Projeto Tamar: Preservação e Conscientização 

Foto Capa: reprodução/Projeto Tamar

Por Clara Jares

Celebrado anualmente no dia 23 de maio, o Dia Mundial da Tartaruga é uma data dedicada a aumentar a conscientização sobre a conservação das tartarugas e seu papel crucial nos ecossistemas. Esta iniciativa global foi lançada nos anos 2000 pela American Tortoise Rescue, uma organização dedicada à proteção de todas as espécies de tartarugas. 

Importância das Tartarugas 

(créditos: reprodução/Getty Images)

As tartarugas desempenham um papel vital nos ecossistemas aquáticos e terrestres. Elas ajudam a manter o equilíbrio das cadeias alimentares, controlando a população de plantas aquáticas e de pequenos invertebrados. Algumas espécies de tartarugas marinhas, como a tartaruga-verde, são essenciais para a saúde dos recifes de corais, pois se alimentam de algas que, se não controladas, podem sufocá-los. 

E apesar de sua importância ecológica, as tartarugas enfrentam inúmeras ameaças. A destruição de habitats devido à urbanização, a poluição, a captura acidental em redes de pesca e o comércio ilegal são alguns dos principais perigos que colocam essas criaturas em risco. Além disso, o aquecimento global afeta a temperatura da areia onde as tartarugas marinhas depositam seus ovos, influenciando a proporção de nascimentos de machos e fêmeas. 

O projeto Tamar

(créditos: reprodução/Paraybano)

A Fundação Projeto Tamar atua no litoral brasileiro desde a década de 80 com a missão de promover a recuperação das tartarugas marinhas, através de ações de pesquisa, conservação e inclusão social. 

É uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos e co-executora da PAN – Plano Nacional de Ação para a Conservação das Tartarugas Marinhas no Brasil do ICMBio/MMA, sendo responsável por grande parte das ações previstas. 

Está presente em 23 localidades distribuídas em oito estados brasileiros, entre zonas costeiras e ilhas oceânicas: Rio Grande do Norte, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Desenvolve ações de pesquisa, manejo e proteção das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil, além de atividades de envolvimento comunitário, inclusão social, sensibilização da cultura local e geração de oportunidades de trabalho e renda. 

Como resultado desse esforço contínuo vem obtendo conquistas importantes: recuperação das populações comprovada, ampliação do conhecimento científico, apoio das comunidades litorâneas que cessaram o uso direto das tartarugas passando a protegê-las, sensibilização e apoio da sociedade em geral e a geração de recursos próprios (sustentabilidade). 

Pesquisa Aplicada 

(créditos: reprodução/Projeto Tamar)

As tartarugas marinhas são conhecidas pela grande capacidade migratória, com um ciclo de vida complexo e de longa duração. Durante a sua vida utilizam diversas áreas no oceano, é fácil encontrar as fêmeas quando estão nas praias depositando seus ninhos, mas quando partem de suas áreas de desova, vão para locais muito distantes, centenas ou milhares de quilômetros de distância. Seu comportamento ainda é um mistério para pesquisadores do mundo inteiro. A maioria do conhecimento até agora foi gerado através das fêmeas adultas nas praias, mas as outras fases de vida da tartaruga, como filhotes e juvenis, se sabe muito pouco. Sobre os machos adultos, que nunca saem da água, há ainda mais perguntas que respostas.  

Para estudar as tartarugas marinhas é necessário identificá-las. Todos os animais que os pesquisadores encontram recebem uma marca metálica nas nadadeiras dianteiras para identificação (a tartaruga-de-couro é marcada nas nadadeiras traseiras). Nesta marca há um número de identificação e o endereço de correspondência com a Fundação Projeto Tamar (FPT).  

A união do conhecimento científico juntamente com a vivência dos pescadores, que já conheciam as tartarugas marinhas lá na década de 80, caminhou lado a lado ao longo dos anos de atuação do Projeto Tamar a favor da conservação marinha. As pessoas que fazem o trabalho matinal de monitorar as praias são carinhosamente chamadas de “tartarugueiros”.  

A aplicabilidade do conhecimento gerado na pesquisa realizada durante o monitoramento das populações em prol da conservação é benéfica e tem resultados positivos alcançados ao longo das últimas décadas. Houve uma recuperação das populações, mas, mesmo assim, não tem garantia de que as tartarugas estejam livres da extinção, pois ainda há ameaças reais que pairam na questão da conservação das tartarugas marinhas e dos oceanos. Nestas mesmas décadas, o litoral brasileiro se transformou, a indústria da pesca cresceu e se modernizou, e muitas praias antes desertas estão urbanizadas. 

