Foto capa: Portal Amazonia
Por Mariana Silvestre
Lenda popular do boto cor de rosa será transformada em documentário que investigará a cultura do estupro por trás da tradição. O projeto será realizado por companhia de teatro de Roraima e não tem data prévia de lançamento.
O segredo por trás da tradição
A tradição amazônica conta que, nas noites de lua cheia, um boto se transforma em um homem sedutor e sai dos rios atrás de mulheres bonitas durante as festas juninas. Na mesma noite, ele as engravida e depois se transforma em boto novamente antes do amanhecer. As crianças que nascem dessa relação são chamadas de “filhos do boto”, já que o paradeiro do pai se torna um mistério.
A lenda faz parte do folclore brasileiro e tem origens na mitologia indígena, porém, por mais que seja algo geracional da região, muitos defendem que o mito é uma invenção para acobertar abusos.
A psicóloga rondoniense Anne Cleyanne afirma que: “Quando começaram a explorar a Amazônia e abrí-la, foram depositados muitos homens na região. Esses homens foram com a missão de abrir o caminho, e a partir disso, quando eles começaram a violentar essas mulheres e essas crianças nasceram, houve a associação com esse paralelo do boto, e quando eles se casam, começam a abusar das próprias filhas e essas meninas engravidam, como um contrato silencioso que é mantido até hoje… Quando a menina engravida, eles vão querer colocar a culpa no boto e não no seu Manuel da padaria que é tão simpático”.

A psicóloga ficou conhecida pela sua participação no programa Domingão com o Huck em 2024, por compartilhar seu trabalho como assistente social ajudando meninas amazonenses vítimas de abuso.
O Documentário
O projeto faz parte do grupo de teatro rondonense O Imaginário, e ainda está na sua pré-produção. O filme documentará inúmeras comunidades ribeirinhas da região entre Porto Velho (RO) e Humaitá (AM) e registrará histórias, memorias e percepções das mulheres e meninas dessas comunidades sobre a lenda e dar voz as vítimas dessa violência naturalizada a gerações.
