grandes quantidades. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers utilizam cerca de 560 bilhões de litros de água por ano no mundo, o que equivale a aproximadamente 1,53 bilhão de litros por dia.  

Para se ter uma referência de escala: um único data center de 100 megawatts consome cerca de 2 milhões de litros de água por dia, o equivalente ao consumo diário de 6.500 residências americanas. A AIE estima que o consumo global de água dos data centers poderá chegar a 1,2 trilhão de litros por ano até 2030, mais que o dobro do volume atual.  

A água é utilizada principalmente para o resfriamento dos servidores, que geram calor em escala industrial ao processar os cálculos que sustentam cada resposta de uma IA. Parte substancial dessa água, entre 70% e 80%, se evapora no processo e não pode ser recolhida ou reutilizada. Nas regiões áridas do Oregon e do Arizona, os data centers do Google já respondem por 25% de todo o consumo de água local, enquanto agricultores deixam campos sem plantar por falta do recurso.  

No condado de Newton, na Geórgia, um único data center da Meta colocou a região no caminho de um déficit hídrico até 2030. Em Morrow County, no Oregon, a Amazon aceitou pagar US$20,5 milhões para encerrar acusações de que seus data centers contaminaram o lençol freático da região com nitratos.  

A crise hídrica gerada pelos data centers não é mais um problema futuro. Ela é presente, mensurável, está produzindo consequências concretas e provocando movimentos de resistência social. Uma coalizão de 230 grupos ambientais pediu a paralisação das construções de novos data centers nos EUA motivada pelo risco de escassez de água potável. A petição foi liderada pelo grupo Food & Water Watch e conta com a assinatura de organizações como GreenpeaceFriends of the Earth e Physicians for Social Responsibility.  

Ao mesmo tempo, pelo menos 14 estados americanos introduziram projetos de lei de moratória em 2026, que propõem a suspensão temporária da emissão de licenças de construção de novos data centers, enquanto o estado realiza estudos de impacto ambiental. A ONG EthicalGEO estima que, em 2025, 48 projetos de data centers foram bloqueados ou atrasados pela oposição local, gerando o embargo de US$156 bilhões em capital de investimento das empresas de tecnologia.  

O terceiro mundo como solução para os problemas dos países ricos 

Diante deste quadro de escassez de recursos hídricos e energéticos nos países ricos e de abundância de dólares para utilizar na expansão da estrutura física, as big techs voltaram seus olhos para o Sul Global. Microsoft, Amazon, Alphabet, Oracle e Meta já investiram quase US$400 bilhões em 2025 em infraestrutura de data centers no mundo e o Brasil desponta como receptáculo prioritário de parte crescente desse capital. As estimativas para o país chegam a US$92 bilhões em investimentos no setor entre 2025 e 2031.  

Projeto do Scala Al City, “cidade” de servidores que será construída em Eldorado do Sul (RS) (créditos: divulgação/Scal)

A lógica é cristalina e impiedosa: o país possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável, enorme disponibilidade hídrica e posição geográfica estratégica no tráfego internacional de dados, tornando-o uma espécie de “hospedeiro ideal” para os data centers. 

Além disso, a política fiscal brasileira torna os projetos financeiramente interessantes. O Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter), criado pelo governo Lula em setembro de 2025, tem como objetivo estimular a instalação e a expansão de data centers no país, atraindo investimentos estrangeiros para o setor.  

Com o Redata, as empresas estrangeiras contam com a suspensão de tributos para a importação de equipamentos e componentes eletrônicos necessários para a construção dos data centers. Em troca dos benefícios, as empresas assumem poucos compromissos, como por exemplo, uso de energia de fonte limpa, como hidrelétricas, ou renovável, como solar e eólica. Na prática, isso significa que os data centers estarão disputando a compra de energia no mercado interno, aumentando a demanda e elevando o custo da eletricidade.  

Projeto do data center da RT-One em Maringá (PR) (créditos: divulgação/RT-One)

No entanto, o ponto mais frágil da legislação é justamente o que ela não contempla: não há nenhuma cláusula de transferência de tecnologia. Ou seja, o país não vai se beneficiar tecnologicamente com a presença dos data centers. Seremos meros hospedeiros destas estruturas que consomem energia elétrica e recursos naturais em larga escala para processar dados que servirão, em sua esmagadora maioria, a empresas e usuários estrangeiros. 

O Redata perdeu validade em fevereiro de 2026 sem ter sido votado pelo Congresso. Mas, os modelos de legislação para data centers estrangeiros atualmente em discussão reproduzem a mesma base do Redata. Não há uma cláusula robusta de transferência de tecnologia, ou dispositivos que tornem essa hospedagem minimamente favorável do ponto de vista ecológico, ou econômico e social para o país. 

Organizações da sociedade civil já vinham se posicionando contrariamente ao Redata por suas implicações socioambientais. A Data Privacy Brasil, por exemplo, publicou nota técnica apontando que o projeto de lei não contém nenhuma exigência de transparência ativa sobre o consumo de energia e de água dos data centers instalados, o que compromete o monitoramento sobre os impactos ambientais desses empreendimentos.  

É bastante preocupante que o país seja apresentado como o grande polo de integração de soluções digitais globais pelo governo federal sem que se debata com atenção a questão da soberania sobre os recursos naturais que os data centers irão consumir, recursos que não são renováveis em curto e médio prazo. É importante lembrar que a água do sistema hídrico do país não é infinita. A matriz hidroelétrica nacional já sofre pressão de demanda sazonal devido aos eventos climáticos extremos de seca. Importar a crise ambiental e energética da IA para o Brasil, sob o rótulo de “investimento estrangeiro”, merece, no mínimo, uma discussão nacional à altura da magnitude da decisão. 

Sistema Cantereira (SP) afetado pela crise hídrica entre 2014 e 2016 (créditos: T&D Sustentável)

A conta que o futuro apresentará 

O que a crise de infraestrutura da IA revela, em última instância, é que a corrida pela expansão da rede e pelo desenvolvimento de modelos cada vez mais poderosos avançou com uma aceleração que sua própria sustentação material não consegue acompanhar. As big techs, que hoje investem centenas de bilhões de dólares em sua ampliação, o fazem sabendo que enfrentam um limite concreto: não há rede elétrica suficiente e não há água disponível na escala que o avanço das IAs exige. 

A solução sustentável não virá da exportação do problema para países com recursos mais abundantes e regulação mais frouxa. Ela exige que as empresas desenvolvedoras de IA, as mesmas que acumulam valorização de mercado na casa dos trilhões de dólares, destinem parte de seus orçamentos para a pesquisa e o desenvolvimento de formas radicalmente mais eficientes de sustentar sua infraestrutura física. Como por exemplo: chips de memória que consumam menos energia por operação e sistemas de resfriamento que não evaporem água (sistemas de resfriamento de loop fechado). 

Enquanto o futuro não chega, o presente cobra seu preço. E a conta da IA não se paga apenas em dólares, paga-se também em kilowatts, em litros de água e em terras áridas que agricultores deixaram de plantar. A inteligência artificial é, sem dúvida, uma extraordinária ferramenta que a humanidade criou. Mas essa ferramenta tem um custo igualmente extraordinário. E a primeira condição para administrá-lo é ter a coragem de enxergá-lo e buscar soluções inteligentes e sustentáveis.   

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