Na década de80, eram as fêmeas e os seus ovos que estavam sob ameaça. Através do monitoramento e proteção dos ninhos nas praias de desova que se passou a conhecer mais sobre elas. A partir da contagem do número de ninhos nas praias a cada temporada reprodutiva, podemos saber se as populações estão crescendo ou diminuindo. Neste breve período que saem da água para depositarem seus ninhos é a oportunidade que os pesquisadores têm para coletar seus dados biológicos e assim aprender sobre sua biologia. Atualmente, com o avanço das pesquisas genéticas e de isótopos, muito se pôde saber sobre a vida de uma tartaruga a partir de um fragmento de seu tecido. 

As fêmeas sobem à praia geralmente à noite. Nas praias continentais isto ocorre entre os meses de setembro a março, já nas ilhas oceânicas, de janeiro a junho. Cada trecho de praia é percorrido logo no início do dia por equipe treinada para identificar os ninhos. Assim, todas as atividades da noite anterior são registradas. Como as tartarugas são animais de ciclo longo de vida, o monitoramento de suas atividades só trará resultados se for feito por grandes períodos de observação. Uma tartaruga atinge sua maturidade entre 15 e 30 anos de idade. 

Na fase de vida em que as tartarugas passam no mar, as pesquisas são voltadas para entender as causas que as levam a ser capturadas em uma determinada modalidade de pesca e buscar formas para reduzir essa captura. 

Estudar tartarugas no mar normalmente é trabalhoso e custoso, pois requer um monitoramento que é quase todo realizado no mar, muitas vezes junto às atividades pesqueiras, com os técnicos embarcados (observadores de bordo). Mais uma vez é possível transferir conhecimento entre pesquisadores e pescadores, que são orientados a salvar as tartarugas que ficam presas nas redes de espera, cercos, currais e outros apetrechos de pesca. 

  • Prestação de Serviço 

Para monitorar as ocorrências das tartarugas marinhas, protegê-las e mitigar as diferentes ameaças, a Fundação Projeto Tamar aplica uma metodologia de trabalho que reúne ações integradas de pesquisa científica, conservação e manejo, sensibilização, envolvimento comunitário e educação ambiental. 

A prestação de serviços é uma das formas de captação de recursos para viabilizar e manter os objetivos institucionais. Estes recursos são integralmente direcionados à pesquisa e conservação das tartarugas marinhas e aos programas socioambientais realizados pela Fundação. 

Interação com a Pesca 

(créditos: reprodução/Portal Pesca Amadora Esportiva)

O Projeto Tamar iniciou a proteção das tartarugas marinhas em terra, nas áreas da desova, na década de 80. A partir dos anos 90, com a criação das primeiras bases de pesquisa em áreas de alimentação, começou a ser trabalhado de forma mais intensa com a captura incidental de tartarugas nas diferentes modalidades de pesca. 

Em 2001, iniciou o Programa de Interação Tartarugas Marinhas e Pesca, cujo objetivo maior é reduzir a captura inicial e a morte desses animais que interagem com atividades pesqueiras. Possui cinco objetivos específicos: 

1. Monitorar a interação das tartarugas marinhas com a pesca;  

2. Desenvolver e apoiar pesquisas acerca da interação das tartarugas marinhas com a pesca;  

3. Avaliar as medidas mitigadoras existentes, desenvolver novas medidas e fomentar a implementação junto à frota pesqueira comercial;  

4. Apoiar ações que visem o desenvolvimento da pesca responsável e  

5. Apoiar a criação e participar dos fóruns pertinentes ao tema captura incidental de tartarugas marinhas. 

Telemetria 

(créditos: reprodução/Projeto Tamar)

São as ferramentas de estudo que se utilizam de tecnologias para o acompanhamento dos deslocamentos dos animais. Entre estas técnicas temos o rastreamento por satélite. A partir do final dos anos 80 com o desenvolvimento de transmissores resistentes à água salgada do mar e capazes, também, de resistir à pressão dos mergulhos das tartarugas, o equipamento passou a ser utilizado em vários grupos de pesquisadores, que estudam tartarugas ao redor do mundo. 

Foram realizados em 2001 os primeiros estudos utilizando telemetria satelital, com o estudo das tartarugas verdes na costa oceânica do Ceará. Desde então, várias pesquisas foram realizadas ao longo destas duas décadas. Os resultados revelaram informações sobre as rotas de migração, quais seriam as áreas de alimentação e o comportamento das tartarugas marinhas. 

