Torto Arado: um Nordeste para além dos estereótipos

Foto capa: Divulgação/LivroseOpinião

Por Maria Luiza Massa

Publicado em 2019, Torto Arado acompanha duas irmãs que vivem em uma fazenda no sertão da Chapada Diamantina, na Bahia. A narrativa acompanha diferentes gerações de trabalhadores rurais e revela as condições de vida de uma comunidade submetida a relações de trabalho marcadas pela exploração.

A construção desse universo também está relacionada à trajetória do próprio autor. Itamar Vieira Junior é geógrafo e possui doutorado em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Além de ter desenvolvido pesquisas relacionadas à formação de comunidades quilombolas no interior da Bahia.

A relação entre terra, trabalho e comunidades tradicionais, presente no romance, dialoga com problemas que ultrapassam as páginas do livro. Dessa forma, Torto Arado pode ser lido como uma representação de estruturas sociais construídas ao longo da história brasileira.

A terra no livro não é apenas o lugar onde a história acontece. Ela é memória, sobrevivência e pertencimento. A trajetória de Bibiana e Belonísia é marcada por uma relação profunda com a terra. A comunidade vive e trabalha nela, mas não possui efetivamente o direito sobre o território. Em troca do trabalho, recebe autorização para permanecer no local, porém, em uma relação que remete às estruturas herdadas do período escravista.

Foto: Divulgação/ObservatóriodaLinguaPortuguesa

Para a pesquisadora e professora da área de literatura, Marta Aparecida Gonçalves, a construção das identidades é um dos elementos que evidencia a importância da obra. 

“A literatura pode desconstruir estereótipos ampliando o olhar do leitor, ao revelar a complexidade identitária e social da região que retrata, indo além de imagens reducionistas como a seca e a miséria.” Afirma a professora. 

O romance recebeu o Prémio Leya, em 2018, antes de sua publicação, e posteriormente conquistou o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos, ambos em 2020. O reconhecimento transformou a obra em um dos principais romances brasileiros contemporâneos e levou a história para além das fronteiras do país. 

O nordeste que existe dentro e fora do livro

A narrativa de Itamar não apresenta o sertão apenas como um espaço de escassez. Os personagens desenvolvem uma relação particular com o local e com os saberes transmitidos entre gerações. As práticas de cura e a espiritualidade ocupam um papel importante na comunidade, especialmente por meio de Zeca, personagem associado aos conhecimentos tradicionais e às religiões de matriz africana. 

A Bahia, estado onde a história de Torto Arado se passa, possui uma forte presença de comunidades quilombolas e uma história marcada pela concentração de terras e pela formação de comunidades rurais negras. Ao aproximar a narrativa desses dados, a obra deixa de ser apenas um retrato literário de um Nordeste do passado, o livro permite mostrar como as desigualdades construídas historicamente continuam influenciando a vida de quem vive e trabalha no campo. 

A obra, porém, se afasta da visão frequentemente associada, no imaginário popular, à seca, à pobreza, à fome e à migração. Torto Arado não ignora essas dificuldades, mas amplia o olhar. O sertão também é apresentado como território de memória, religiosidade e resistência. 

E ainda observando de outro ângulo, Marta afirma sobre a importância da percepcção do sexo feminino pelo olhar de Itamar.  

“Belonísia e Bibiana não representam apenas mulheres nordestinas, mas simbolizam as inúmeras mulheres negras, quilombolas e sertanejas do Brasil afora que lutaram contra o racismo estrutural e a opressão.” Destaca a doutora em estudos literários. 

A presença do Jarê

Em Torto Arado, a religiosidade não aparece apenas como pano de fundo. O romance apresenta o “Jarê”, manifestação religiosa de matriz africana tradicional da Chapada Diamantina, na Bahia. A prática reúne elementos de diferentes tradições africanas e indígenas e está profundamente ligada à história e à cultura das comunidades da região.

Foto: Divulgação/AlôAlôBahia

Na narrativa, a religião aparece principalmente por meio de Zeca Chapéu Grande, pai de Bibiana e Belonísia, uma importante liderança espiritual da comunidade. Além de atuar como curador, ele é responsável por preservar saberes transmitidos entre gerações, aproximando a espiritualidade da vida cotidiana dos moradores. 

Ao colocar o Jarê no centro da narrativa, Itamar Vieira Junior também dá visibilidade a uma manifestação religiosa pouco conhecida fora da Chapada Diamantina. A obra, assim, não apenas conta a história de uma comunidade rural, mas registra elementos de uma cultura que fazem parte da identidade nordestina e, especialmente, da história cultural da Bahia. 

Ultrapassando as páginas

No Carnaval, a narrativa ganhou espaço como inspiração para a escola Unidos de Vila Isabel, com o título “Torto arado — sobre a terra há de viver sempre o mais forte” retratando a resistência dos trabalhadores rurais, a ancestralidade afro-brasileira, a religião Jarê e a luta quilombola na Chapada Diamantina.

Foto: Divulgação/OGlobo

A obra também ganhou adaptação teatral com direção de Elísio Lopes Jr. Em formato de espetáculo musical, a adaptação amplia a experiência da narrativa ao transformar em cena personagens, conflitos e elementos culturais que, no livro, são apresentados pela literatura. 

Portanto, o sucesso de Torto Arado se torna parte de um debate cultural mais amplo e, com isso, a obra contribui diretamente para uma melhor percepção da cultura nordestina e sua ancestralidade.

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