Por Luiza Torrão
Estudante de Jornalismo
Economia e eleição: a conta que chega a 2027
A eleição ainda nem chegou ao primeiro turno, mas uma das principais discussões de 2026 já aponta para o dia seguinte à votação: em que condições estarão as contas públicas quando começar o próximo governo?
O governo chega à reta final do mandato defendendo programas de crédito, ampliação de benefícios e medidas de estímulo à economia. Levantamento publicado pela Revista Oeste aponta que iniciativas lançadas ou ampliadas em 2026 somam R$ 256,9 bilhões entre programas sociais, linhas de crédito e medidas extraordinárias. O Executivo sustenta que essas ações estimulam a atividade econômica e podem ser executadas sem comprometer as metas fiscais. Economistas ouvidos pela publicação questionam a transparência de parte das operações e seus efeitos sobre as contas públicas.
O debate não se resume ao tamanho do gasto. Resultado fiscal, trajetória da dívida, inflação e juros se relacionam de formas diferentes e são objeto de divergência entre economistas. A discussão central é quanto espaço fiscal restará para o próximo governo e quais escolhas serão necessárias para conciliar despesas, receitas, investimentos e controle da dívida.
É nesse ponto que economia e política se encontram. Em ano eleitoral, decisões sobre benefícios, crédito, impostos e gasto público deixam de ocupar apenas as páginas de economia e passam a fazer parte também da disputa por votos.
O discurso econômico virou peça eleitoral
A campanha de Lula chega à reta final defendendo a manutenção das regras fiscais e o controle do crescimento das despesas, enquanto amplia benefícios e apresenta novas propostas econômicas.
A questão que acompanha esse movimento é como financiar essas políticas no médio prazo. Controlar o ritmo de crescimento das despesas, aumentar receitas e reduzir gastos são caminhos diferentes, e cada um deles produz efeitos políticos e econômicos distintos.
Com boa parte do Orçamento comprometida com despesas obrigatórias, a margem para mudanças também é limitada. Por isso, tão importante quanto acompanhar as promessas apresentadas durante a campanha será observar como cada candidatura pretende financiá-las a partir de 2027.
A briga pelos juros
Os juros também entraram na campanha.
José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, defendeu uma atuação do Tesouro no mercado de títulos públicos como instrumento para reduzir os juros de longo prazo.
A proposta recoloca uma discussão conhecida entre economistas. De um lado estão aqueles que atribuem maior peso ao equilíbrio fiscal e à trajetória da dívida para a redução dos juros. De outro, análises que questionam o próprio custo dos juros como um dos fatores responsáveis pelo crescimento da dívida pública.
A divergência provavelmente continuará durante a campanha. Por trás dela está uma questão que interessa diretamente ao próximo governo: como reduzir o custo do financiamento da dívida sem aumentar a percepção de risco sobre as contas públicas?
Brasília já olha para 2027
A eleição acontece em outubro, mas parte do debate econômico já está projetada para janeiro.
Gastos, impostos, juros, investimentos e o papel do Estado na economia tendem a ocupar espaço crescente na campanha à medida que os candidatos detalham seus programas.
Há uma pergunta simples que pode ajudar o eleitor a acompanhar esse debate: de onde virá o dinheiro?
Ela vale para novas despesas, benefícios, desonerações, investimentos e promessas de redução de impostos. Em algum momento, a matemática precisa fechar.
Tarcísio mantém vantagem em São Paulo
O governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparece numericamente à frente de Fernando Haddad (PT) na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Pesquisa AtlasIntel/Estadão divulgada em 3 de setembro registrou 51,1% das intenções de voto para Tarcísio e 39,9% para Haddad no cenário estimulado de primeiro turno. Carlos Machado (PCB) aparece com 1,3%; Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP), com 1% cada; e Policial Edjane (Agir), com 0,2%. Brancos e nulos somam 1,9%, enquanto 3,6% não souberam responder.
Em uma simulação de segundo turno entre Tarcísio e Haddad, o governador registra 53,2%, e o petista, 42,6%. Foram entrevistados 1.810 eleitores entre 26 e 31 de agosto. A margem de erro é de um ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o número SP-06964/2026.
Os números paulistas também são acompanhados fora do estado. Tarcísio participa das articulações nacionais da direita e governa o maior colégio eleitoral do país. Mesmo disputando a reeleição em São Paulo, seus movimentos políticos depois das urnas poderão influenciar a reorganização desse campo político para o próximo ciclo.
Money Week aproxima mercado e eleição
A Money Week 2026, realizada em Balneário Camboriú, reuniu representantes do mercado financeiro, empresários e especialistas para discutir investimentos, economia e cenário eleitoral.
Entre os participantes esteve Silvio Cascione, chefe da Eurasia Group no Brasil, que apresentou sua análise sobre as eleições e a conjuntura econômica.
A presença do tema eleitoral em um encontro voltado ao mercado financeiro ajuda a mostrar como as duas agendas estão conectadas. Investidores acompanham não apenas quem vencerá as eleições, mas principalmente quais políticas econômicas serão apresentadas para 2027.