Inclusão Social 

(créditos: reprodução/Projeto Tamar)

Um dos pilares para a sustentabilidade do programa de conservação marinha da Fundação Projeto Tamar é a interação constante com as comunidades costeiras onde atua. Isso porque, desde o início, a equipe compreendeu que é preciso cuidar das pessoas, para promover uma transformação de hábitos e assim, assegurar a proteção das tartarugas marinhas. Além disso, o conhecimento tradicional das comunidades somado aos estudos realizados pelos pesquisadores pode aumentar de forma significativa a eficiência das ações realizadas. 

As populações locais são essenciais no processo, na medida em que podem interferir diretamente nas condições do habitat desses animais, reduzindo a pressão sobre os ecossistemas e as espécies. Por isso, nas localidades onde está presente, foram desenvolvidas diversas atividades que visam a inclusão social e o envolvimento comunitário. 

Aliadas às campanhas e ações educativas são criadas alternativas de geração de trabalho e renda para as comunidades locais, oferecidas possibilidades de capacitação, oportunidades para mulheres nas confecções de produtos Tamar, apoiados grupos de artesanato e outras iniciativas. Também são incentivadas e apoiadas as práticas de manifestações e expressões das culturas locais e regionais. 

Educação Ambiental 

(créditos: reprodução/ Projeto Tamar)

Sensibilizar as comunidades litorâneas e a sociedade para que se tornem aliadas na conservação das tartarugas marinhas e seus habitats tem sido uma ação contínua da Fundação Projeto Tamar. Diferentes estratégias, instrumentos e ações considerando as especificidades de cada localidade e os principais desafios e ameaças à sobrevivência das espécies são executadas nos centros de visitantes e nas comunidades litorâneas das áreas de atuação. 

São realizadas as campanhas Nossa Praia é a Vida, Nem Tudo que Cai na Rede é Peixe, atividades junto a escolas, e outras como Biólogo por um Dia, gincanas e mutirões de limpeza de praias. Também são estratégicas as ações direcionadas a crianças, adolescentes e jovens. Por isso, a formação de novas gerações que sejam protagonistas na proteção das tartarugas e da biodiversidade marinha é uma das prioridades dos programas de sensibilização e educação ambiental desenvolvidos. 

Resultados 

(créditos: reprodução/Projeto Tamar)

As populações de tartarugas marinhas estão se recuperando. Após 40 anos de atividade no Brasil, o Projeto Tamar já colhe os primeiros frutos do seu trabalho. Quatro estudos científicos, com análise de dados de mais de 15 anos, revelaram tendência de recuperação das populações de quatro das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil:  

  • Tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta),  
  • tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata),  
  • tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) e  
  • tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea).  

As pesquisas também indicam que a população da tartaruga-verde (Chelonia mydas) está estável. Esses estudos foram publicados em revistas internacionais de grande relevância científica e também apresentados em simpósios e congressos. 

Os resultados alcançados até aqui são derivados dos esforços contínuos de conservação e pesquisa, das atividades de sensibilização e de educação ambiental desenvolvidas nas bases e centros de visitantes, em associações de pescadores, empreendimentos e programas realizados com as comunidades locais do entorno das praias de desova e de alimentação.  

As respostas das populações de tartarugas marinhas ao programa contínuo de conservação são graças ao apoio e envolvimento de toda a sociedade. As comunidades costeiras mudaram o comportamento ao longo dos anos e passaram de predadores a aliados. E a sociedade, de forma geral, também está sensibilizada e aliada à causa conservacionista. Os centros de visitantes e as bases de pesquisa recebem cerca de 1 milhão visitantes/ano, num sinal de adesão e comprometimento com a sobrevivência desses animais. 

Apesar dos resultados positivos, todas as 5 espécies ainda estão ameaçadas de extinção, sendo necessário continuar o trabalho frente aos novos desafios. As fêmeas e desovas das tartarugas marinhas não são mais alvos de intenso uso direto. Hoje, as ameaças estão associadas principalmente às capturas não intencionais pelas pescarias costeiras e oceânicas, ao desenvolvimento costeiro (iluminação artificial, trânsito de veículos e descaracterização das praias), à poluição marinha e às mudanças climáticas. Portanto, é necessário que, com o apoio dos diversos atores da sociedade, o Projeto Tamar mantenha os esforços de pesquisa e conservação por muitos mais anos.

Deixe um comentário