Foto capa: Divulgação
Por Eduardo Valadão
O primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 mostrou a diversidade da programação desta edição. Ao longo de quatro dias, o público passou pelo rock, metal e pop, em uma sequência de apresentações que alternaram grandes momentos, surpresas positivas e shows que não conseguiram alcançar o mesmo impacto. Foo Fighters, Péricles, Gilberto Gil e Elton John estiveram entre os principais destaques, enquanto a chuva e algumas escolhas de programação também influenciaram a experiência do público.
O primeiro dia teve no Foo Fighters o grande momento da noite, mas a programação apresentou outros shows que merecem destaque. The Hives surpreendeu pela energia e pela interação com o público brasileiro, inclusive arriscando frases em português. No palco, a banda conseguiu criar uma atmosfera bastante participativa e deixou uma impressão positiva.
Diogo Defante também encontrou bons momentos em sua apresentação, especialmente nos covers de “Aerials”, do System of a Down, e “Like a Stone”, do Audioslave. A conclusão com “Jerry”, música de maior número de visualizações do artista, mostrou uma plateia bastante envolvida, mesmo entre quem não acompanhava seu trabalho de perto.

Já o Rise Against teve a difícil tarefa de entrar no palco Mundo depois da intensa interação promovida pelo The Hives. O repertório instrumental foi um dos pontos altos, mas o público acabou sendo menor do que o esperado.
Quem conseguiu mobilizar o público foi o Capital Inicial. Com um repertório recheado de sucessos, o grupo ganhou ainda mais força com a participação de Dado Villa-Lobos, que trouxe músicas da Legião Urbana para a apresentação. O Sunset ficou lotado e o público acompanhou de perto os comandos de Dinho Ouro Preto. O encerramento, com “Mudaram as Estações”, de Cássia Eller, foi outro momento marcante da noite.
No Palco Mundo, o Foo Fighters confirmou o status de principal atração do dia. A banda também foi uma das que mais apareceu estampada nas camisas do público. Com 19 músicas em aproximadamente duas horas, o grupo aproveitou praticamente todo o tempo disponível para tocar, seguindo a proposta de falar um pouco e entregar o máximo de música possível.
Dave Grohl mostrou novamente por que é um dos grandes nomes do rock, combinando carisma e interação com uma banda tecnológica muito segura. Mais de 13 das 19 músicas do setlist foram grandes sucessos, como “Learn to Fly” e “My Hero”, cantadas em coro pela plateia. Depois de uma breve dispersão após a música mais recente do grupo, o público voltou em peso para “Best of You” e “Everlong”. O show começou com fumaça vermelha e terminou com fogos de artifício ao som de “Everlong”. O palco foi bem aproveitado, embora as imagens no telão tenham sido exploradas de forma mais ampla durante outras partes da apresentação.

O segundo dia foi marcado pelo peso do metal. Sepultura fez seu último Rock in Rio em meio à turnê de despedida, dando um significado especial à apresentação. No Palco Sunset, Bad Omens, Poppy e Black Pantera também entregaram shows de destaque. Entre as atrações do dia, Bring Me The Horizon apareceu como um dos candidatos aos melhores shows do festival até então. Avenged Sevenfold e Machine Gun Kelly também fizeram boas apresentações, mas, na avaliação geral, não conseguiram superar o impacto causado pelo BMTH.
O terceiro dia foi marcado pela mistura de nostalgia, música pop e eletrônica, além de muita chuva. O Barão Vermelho abriu caminho com um show forte desde o início, reunindo sucessos da banda e músicas ligadas ao repertório de Cazuza.
Nelly encontrou mais dificuldades para estabelecer conexão com o público. Parte do repertório não era reconhecida pela plateia, o que provocou momentos de silêncio quando o cantor esperava que os fãs acompanhassem as músicas. A reação melhorou quando vieram canções conhecidas por outros artistas, como “Don’t Stop Believin’”, “Low” e “All I Do Is Win”. Na reta final, “Hot in Herre”, “Dilemma” e “Just a Dream” finalmente colocaram o público no clima esperado.
Jota Quest, por sua vez, conseguiu uma resposta bastante positiva ao levar Tim Maia para o palco. A seleção de músicas funcionou e manteve a plateia animada. A proposta também dialogou com outro dos grandes destaques do primeiro fim de semana: o show “Péricles canta Motown”, que aconteceria no dia seguinte.