Estatais pagam menos dividendos ao Tesouro
As empresas estatais federais pagaram R$ 10,5 bilhões em dividendos ao Tesouro Nacional entre janeiro e julho de 2026. O valor representa queda real de 58% em relação ao mesmo período de 2025 e é o menor registrado para os sete primeiros meses do ano desde 2020, segundo levantamento da Gazeta do Povo.
BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil tiveram peso importante nessa redução.
O dado merece atenção porque os dividendos pagos pelas estatais são uma das fontes de receita da União. Quando ficam abaixo do previsto, outras receitas ou medidas sobre as despesas ganham importância para o cumprimento das metas fiscais.
Fim da “taxa das blusinhas” entra na campanha
O presidente Lula sancionou em 10 de setembro o fim do Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, cobrança que ficou conhecida como “taxa das blusinhas”. A lei também reduziu de 60% para 30% a tarifa sobre mercadorias de até US$ 3 mil. As compras continuam sujeitas ao ICMS.
A cobrança federal sobre as remessas de até US$ 50 já estava suspensa desde maio, quando o governo editou uma medida provisória. A sanção transformou a mudança em lei. Entre agosto de 2024 e maio de 2026, a Receita Federal arrecadou R$ 4,5 bilhões com esse imposto.
A decisão foi oficializada a 24 dias do primeiro turno, levando novamente o tema da tributação das compras internacionais para o debate eleitoral.
NÚMERO DA SEMANA
58%
Foi a queda real nos dividendos pagos pelas estatais federais ao Tesouro nos primeiros sete meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A receita somou R$ 10,5 bilhões, o menor valor para o período desde 2020.
Mais do que um número sobre empresas públicas, o resultado ajuda a acompanhar uma questão que estará presente até o fim do ano: quanto o governo conseguirá arrecadar e qual será o resultado das contas públicas em 2026?
FRASE DA SEMANA
“Em economia, instituições são as regras do jogo.”
A frase é do economista Alan Ghani, em artigo publicado pela Gazeta do Povo.
Ao discutir a relação entre instituições e economia, Ghani argumenta que segurança jurídica, direito de propriedade e equilíbrio entre os Poderes interferem no ambiente econômico.
A frase interessa menos como diagnóstico fechado sobre o Brasil e mais como ponto de partida para uma discussão que continuará presente: de que maneira decisões institucionais influenciam expectativas, investimentos e a percepção de risco sobre um país?
Sorriso em meio à turbulência
Uma fotografia feita nos corredores do Supremo Tribunal Federal ganhou repercussão nas redes sociais nesta semana.
No registro do fotógrafo Brenno Carvalho, de O Globo, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes aparecem conversando e sorrindo.
A cena circulou em um momento de intensa exposição do STF no debate público, especialmente em razão das discussões envolvendo Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro e o Banco Master.
A fotografia não revela o conteúdo da conversa nem permite estabelecer qualquer relação entre o encontro e os acontecimentos políticos daquele dia. Foi justamente o contraste entre a descontração da cena e a tensão do noticiário que ajudou a impulsionar sua circulação nas redes.
AGENDA DA PRÓXIMA SEMANA
ROG.e coloca energia, investimentos e negócios no mesmo espaço
A ROG.e 2026 reunirá no Riocentro representantes da indústria de energia para discutir petróleo, gás, transição energética, inovação e investimentos.
O evento acontece entre 21 e 24 de setembro e será uma oportunidade para acompanhar as perspectivas do setor para os próximos anos.
IPCA-15 coloca a inflação novamente no radar
A próxima divulgação do IPCA-15 será acompanhada por economistas e investidores em busca de sinais sobre o comportamento dos preços.
Mais do que o índice cheio, vale observar a composição da inflação e os grupos que mais pressionam o indicador.
Lula abre os discursos na Assembleia-Geral da ONU
O presidente Lula participa em 22 de setembro da abertura do debate geral da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Como ocorre tradicionalmente, o Brasil será o primeiro país a discursar. Política externa, economia, conflitos internacionais e a posição brasileira diante das principais questões globais estarão no radar.
PARA FICAR DE OLHO
O que Tarcísio fará depois da eleição?
Tarcísio de Freitas disputa a reeleição em São Paulo, mas seus movimentos são acompanhados também pela política nacional.
A pesquisa AtlasIntel/Estadão de setembro registra o governador numericamente à frente de Fernando Haddad na disputa estadual. Isso, por si só, não determina o papel que Tarcísio terá depois da eleição.
Por isso, talvez seja mais interessante observar outra coisa nas próximas semanas: quem se aproxima do governador, quais alianças são construídas durante a campanha e como ele se posiciona diante das disputas internas de seu próprio campo político.
A próxima pesquisa mostrará uma fotografia do eleitorado. Os movimentos ao redor de Tarcísio poderão ajudar a contar outra história: como a direita pretende se organizar depois de 2026.
