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Por Manuela Greenhalgh
Hoje, 10 de outubro, é celebrado o Dia Mundial da Saúde Mental, data criada para chamar atenção para o cuidado psicológico e para o combate ao estigma em torno dos transtornos mentais. Nesse contexto, a situação dos professores brasileiros merece destaque, a rotina marcada por jornadas que ultrapassam o horário formal, estruturas precárias e pressão por resultados tem levado muitos desses profissionais ao esgotamento emocional, com impactos que chegam à vida pessoal e familiar. A data lembra que a saúde mental não é uma questão individual, mas também uma responsabilidade das instituições e das políticas públicas, e é por esse ângulo que a realidade da categoria precisa ser discutida.
Cerca de 2 a cada 3 professores apresentam sintomas de esgotamento emocional intenso, segundo a pesquisa nacional “O Estado do Professor Brasileiro 2026”, conduzida pelo Instituto Casagrande Social. Esse desgaste sai do âmbito laboral e atinge os trabalhadores dentro de casa. A alta demanda de afazeres é um dos fatores mais agravantes para essa questão, com provas para corrigir, planejamento semanal para fazer e turmas lotadas para cuidar, torna-se praticamente impossível para esses profissionais obterem um momento de descanso.
O levantamento aponta que o trabalho docente ultrapassa o horário formal: segundo o instituto, 76,5% dos professores afirmam trabalhar regularmente além da jornada prevista, e 68,9% têm dificuldade para se desligar mentalmente do trabalho depois de sair da escola. Na prática, o expediente se estende para noites e fins de semana, dedicados a corrigir avaliações, preparar aulas e responder a demandas de coordenações e famílias. O cansaço também pesa nas decisões de carreira. Quase metade dos entrevistados diz ter pensado seriamente em deixar a profissão no último ano.
Susanna Traiano, professora de redação do ensino médio na rede particular, afirma que, durante oito anos, prestou serviço a uma instituição que culpava os professores pelo mau desempenho dos alunos. Como consequência, sua vida pessoal foi afetada. A profissional afirma ter tido problemas no casamento, desenvolvido ansiedade e perdido tempo de lazer por causa da alta demanda de correção de redações. Segundo ela, a instituição exigia um nível de ensino muito elevado, que dificilmente era alcançado. A professora conta que corrigia cerca de 1.320 redações por bimestre e que todo o seu tempo livre era dedicado a essa tarefa. Ela afirma que a escola não tomou nenhuma medida para auxiliar os professores e que, por fim, foi demitida.
O relato de Susanna Traiano dialoga com um dos pontos centrais do levantamento, o desgaste profissional não termina necessariamente quando o professor deixa a escola, pois planejamento, correções e comunicação com as famílias seguem presentes em noites e fins de semana. No caso da professora, a correção de redações ocupou todo o tempo livre e, segundo ela, comprometeu a vida pessoal.
O professor de Geografia Paulo Roberto, da rede particular, afirma que o trabalho docente mudou desde a sua formação e que, a cada ano, novas atribuições são incorporadas à função. Segundo ele, as instituições, na busca por demonstrar excelência, transferem ao professor responsabilidades cada vez maiores, o que produz um desgaste crescente. Paulo relata ainda aumento da violência no ambiente escolar. De acordo com ele, há ameaças de alunos e de responsáveis, motivadas, por exemplo, pelo desconto de pontos em provas, trabalhos ou por uma advertência aos estudantes. O professor afirma também que a direção e a coordenação praticam assédio, com desrespeito, coação e humilhação, inclusive por atraso na entrega de tarefas.
Já na rede pública, o desgaste tem outra origem, a precariedade da estrutura física e episódios de violência em sala de aula. É o que descreve o professor Gabriel Alves, que atua em duas escolas públicas na Baixada Fluminense. Segundo ele, a falta de recursos afeta as duas unidades, mas a situação é mais grave na escola estadual, com janelas quebradas, quadros soltando da parede e portas sem fechadura. E isso se soma à insegurança do entorno da escola, localizada em uma região violenta.
Os relatos mostram causas distintas de um mesmo problema, na rede particular, cobrança por metas e sobrecarga de correções, na rede pública, estrutura precária e risco de violência. Apesar das diferenças, ambos os contextos levam ao mesmo resultado, professores sobrecarregados, sem apoio suficiente e, muitas vezes, tendo sua vida pessoal e sua saúde mental afetadas.