Sob chuva, o Black Eyed Peas lotou o Palco Mundo. O grupo, que ocupou uma posição de headliner mais cedo na programação, conseguiu fazer o público cantar e pular durante boa parte do show. A energia diminuiu durante os momentos comandados por Taboo e apl.de.ap, mas voltou quando will.i.am retomou o protagonismo. A participação de Papatinho foi um dos pontos menos bem recebidos, principalmente pela nova música apresentada, que não conseguiu empolgar a plateia. O clipe produzido com inteligência artificial também dividiu opiniões.
Ne-Yo repetiu praticamente a estrutura do seu show de 2024. A decisão não comprometeu a qualidade da apresentação, que continuou funcionando muito bem, mas deixou a sensação de que algumas novidades poderiam ter sido incorporadas ao repertório e à produção.
Depois de um dia inteiro de chuva e frio, Calvin Harris conseguiu transformar o ambiente e encerrou a noite em clima de festa. O DJ foi responsável por um dos finais mais eficientes do primeiro fim de semana, fazendo o público esquecer o mau humor provocado pelo clima e fechando a noite em alta.
O quarto dia concentrou alguns dos maiores momentos do festival até então. A posição de Luísa Sonza na programação, no entanto, não favoreceu a cantora. O show teve público reduzido, enquanto uma parcela significativa da plateia já se posicionava para assistir Elton John. O cenário pode ter sido influenciado pela própria programação do dia e não necessariamente representa uma rejeição ao trabalho da artista.
O grande destaque antes dos headliners foi Péricles. Em “Péricles canta Motown”, o cantor apresentou uma proposta diferente e muito bem executada, transformando o show em um dos momentos mais fortes do primeiro fim de semana. A apresentação mostrou a força de uma seleção musical coerente com o artista e capaz de envolver o público do início ao fim.

Gilberto Gil também se destacou, especialmente pelo uso da nova tecnologia do Palco Mundo. A estrutura foi aproveitada de maneira criativa, com elementos visuais diferentes para acompanhar as músicas. Além do repertório próprio, Gil apresentou versões de músicas de Rita Lee e Skank. Aos 84 anos, o cantor fez uma apresentação que reforçou a sensação de estar diante de um artista que não precisa mais provar nada a ninguém.
Estreante no Rock in Rio, Laufey entregou carisma e competência e mostrou por que sua relação com a música brasileira pode render uma conexão especial com o público do país. A influência da bossa nova em seu trabalho ajudou a tornar a apresentação ainda mais natural para a plateia brasileira, deixando a expectativa de que a cantora ainda volte muitas vezes ao festival.
Mas o encerramento do primeiro fim de semana estava reservado para Elton John. O show mais aguardado desta edição durou mais de duas horas e teve o piano como elemento central. Mesmo depois de anunciar a aposentadoria, o artista voltou aos palcos especialmente para uma apresentação no Brasil e correspondeu às expectativas, cantando e tocando sem deixar espaço para decepções. A longa trajetória de Elton e sua relação com o público brasileiro deram ainda mais peso ao encerramento.

Ao final dos quatro dias, o Rock in Rio 2026 deixa alguns candidatos fortes aos melhores shows da edição. Foo Fighters, Bring Me The Horizon, Black Eyed Peas, Péricles, Gilberto Gil e Elton John foram alguns dos nomes que mais conseguiram marcar o primeiro fim de semana, cada um à sua maneira.
Mais do que reunir grandes atrações, a primeira metade do festival mostrou uma programação capaz de transitar entre diferentes gerações e gêneros. Entre apresentações grandiosas, surpresas positivas, escolhas questionáveis e momentos de pura celebração, o primeiro fim de semana termina com a sensação de que o Rock in Rio ainda tem muito a entregar antes do encerramento da edição.
