Foto capa: O Globo
Por Maria Luiza Massa
São Cosme e São Damião pertencem à tradição católica. Eram irmãos, médicos e conhecidos como “Santos Anárgiros” por não cobrar pelo atendimento. No Brasil, em meio ao catolicismo dominante, surge o sincretismo religioso como tentativa de fugir da repressão. É nesse contexto que ocorre a associação de Cosme e Damião aos Ibejis, divindades infantis da tradição iorubá. No Candomblé, os Ibejis são representados como gêmeos e sua ligação com a infância contribuiu para que fossem aproximados, dado que esses santos católicos são considerados protetores das crianças.
De acordo com Lucas Bártolo, doutor em antropologia social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o encontro com tradições africanas reforça uma dimensão infantil.
“A associação mais conhecida é com os Ibejis, da tradição iorubá, mas é importante lembrar que povos de matriz Bantu e Jeje também têm divindades gêmeas. Além disso, embora oficialmente Cosme e Damião fossem santos ligados à medicina, na devoção popular eles já estavam associados à proteção dos partos, dos gêmeos e das crianças. No Brasil, o encontro com essas tradições africanas reforçou essa dimensão infantil: os santos médicos passaram a ser cada vez mais representados e cultuados como meninos.”, disse o doutor.
É importante, contudo, diferenciar os Ibejis dos chamados Erês. Os Erês, embora apresentem características infantis e, por isso, sejam frequentemente confundidos com os Ibejis, trata-se de conceitos religiosos distintos.

O antropólogo também destaca:
“O principal equívoco é tratar Cosme e Damião, Ibejis e Erês como se fossem simplesmente nomes diferentes para a mesma coisa. Não são. Ibejis são divindades gêmeas da tradição iorubá. Já “Erê” pode ter sentidos diferentes dependendo da tradição. Nos candomblés, é uma manifestação infantil que ocorre entre o estado de incorporação do orixá e a retomada da consciência do filho ou filha de santo. Na Umbanda, Erês também é o nome dado às ibejadas, espíritos de crianças incorporados pelos médiuns. As associações existem e são muito importantes para entender a tradição brasileira, mas não significam que essas entidades sejam equivalentes”.
Nesse princípio, os Ibejis são, na mitologia “Yorubá”, filhos gêmeos de Xangô e Iansã, considerados orixás poderosos capazes de curar e proteger crianças. Sua origem mítica está associada à cidade de Igbo-Ora, na Nigéria — que tem uma das maiores taxas de nascimento de gêmeos do mundo. E seus nomes são Taiwo e Kehinde.
Além de Cosme e Damião, a tradição popular brasileira incorporou a figura de Doum, apresentado como uma terceira criança associada aos dois santos.

Uma das lendas mais conhecidas conta que Cosme, Damião e Doum eram na verdade trigêmeos, e que a morte de Doum foi o que levou os outros dois irmãos a se tornarem médicos, curando crianças gratuitamente em sua memória. Por isso, Doum é considerado o protetor das crianças até os sete anos de idade. Essa figura também aparece na tradição do “Caruru dos Sete Meninos” (ou Caruru dos Santos), comida típica oferecida no dia 27 de setembro em homenagem aos sete irmãos: Cosme, Damião, Doum, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi.
O Caruru, costume afro-brasileiro e baiano, possui um significado importante. O quiabo, ingrediente fundamental do prato, está relacionado às tradições alimentares associadas a Xangô e Iansã. Através dele, todos os orixás se alimentam e a comida passa a significar prosperidade, fecundidade e continuidade da vida. A celebração, portanto, integra uma prática ritual que envolve oferenda e partilha.

O que acontece quando a repressão religiosa perdura?
Mesmo após o fim da escravidão, a intolerância religiosa contra crenças africanas se mantém até os dias atuais. Os africanos escravizados tiveram suas culturas e religiões reprimidas. Suas práticas eram muitas vezes classificadas pelos colonizadores como “feitiçaria”, “bruxaria” ou “superstição”. Outras vertentes seriam o racismo religioso ou a estigmatização de símbolos de Candomblé e Umbanda de maneira pejorativa. E além disso, o fortalecimento de estereótipos por falta de conhecimento.
É justamente nesse contexto que surge uma das principais razões para a recusa dos doces de Cosme e Damião por parte de alguns grupos religiosos. Para determinadas comunidades, os doces distribuídos durante as celebrações podem estar associados a oferendas ou práticas religiosas de matriz africana. A rejeição, portanto, não está necessariamente relacionada ao alimento em si, mas ao significado religioso que algumas pessoas atribuem a ele. Podendo ser por consumir uma prática de fé diferente da sua ou por acreditar que o doce possui qualquer influência espiritual negativa. Deixando em segundo plano o contexto histórico e a resistência cultural antepassada que, ao longo de gerações, encontraram formas de preservar suas tradições religiosas.
