Opinião: por que restringir estrangeiros no futebol brasileiro pode ser um retrocesso

Foto capa: Nayra Halm/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Por Carolina del Rio

Em reunião com a CBF, clubes das Séries A e B votaram a favor da redução gradual do número máximo de jogadores estrangeiros que poderão ser relacionados por jogo. A mudança está prevista para acontecer ano a ano: serão oito estrangeiros em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e, a partir de 2030, cinco. Apenas três clubes foram contra a mudança: Flamengo e Bahia, pela primeira divisão, e Londrina, pela segunda.

A decisão coloca novamente em pauta uma discussão que vai muito além de quantos estrangeiros podem entrar em campo. A ideia de reduzir esse número para abrir mais espaço aos jogadores brasileiros, principalmente aos jovens das categorias de base, pode parecer uma solução simples. Mas, na prática, a mudança pode mexer com o mercado e com a própria qualidade do campeonato.

A história recente da regra mostra como esse cenário foi mudando. Durante anos, os clubes podiam relacionar apenas três estrangeiros por partida. Em 2014, o limite subiu para cinco; em 2023, para sete; e, em 2024, chegou a nove, depois da aprovação unânime dos próprios clubes. Agora, poucos anos depois, o movimento se inverte.

Por isso, a discussão não deveria se resumir a dar ou não mais espaço aos brasileiros. A questão é entender se diminuir a presença de estrangeiros realmente ajuda a revelar e desenvolver novos talentos ou se, no fim das contas, acaba apenas fechando uma parte do mercado, aumentando os preços dos jogadores brasileiros e diminuindo as opções dos clubes na hora de montar seus elencos.

Limitar estrangeiros resolve o problema da base?

Um dos principais argumentos usados para defender a redução de jogadores gringos é a ideia de que a medida abriria mais espaço para os jovens brasileiros. Mas será que é realmente assim que funciona?

O Brasil é conhecido mundialmente por revelar grandes jogadores, mas também por vender esses talentos muito cedo. A diferença financeira entre os clubes brasileiros e os grandes mercados europeus faz com que, muitas vezes, seja difícil recusar uma boa proposta por uma jovem promessa. Para os clubes, essas vendas também representam uma importante fonte de receita, o que faz com que muitos jogadores deixem o país antes mesmo de conseguirem se firmar no futebol profissional.

Por isso, diminuir o número de estrangeiros não significa, necessariamente, que os melhores jogadores da base vão permanecer no Brasil. Se um argentino, uruguaio ou colombiano deixar de ocupar uma vaga no elenco, ela pode simplesmente ser preenchida por outro jogador brasileiro que já esteja no mercado. Enquanto isso, os jovens que realmente se destacam continuam sendo alvos dos grandes clubes europeus.

Esse cenário pode produzir um efeito diferente do esperado. Os principais talentos deixam o país, enquanto as vagas que seriam ocupadas pelos estrangeiros passam a ser preenchidas por jovens brasileiros que podem ter qualidade, mas que ainda não estão no mesmo nível dos atletas que foram vendidos. Com menos opções para contratar fora e as melhores promessas saindo cedo, o resultado pode ser uma queda no nível técnico dos elencos e, consequentemente, do próprio Campeonato Brasileiro.

Se o objetivo é realmente fortalecer a base, o caminho precisa ir além da redução de estrangeiros. É necessário investir na formação, melhorar os centros de treinamento e, principalmente, criar uma transição mais eficiente entre as categorias de base e o futebol profissional. O jovem precisa ter condições de se desenvolver antes de ser colocado diante da escolha entre permanecer no Brasil ou aceitar uma proposta da Europa.

Uma outra mudança aprovada pela CBF também tenta atacar essa questão de forma mais direta. A partir de 2027, os clubes poderão inscrever até 50 jogadores no Campeonato Brasileiro, mas uma parte deles terá que ser formada por atletas de até 23 anos. Essa exigência vai aumentar progressivamente até 2030, quando metade dos jogadores inscritos deverá estar nessa faixa etária.

