Foto capa: Shutterstock
Por Rafael Lisboa
Era 1977 quando a Sociedade Vegetariana Norte-Americana (NAVS) decretou o dia 1º de outubro como o Dia Mundial do Vegetarianismo, sendo endossado pela União Vegetariana Internacional no ano seguinte. Contudo, ao passar dos anos, ainda que a data seja pouco reconhecida, a sociedade global passou por um aumento no número de pessoas que não ingeriam, por vontade própria, algum alimento de origem animal. Em sua maioria, são pessoas jovens, diante de razões que passam pelos direitos dos animais até a tentativa de uma melhor dieta, que pode não conter ovos, carnes, leite e derivados.
Conheça mais sobre a data
Organização fundada em 1974, a Sociedade Vegetariana Norte-Americana surgiu sem fins lucrativos para conscientizar a população estadunidense a fim de promover melhores hábitos alimentares. Além disso, a NAVS promovia anualmente discussões, envolvendo médicos, chefs de cozinha e agricultores, sobre as vantagens de uma dieta vegetariana no âmbito da saúde, junto com as preocupações relacionadas ao abate de animais para alimentar uma população.
Apesar das críticas provenientes principalmente dos conservadores residentes nos estados centrais norte-americanos e de defensores do veganismo ético, a entidade, sediada em Nova Iorque, obteve relevância entre o público jovem, que apoiou Jay Dinshah na decisão de estabelecer uma data para a causa. Em 1978, com o apoio internacional, a pauta saiu do eixo dos debates sobre os direitos dos animais nos Estados Unidos e passou a ter maior alcance pelo mundo.
Diante dos 49 anos da criação do Dia Mundial do Vegetarianismo, o reflexo visto é de uma sociedade norte-americana que conta com cerca de oito vezes mais habitantes com problemas de obesidade do que vegetarianos, de acordo com pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Saúde, do governo local. No entanto, a porcentagem de pessoas com alguma restrição pessoalmente imposta ao consumo de produtos de origem animal em países da Europa, como Itália, Reino Unido e Suécia, supera os 10% da população total, formada, em sua maioria, por jovens que aproveitam o incentivo público concedido aos produtores.
Para além da Europa, a Índia pode ser considerada o país “mais vegetariano” do mundo por conta de raízes tradicionalistas e religiosas, que aconselham a não violência contra os animais. Contudo, o número abrange por volta de 30% dos indianos, correspondentes a uma parcela mais idosa da população.
O Brasil e os atuais problemas
Na contramão da Índia e em um percurso semelhante ao dos europeus, a porcentagem de vegetarianos cresce no Brasil, chegando à marca de aproximadamente 30 milhões de pessoas, segundo pesquisa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), feita em 2018. Sendo também o maior produtor de carne bovina do mundo em 2025, o país teve seus índices ampliados em 75% em relação à década anterior, principalmente entre pessoas com menos de 30 anos e residentes nas regiões Sul e Sudeste.
Um dos exemplos é o carioca Lucas Pessanha, 26, que não se alimenta de carne vermelha há oito anos. O profissional de audiovisual afirma que fez a escolha pelo ovolactovegetarianismo — dieta que exclui as carnes, mas mantém ovos, leite e derivados — por não sentir falta do alimento nas refeições e que, ao completar a maioridade, pôde desenvolver melhor sua própria dieta e experimentar comidas diferentes.
“Pessoalmente, para mim, foi bem benéfico. Depois que virei vegetariano, passei a explorar outras possibilidades, principalmente proteínas de origem vegetal. São coisas que necessitam de mais elaboração para tirar o melhor sabor.”
No entanto, Lucas também aponta que saber dos impactos sociais e ambientais causados pelo modelo de produção de gado, como a expulsão de povos originários de suas terras e o desmatamento, o fortalece na decisão. Ainda assim, o jovem, mesmo que lamente as condições dos animais em situação de abate, compreende a dificuldade de algumas pessoas em se tornarem vegetarianas por conta das tradições existentes.
Além das questões apontadas por Lucas, as questões éticas e os impactos do atual sistema de produção de alimentos no meio ambiente também são tratados como as principais razões para o vegetarianismo entre os clientes da Dra. Carol Carrijo, 46, que atua como nutricionista vegetariana na cidade do Rio de Janeiro. Para ela, a escolha por uma nova forma de alimentação pode ser positiva, principalmente caso se torne equilibrada, com acesso a cereais, leguminosas e hortaliças.
Contudo, para além do público jovem, a nutricionista afirma que encontra nas mulheres a maior procura por uma alimentação saudável, dado inclusive registrado em pesquisas da SVB. Ela explica também que muitas acabam sendo mais abertas à mudança para ajudar na organização alimentar da família. Por fim, Carol contextualiza que a alimentação vegetariana não é garantia de ser saudável. Entretanto, a busca por alimentos naturais promove bem-estar e diminui as chances de doenças crônicas, como diabetes e obesidade.
“Eu entendo que a alimentação desregulada, principalmente quando há consumo excessivo de ultraprocessados, pode provocar doenças, seja essa alimentação vegetariana ou onívora.
O que eu quero dizer é que ser vegetariano não é garantia de uma alimentação saudável, [pois] batata frita e refrigerante são alimentos vegetarianos.
Mas a alimentação rica em alimentos in natura […] irá promover saúde e bem-estar.”