A diferença é que, nesse caso, a medida cria diretamente uma obrigação para que os clubes mantenham jovens em seus elencos. Assim, a oportunidade para esses atletas não depende apenas da saída de um jogador de fora ou de uma mudança no mercado. A proposta busca fazer com que os clubes tenham espaço para quem está chegando ao futebol profissional.

Nesse sentido, também seria importante discutir a criação de algum tipo de medida que dificulte a venda de jovens talentos tão cedo. A proposta não seria impedir que esses jogadores sigam para o futebol europeu, mas permitir que tenham mais tempo para amadurecer, ganhar experiência e ajudar os clubes que participaram de sua formação.

Assim, os clubes poderiam aproveitar seus principais talentos por mais tempo, os jogadores chegariam mais preparados ao futebol europeu e o Campeonato Brasileiro conseguiria manter atletas de maior nível técnico em seus gramados.

Menos opções, preços maiores?

A presença de estrangeiros não mexe apenas com o que acontece dentro de campo. Ela também tem impacto no bolso dos clubes. Países como Argentina, Uruguai, Colômbia e Equador têm jogadores de bom nível que, em muitos casos, podem chegar ao futebol brasileiro por valores mais acessíveis do que atletas brasileiros com características semelhantes.

Quando o número de estrangeiros diminui, os clubes também passam a ter menos opções para montar seus elencos. E, quando a oferta diminui, os preços podem subir. Atletas brasileiros passam a ter mais poder de negociação, o que pode aumentar os valores de transferências e salários.

Para os clubes mais ricos, esse aumento pode ser mais fácil de absorver. Já para equipes com orçamentos menores, perder a possibilidade de buscar alternativas no mercado sul-americano pode tornar ainda mais difícil montar um elenco competitivo.

Valorizar o jogador brasileiro é importante, mas isso não significa necessariamente fechar espaço para os de fora. A ideia é que os atletas conquistem suas vagas pela qualidade e pelo desempenho, enquanto os clubes continuam tendo liberdade para procurar jogadores dentro ou fora do país.

Uma alternativa para os estrangeiros

Além das medidas voltadas diretamente para a formação de jovens, existe outro fator que pode diminuir o impacto da nova regra sobre os clubes: a naturalização desses atletas.

Jogadores estrangeiros que vivem no Brasil há tempo suficiente podem solicitar a cidadania brasileira e, depois de concluído o processo, deixam de ser considerados gringos para o limite estabelecido pela CBF. Pela legislação, a naturalização exige, em geral, quatro anos de residência contínua no país, além de outros requisitos, como conhecimento da língua portuguesa e ausência de condenação penal. O prazo pode ser menor em algumas situações específicas. É o caso de jogadores como Arrascaeta, que iniciou o processo de naturalização, e Kannemann, que já obteve a cidadania brasileira.

Com isso, alguns atletas que já estão adaptados ao futebol e à vida no país podem continuar nos clubes sem ocupar uma das vagas destinadas aos estrangeiros.

A naturalização, portanto, aparece como mais uma alternativa para lidar com a questão sem simplesmente reduzir o espaço dos jogadores de fora. Em vez de retirar atletas que já fazem parte do futebol brasileiro, a medida permite que aqueles que cumprem os requisitos passem a ter a cidadania do país e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas contratações estrangeiras.

O que realmente precisa mudar?

Se a intenção é fortalecer o futebol brasileiro, reduzir o número de estrangeiros, por si só, não resolve o problema da base. Não há uma correlação direta entre diminuir essas vagas e fazer com que os jovens permaneçam mais tempo no país, já que a saída de talentos para o futebol europeu envolve também interesses financeiros. Ao mesmo tempo, os clubes brasileiros precisam assumir sua parte, investindo na formação e criando melhores condições para desenvolver seus próprios jogadores.

Neste sentido, a exigência de atletas mais jovens nos elencos pode atingir diretamente essa questão, ao contrário da redução de estrangeiros, que apenas abre vagas. Já a possibilidade de naturalização atua em outra frente: pode diminuir o impacto da nova regra sobre os clubes, mas não resolve os desafios das categorias de base.

Se são questões diferentes, limitar estrangeiros não podem ser tratados como solução para um problema que exige investimento e responsabilidade dos próprios clubes.

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